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Eleições 2026 no Paraná: os reflexos do quociente eleitoral e das cláusula de barreiras na Assembleia Legislativa e na Câmara Federal

Puxadores de votos ajudam a eleger colegas, mas o desempenho do partido e a votação mínima de cada candidato podem mudar o destino de uma cadeira.

Por: João Gustavo Bersch
06/10/2026 às 16h56
Eleições 2026 no Paraná: os reflexos do quociente eleitoral e das cláusula de barreiras na Assembleia Legislativa e na Câmara Federal

Um candidato recebe quase 80 mil votos e fica de fora. Outro, com pouco mais de 44 mil, conquista uma cadeira na Câmara dos Deputados. A diferença pode causar estranheza, mas tem explicação: nas eleições para deputado, o resultado depende tanto da votação individual quanto da força do partido.

No Paraná, as eleições de 2026 deram exemplos claros dessa combinação. Houve candidatos que ajudaram suas legendas a ampliar bancadas, partidos que perderam oportunidades por falta de candidatos com a votação mínima e nomes conhecidos que não se elegeram, apesar do apoio expressivo nas urnas.

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Para entender esses resultados, é preciso conhecer a conta que transforma votos em cadeiras.

A primeira conta: quanto vale uma vaga?

O ponto de partida é o chamado quociente eleitoral: divide-se o total de votos válidos pelo número de vagas em disputa. Entram nessa conta os votos dados aos candidatos e às legendas. Brancos e nulos ficam de fora.

Em 2026, o Paraná registrou 6.180.261 votos válidos para deputado estadual e 6.217.229 para deputado federal. Com 54 cadeiras na Assembleia Legislativa e 30 na Câmara dos Deputados, os quocientes eleitorais ficaram em 114.449 votos para estadual e 207.241 para federal.
Isso não significa que cada candidato precise atingir esses números. O quociente serve, primeiro, para calcular quantas vagas cabem a cada partido ou federação — união de partidos que, nessa disputa, funciona como uma única legenda.

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A lógica é simples: quanto maior a votação do conjunto, maior a possibilidade de eleger integrantes da sua lista. Mas cada candidato também precisa cumprir exigências individuais.

Critério    Deputado estadual    Deputado federal
Vagas em disputa    54    30
Quociente eleitoral    114.449    207.241
Mínimo individual para as vagas iniciais — 10% do quociente    11.445    20.725
Mínimo do partido ou federação nas primeiras sobras — 80%    91.560    165.793
Mínimo individual nas primeiras sobras — 20%    22.890    41.449

Na distribuição inicial, divide-se a votação do partido pelo quociente eleitoral, desprezando a parte fracionada. As cadeiras são preenchidas pelos candidatos mais votados da legenda, desde que tenham alcançado o mínimo individual de 10%.

Depois vêm as chamadas sobras: as vagas que ainda não foram preenchidas. Nas primeiras rodadas dessa etapa, o partido precisa ter atingido 80% do quociente, e o candidato, 20%. A disputa ocorre por médias, calculadas dividindo os votos do partido pelo número de cadeiras já conquistadas mais uma. A maior média entre os habilitados leva a vaga, e a conta é refeita a cada rodada.

Longe de serem um detalhe, as sobras tiveram peso no Paraná: definiram sete das 54 cadeiras estaduais e seis das 30 federais. Ou seja, uma em cada cinco vagas da bancada federal foi decidida por médias.

Quando uma votação expressiva ajuda a eleger outros candidatos

É nesse sistema que aparecem os conhecidos “puxadores de votos”. Sua votação contribui para aumentar o número de cadeiras do partido, permitindo a eleição de colegas menos votados.

O Novo oferece um exemplo na disputa federal. Jeffrey Chiquini recebeu 425.399 votos, e Guilherme Kilter, 269.832. Juntos, reuniram 695.231 votos, quase 74% dos 941.131 obtidos pela legenda.

Com essa votação total, o partido conquistou quatro cadeiras já na distribuição inicial. Além de Chiquini e Kilter, foram eleitos Henrique Mecabô, com 65.706 votos, e Paulo Martins, com 44.029.

A votação dos dois primeiros, portanto, foi decisiva para a força da bancada. Os votos não são formalmente transferidos de um candidato para outro: todos entram na soma partidária que determina quantas cadeiras poderão ser ocupadas.

Na eleição estadual, o mesmo mecanismo ajuda a compreender o desempenho do PL. Paulo Melo recebeu 192.409 votos, e Jessicão, 131.673.

Somados, foram 324.082 votos para a legenda, que conquistou 12 cadeiras na distribuição inicial e outras duas por médias.

A quinta cadeira que escapou do Novo

A força dos puxadores, porém, não resolve tudo. O próprio Novo encontrou um limite na tentativa de ampliar sua bancada federal.
Neto Santos da Multiloja recebeu 39.702 votos. Ficou 1.747 votos abaixo dos 41.449 exigidos para disputar as primeiras sobras.

Embora o Novo tivesse média suficiente para uma quinta cadeira, faltava um candidato remanescente que cumprisse a votação mínima individual. Com isso, a oportunidade escapou. Na distribuição das sobras, o Podemos foi beneficiado, elegendo Da Costa do Perdeu Piá.

O episódio mostra como uma diferença relativamente pequena de votos pode alterar não apenas o destino de um candidato, mas a composição das bancadas.

Quase 80 mil votos, mas sem mandato

Roberto Requião enfrentou o outro lado dessa conta. Recebeu 79.921 votos para deputado federal, mas o PDT somou 141.934.

A votação partidária ficou abaixo tanto do quociente eleitoral de 207.241 quanto dos 165.793 votos necessários para participar das primeiras sobras. A votação individual de Requião, embora expressiva, não compensou a insuficiência de votos da legenda nessas etapas.

Os dois casos revelam exigências que caminham juntas: o candidato precisa de votos, e o partido também. No Novo, faltou votação individual para disputar outra cadeira. No PDT, faltou força coletiva.

A eleição começa antes da campanha

Para o eleitor, esses exemplos ajudam a explicar por que a lista dos eleitos não corresponde simplesmente à relação dos mais votados de todo o Estado. O voto em um candidato também contribui para o desempenho do partido ou da federação a que ele pertence.

Para políticos e dirigentes partidários, a lição é estratégica. Escolher uma legenda, formar uma nominata e avaliar o potencial de votos de cada integrante são decisões que podem definir o sucesso ou o fracasso de uma candidatura.

Nas eleições proporcionais, conquistar votos é indispensável. Entender como eles se transformam em cadeiras também.

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João Bersch
João Bersch
João Gustavo Bersch é advogado e atua principalmente com direito eleitoral.
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