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Nodari, uma biografia fantástica       

Ele era pouco mais que um turista, mas raras personalidades foram mais importantes que ele para Cascavel e região  

24/03/2026 às 08h05
Por: Tissiane Merlak Fonte: Alceu Sperança
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Pedro Nodari abriu forte campanha pelo asfaltamento das estradas do interior do Paraná após a morte de Ciro Nardi em acidente com um jipe de sua empresa 
Pedro Nodari abriu forte campanha pelo asfaltamento das estradas do interior do Paraná após a morte de Ciro Nardi em acidente com um jipe de sua empresa 

Na lei municipal 677, de 8 de outubro de 1969, o prefeito Octacílio Mion especificava que a Câmara Municipal “decretou” e ele sancionava como lei a abertura de um crédito especial para pagamento à empresa Nodari S/A de um valor que a Prefeitura devia à empresa e esta não cobrou, referente a despesas feitas pelo Município em 1968.  

Uma situação em que a Prefeitura “esquece” de pagar e a empresa fornecedora não se lembra de cobrar é absolutamente rara. No entanto, a conjuntura explica. Eram tempos de ditadura e o prefeito Octacílio Mion, eleito pelo PTB antiditatorial, era bombardeado com ferozes acusações, que repentinamente desapareceram quando ele saiu do PTB e aderiu ao partido do governo – a Arena.   

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Segundo uma das acusações, João Daniel Zimmermann (1930–1992) seria “testa de ferro” de Mion em um episódio no qual João teria supostamente recebido um automóvel Aero-Willys dado como propina pela empresa Nodari S/A após a compra de uma pá-carregadeira pela Prefeitura.

Mas deixar de cobrar não foi a única atitude surpreendente de Pedro João Nodari, o proprietário da empresa. Algacyr Biazetto contou que ele era meticuloso e detalhista em tudo e achava que o sucesso – e não o diabo, como diz o ditado popular – mora nos detalhes.

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Providencia extraordinária 

Um exemplo disso se deu quando Biazetto decidiu participar de uma prova automobilística entre Curitiba-Ponta Grossa com um veículo Itamaraty novíssimo que comprou na Nodari. 

Biazetto aumentou o tamanho do tanque e mandou o piloto Tamoio Fedumenti levar o carro ao aeroporto de Curitiba para abastecê-lo com gasolina verde (aditivada) com a certeza de um bom desempenho na corrida. A caminho do aeroporto, o carro fundiu e foi levado à oficina da Nodari, onde Biazetto, o filho Luiz Carlos e o piloto Tamoio Fedumenti quiseram acompanhar o conserto, mas foram proibidos.

Sem uma palavra vinda da oficina, o conserto não acabava e perderam a chance de disputar a corrida no domingo. Na segunda-feira imediata, ainda com o acesso ao carro negado pelos mecânicos, Biazetto ameaçou chamar jornalistas para “ver o que aconteceu”.

Só então apareceu o inspetor da Aero-Willys, que confessou: “Nós temos uma cota de 400 Itamaratys para vender em Curitiba. Se funde o motor durante a corrida, não vende nenhum. Então, nós preparamos o carro para não correr”.

Fosse ou não uma artimanha de Pedro Nodari, esse folclórico episódio entrou na conta de suas surpreendentes decisões, como pular de um negócio para outro totalmente diferente e trabalhar ao mesmo tempo em atividades experimentais. 

Do café à maçã

Pedro João Nodari nasceu em Antônio Prado (RS) em 22 de março de 1914, filho do marceneiro italiano Giovani Nodari e Honorata Eleonor Beneti. Sua cidade natal, que homenageou o ministro da Agricultura do mesmo nome, foi uma importante colônia de imigrantes italianos.

Depois dos primeiros estudos no Colégio dos Irmãos Maristas, cumprindo só o curso primário, Pedro já começou a trabalhar, seguindo a profissão do pai, e aos 16 anos, em 1930, iniciou sua vida independente, transferindo-se para Videira (SC), onde trabalhou como caixeiro-viajante.

Mas logo aos 17 anos voltou a estudar, conciliando a escola com o trabalho. Em 1936, aos 22, ele registrava sua primeira firma – a “Pedro Nodari”, que operava em torrefação de café e representações. 

Em 1942, associou-se em uma nova firma (Dresch, Nodari & Companhia), que em 1948 evoluiu para a Nodari & Cia Ltda., trabalhando com utilidades domésticas e implementos agrícolas. 

Era uma loja de eletrodomésticos, máquinas, motores, móveis e veículos, que logo assume a representação da Fiat para a região de Videira, distribuindo tratores e pás-carregadeiras. Mais tarde a área se estendeu para todo o Estado de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul.

A partir de 1949 começou a distribuir caminhões FNM e tratores Fiat, até se transferir para Curitiba em 1952. Dois anos depois transformou a firma original em Nodari S/A Comercial e Importadora, mais tarde Nodari S/A Comercial e Industrial. 

Qualidade superior

Além de vender tratores e equipamentos rodoviários e industriais, Nodari também passou a representar as marcas Michigan e Koehring. E não só: além do café, ele também atuou no ramo de plantação em larga escala de maçãs, chegando a 200 mil macieiras em Fraiburgo (SC), na granja Nodarisa. 

Suas macieiras, cujo plantio começou em 1969, apresentaram frutas que superavam em qualidade as argentinas, seguindo uma técnica francesa e dispensando o congelamento. 

Pedro também foi gerente da Distribuidora Diesel Ltda e diretor da Federação do Comércio Varejista de Automóveis do Estado do Paraná. O braço de sua empresa em Cascavel veio em 1958, operando com caminhões Mercedes-Benz e depois Ford. 

Não dirigia a empresa no Oeste: para representá-lo veio Altamir Silva, que vira se destacar no processo de evolução de Cascavel para grande cidade.

Filho do comerciante Edmundo Silva, sócio da empresa da Nodari S/A que pouco antes de falecer passou as ações aos filhos Altamir, Milton, Wilson, Osni e Sidinei, foi como sócio-proprietário da filial da Nodari S/A em Cascavel que Altamir Silva gerenciou a empresa por 30 anos.

Cascavel estava abandonada

Altamir contou que ao chegar a Cascavel encontrou os cidadãos desanimados com a proximidade do fim do ciclo da madeira. A ameaça de ruína para a cidade se aproximava, perspectiva desagradável que requeria uma reação imediata. Altamir Silva recordou:

– Numa reunião com os empresários locais, o sr. Pedro Nodari depois de ouvir os nossos relatos sobre as dificuldades que enfrentávamos, deu uma sugestão: “Criem uma associação empresarial local. Assim terão mais força para reivindicar providências governamentais para melhoria da região”.

A iniciativa conduziu à formação da Associação Comercial de Cascavel – mais tarde Associação Comercial e Industrial (Acic) – na noite do dia 4 de abril de 1960, em assembleia geral realizada nas dependências do Tuiuti Esporte Clube.

“Nossos maiores problemas eram com o Estado por causa de estrada”, lembra Altamir. “A atual BR-277 era a BR-35, e eram os militares que cuidavam. Era um desastre. Chovia, não andava ninguém”.

A luta por boas estradas 

Foi em uma estrada mal conservada que no chuvoso 31 de dezembro de 1959 o motorista Reinaldo Campagnollo partiu para uma viagem de trabalho a serviço da Nodari. A missão era entregar um jipe para um cliente em Campo Mourão. A poucos dias de ingressar no serviço militar, seu colega de esportes, Ciro Nardi, pediu para acompanhá-lo.

Deveria ser uma viagem tranquila e sem surpresas, mas em uma curva entre Campo Mourão e Peabiru o jipe em que viajavam tombou e Ciro, um dos melhores jogadores do Tuiuti Esporte Clube, feriu-se gravemente, morrendo em seguida. Hoje, dá nome ao centro esportivo de Cascavel.

Nesse acidente, o Tuiuti perdeu dois jogadores, pois Reinaldo nunca mais voltou a entrar em campo. Sendo profissional, porém, não podia parar de ser motorista, e nessa condição também passou à história de Cascavel como um dos iniciadores do automobilismo.  

A Acic foi criada no ano seguinte tendo como uma de suas bandeiras centrais o asfaltamento das rodovias da região. Enquanto essa luta continuava, a Nodari S/A se expandia por todo o Sul do país e Pedro era eleito em 1973 o Comerciante do Ano pela Federação do Comércio do Paraná. 

Sempre um viajante

Afora Cascavel, a Nodari S/A também tinha filiais em Francisco Beltrão e nas cidades catarinenses de Blumenau, São José e Chapecó, e nas gaúchas e Porto Alegre e Carazinho. Mas o Brasil já era pouco. Em 1974, Pedro Nodari recebeu o título de “Cavaliere” da República Italiana. 

Viajando seguidamente para a Europa, especialmente a Itália, outros países da América do Sul e estados Americanos, Nodari falava diversos idiomas e para desenvolver seus negócios tanto nacionais quanto internacionais, fazia uma cuidadosa pesquisa antes de seguir para o local escolhido.

Casado com Zenaide Bordignon, Nodari teve duas filhas: Marilena Luíza, casada com Guilherme Thomazini, e Marly Leonor, casada com Flávio Brandalise, diretores da Nodari S/A. Sua vida recheada de peripécias terminou em 16 de junho de 1983, em São Paulo. 

Mais uma de suas peculiaridades foi que ele jamais morou em Cascavel: vinha para participar das atividades da Acic e da empresa, mas sempre ficava hospedado nas casas das filhas. Aliás, desde que partiu do lar paterno, aos 16 anos, jamais parou de viajar.  

A primeira família: A ferrovia e a lenda 

A estrada de ferro que o governo imperial planejou para ser a vanguarda de ocupação do Oeste paranaense foi engolida pelas trocas de governo e de agenda. De qualquer forma, era uma definição clara de política para o Oeste, desmentindo a lenda do espontaneísmo desbravador.

Essa política será de fato iniciada quando o ministro João Alfredo criar a Comissão Estratégica do Paraná, em junho de 1888, origem da picada militar que por sua vez originou a Encruzilhada dos Gomes (Cascavel).

Quando Laurentina Lopes da Silva nasceu, em 12 de dezembro de 1901, filha de Joaquim Lopes da Silva e Maria Auta do Espírito Santo, sua cidade natal (Tomazina) era considerada a vanguarda mineira/paulista de ocupação do Noroeste do Paraná.

Aliás, Joaquim Lopes e Mara Auta também tiveram outro filho de importância central na formação de Cascavel: Aníbal Lopes da Silva, ligado por sua vez ao clã Pompeu.

Há uma lenda contada às crianças em Tomazina sobre uma cobra encantada que um dia vai despertar. Como para transformar essa lenda em realidade, os irmãos Aníbal e Laurentina, filhos e netos, contribuíram de forma decisiva para a construção de Cascavel.   

Tomazina: origem de pioneiros cascavelenses  

 

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