
Uma carta propondo ações para enfrentar os desafios impostos pelas mudanças climáticas será entregue para representantes dos poderes Executivo, Legislativo, e Judiciário, pelo Simepar (Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná). O documento, elaborado por ocasião do Dia Meteorológico Mundial (23), conta com a visão de diretores do maior centro de pesquisa de tempestades severas do mundo, do principal pesquisador de tornados do Brasil, e de integrantes da Defesa Civil de três estados brasileiros, além dos especialistas do próprio Simepar.
A carta é a conclusão do primeiro Seminário Internacional de Tornados, promovido nesta segunda-feira (23) no auditório do Simepar, em Curitiba. Participaram do evento, virtualmente, direto de Oklahoma (EUA), Russell S. Schneider, diretor do Storm Prediction Center da NOAA; e DaNa L. Carlis, diretor do National Severe Storms Laboratory da NOAA, que é o principal centro de estudos de tornados e tempestades severas do mundo. Os diretores da NOAA contextualizaram como são feitas nos Estados Unidos a previsão e emissão de alertas para tornados.
A apresentação inspirou os profissionais brasileiros, que já seguem muitas diretrizes utilizadas pelos americanos. “Nós precisamos criar resiliência, aprender a nos preparar para os eventos extremos, mas também nos preparar para vencermos obstáculos, transpormos barreiras e criarmos uma nova cultura de preparação para as mudanças climáticas com as quais nós teremos que aprender a conviver cada vez mais”, disse Paulo de Tarso, diretor-presidente do Simepar. “Com a melhoria dos equipamentos que nós temos hoje, precisamos estar preparados para aplicar a melhor tecnologia com as melhores pessoas, com melhor formação do nosso pessoal”, acrescentou.
O pesquisador do Simepar Reinaldo Silveira, pós-doutor em Matemática Aplicada, também palestrou no evento. Ele é colaborador da Organização Meteorológica Mundial, e analisa como os dados locais podem contribuir com o sistema global de observações meteorológicas. Durante a palestra, ele relembrou o tema do Dia Meteorológico Mundial em 2026: observar o hoje, para proteger o futuro.
“Tudo isso implica na qualidade final ao usuário, à sociedade e também à parte de pesquisa científica que é realizada globalmente em diversos centros mundiais de meteorologia”, explicou. “E o Simepar é um centro de excelência, também um laboratório de observações, e isso é muito importante para conhecer esses processos, ver como podemos melhorar, nos adaptar aos problemas atuais da sociedade, e assim assim por diante”, destacou.
O evento também contou com uma palestra de Ernani de Lima Nascimento, o maior pesquisador de tornados do Brasil, e que integra a equipe do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Ele analisa se as tempestades severas têm se tornado mais frequentes, ou se recebem impacto das mudanças climáticas.
De acordo com ele, a região Sul do Brasil sempre apresentou condições atmosféricas que favorecem a formação de tempestades que podem produzir tornados. “O que a gente realmente percebe ultimamente é que o registro de ocorrências dessas tempestades está mais fácil, já que as pessoas carregam celulares que podem fazer o registro visual do fenômeno e rapidamente disseminar nas redes sociais. Além disso, nos últimos 40 anos, nós temos fortes indícios de que essas condições que já existiam estão ficando mais frequentes”, afirma o professor Ernani Nascimento.
SIMEPAR- Houve, ainda, palestras da gerente de Meteorologia do Simepar, a mestre em Sensoriamento Remoto Sheila Paz; dos mestres em Meteorologia Reinaldo Kneib e Leonardo Furlan, meteorologistas da sala de operações do Simepar; e da doutora em Ciências Geodésicas e gerente de Geointeligência, Elizabete Peixoto. Depois, uma mesa-redonda entre o professor Ernani e representantes das Defesas Civis do Paraná, Espírito Santo e Santa Catarina encerrou o evento. O Simepar compõe a equipe de meteorologia que apoia a emissão de alertas da Defesa Civil nestes três estados.
Durante o evento, a equipe do Simepar detalhou o trabalho desenvolvido no Paraná, com informações do laudo técnico dos tornados que atingiram o Estado em 7 de novembro de 2025, e que causaram destruição e mortes em Rio Bonito do Iguaçu e Guarapuava, e também atingiram outras cidades. Vanessa D’Ávila, diretora executiva do Simepar, apresentou as diretrizes de comunicação da instituição, indispensáveis para que as informações de previsão e análise cheguem com clareza aos órgãos de resposta imediata, e também à população.
“É muito importante falar sobre a qualidade dos dados. Não basta ter os dados, é necessário cuidar da governança, do controle de qualidade dos dados, da homogeneidade, das séries históricas, para que possamos ter uma boa verdade em termos de passado e presente. E com isso a gente consegue calibrar melhor os modelos climáticos, ter uma melhor previsão climática para o futuro”, ressalta.
CARTA- A carta elaborada ao final do evento propõe, diante dos desafios impostos pelas mudanças climáticas e pela intensificação dos eventos extremos, o fortalecimento da governança baseada em evidências, com integração entre instituições e gestores públicos; a ampliação de investimentos em monitoramento meteorológico e sistemas de alerta precoce; o reconhecimento institucional como fonte oficial de informação relacionada ao tema como referência para comunicação de riscos; a promoção de ações integradas entre meteorologia, defesa civil e planejamento de políticas públicas; o combate à desinformação, com valorização da ciência e da comunicação qualificada.
O documento será entregue aos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário para inspirar novas políticas públicas baseadas nas necessidades constatadas pelos especialistas.
Segundo o professor Ernani de Lima Nascimento, é um problema que vai muito além da meteorologia. Envolve diversas áreas de conhecimento, como a comunicação, a educação, até mesmo a psicologia, para que a sociedade brasileira esteja preparada para, ao receber um aviso meteorológico, buscar ações que vão mitigar o impacto desses fenômenos extremos. “Há a necessidade de construirmos uma cultura de prevenção de desastres, e nós acreditamos que as escolas seriam os lugares para começar isso”, ressalta o professor.
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