
O Oeste do Paraná, um dos maiores polos produtores de proteína animal do mundo, começa a sentir os primeiros reflexos da escalada do conflito no Oriente Médio, envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel. A região, que sustenta boa parte da produção e exportação de carne de frango do Brasil, enfrenta agora um cenário de incertezas logísticas, aumento de custos e riscos comerciais que podem impactar toda a cadeia produtiva.
O sinal de alerta se intensificou neste mês de março de 2026, quando o agravamento das tensões internacionais passou a interferir diretamente nas rotas marítimas e no fluxo de exportações para países do Oriente Médio, destino estratégico para o setor. Ainda que o comércio não tenha sido interrompido, produtores, cooperativas e exportadores já lidam com dificuldades operacionais e financeiras que podem comprometer a competitividade brasileira.
O Paraná lidera a produção de carne de frango no Brasil, com números que evidenciam sua relevância global. Em 2025, o estado abateu cerca de 2,29 bilhões de aves, consolidando-se como o principal polo da avicultura nacional. A produção anual ultrapassa 5,8 milhões de toneladas, representando entre 34% e 42% de toda a carne de frango produzida no país.
Dentro desse cenário, o Oeste se destaca como o coração produtivo do setor. A região concentra cinco das dez maiores cooperativas agroindustriais do Brasil e responde por uma fatia expressiva da produção estadual. Juntas, cooperativas abatem mais de 2,2 milhões de aves por dia.
Municípios como Cascavel se tornaram referência nacional, reunindo estrutura industrial, logística e tecnológica que sustenta o protagonismo paranaense no mercado internacional. “Não por acaso, o estado respondeu por cerca de 42% das exportações brasileiras de carne de frango nos últimos anos, com forte participação do Oeste”, lembra o diretor da Coopavel, Dilvo Grolli.
O Oriente Médio é um dos principais destinos da carne de frango brasileira, absorvendo de 25% a 30% das exportações do setor. “Países da região dependem da proteína importada, o que historicamente garante uma demanda constante para o Brasil”, conta o secretário de estado da Fazenda Norberto Ortigara.
No entanto, o conflito envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel trouxe instabilidade para essa relação comercial. A principal preocupação está no Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais importantes do mundo, por onde passa grande parte do comércio internacional de petróleo e também cargas alimentícias.
Com o aumento das tensões, há risco de o bloqueio se estender ou restrição de navegação na região, o que já vem obrigando exportadores a redirecionar rotas e rever estratégias logísticas.
Os impactos já são sentidos na prática pelo setor produtivo. O frete marítimo ficou mais caro, impulsionado pelo aumento dos prêmios de seguro de guerra. Empresas de navegação também passaram a restringir ou suspender o envio de contêineres para determinadas áreas do Oriente Médio, afetando diretamente o transporte de cargas refrigeradas.
Outro problema é o tempo de entrega. Com rotas alternativas, como desvios pela África ou conexões via Turquia, o trajeto se torna mais longo, elevando custos e reduzindo a eficiência logística. Há ainda relatos de navios carregados com carne de frango aguardando autorização para atracar em portos da região, o que aumenta o risco de perdas e compromete contratos.
Para um setor que trabalha com margens ajustadas e alta escala de produção, qualquer elevação de custo impacta diretamente a rentabilidade.
Além das dificuldades nas exportações, a guerra também levanta preocupações sobre o custo de insumos essenciais para a produção avícola. O Oriente Médio é um importante fornecedor de fertilizantes, como a ureia, utilizada na produção de grãos que compõem a ração das aves.
Com a instabilidade geopolítica, há risco de aumento nos preços desses insumos, o que pode encarecer toda a cadeia produtiva. Para o Oeste do Paraná, onde a integração entre agricultura e avicultura é intensa, esse efeito pode ser significativo.
Especialistas apontam que a elevação dos custos pode pressionar produtores e cooperativas, especialmente em um cenário já desafiador no mercado internacional.
Apesar das dificuldades, o setor avícola brasileiro demonstra resiliência. Entidades como a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) têm trabalhado para garantir o escoamento da produção, mesmo diante das adversidades.
A adoção de rotas alternativas e a diversificação de mercados são algumas das estratégias em curso. “Além disso, a carne de frango continua sendo uma das proteínas mais acessíveis do mundo, o que ajuda a sustentar a demanda, mesmo em cenários de crise”. Destaca o agrônomo Luiz de Carli.
Ainda assim, o momento exige cautela. O prolongamento do conflito pode ampliar os impactos e exigir ajustes mais profundos na logística e na estratégia comercial do setor.
No Oeste, onde a economia gira fortemente em torno do agronegócio, os reflexos desse embate internacional são acompanhados com atenção. “A região, que ajudou a consolidar o Brasil como o maior exportador de carne de frango do mundo, agora enfrenta um cenário em que fatores externos podem influenciar diretamente sua atividade econômica”, segue o agrônomo.
A combinação de custos mais altos, riscos logísticos e incertezas geopolíticas coloca o setor em estado de alerta. Ainda que não haja paralisação das exportações, o impacto já é percebido e tende a se intensificar caso o conflito se prolongue.
“Para uma região que depende da eficiência produtiva e da competitividade global, o desafio agora é manter o ritmo diante de um cenário internacional cada vez mais imprevisível”, pondera o economista Marcelo Almeida.
A região se consolidou como um dos principais polos mundiais de produção de proteína de frango a partir de um modelo estruturado no cooperativismo e na organização da cadeia produtiva. Cooperativas como C.Vale, Copacol, Lar e Coopavel desempenharam papel decisivo ao integrar pequenos e médios produtores, garantindo acesso à tecnologia, assistência técnica e mercado. Esse modelo fortaleceu a produção regional e deu escala à atividade.
Outro fator determinante foi a adoção do sistema de integração avícola, implantado a partir das décadas de 1970 e 1980. Nesse formato, as agroindústrias fornecem insumos como pintainhos, ração e suporte técnico, enquanto os produtores ficam responsáveis pela criação das aves. O sistema trouxe padronização, qualidade e eficiência, permitindo que municípios como Toledo e Cascavel se destacassem nacionalmente na produção.
A competitividade do Oeste paranaense também está diretamente ligada à produção local de grãos, especialmente milho e soja, base da alimentação das aves, o que reduz custos logísticos. Aliado a isso, os investimentos em tecnologia, com aviários modernos e controle sanitário rigoroso, apesar da distância do Porto de Paranaguá, mesmo assim garantindo eficiência na exportação para mercados como China, Japão, Oriente Médio, consolidando o Paraná como líder nacional na produção e exportação de carne de frango.
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