
O avanço do fenômeno meteorológico El Niño reacende o alerta para a ocorrência de tempestades, vendavais e chuvas de granizo na região Sul do país. Para detalhar como Cascavel está se preparando para enfrentar esse período de instabilidade climática, a jornalista Juliet Manfrin recebeu em nossos estúdios o coordenador da Defesa Civil do município, Nei Haveroth. Ele explicou as ações práticas em andamento, o mapeamento das áreas de atenção na cidade e os trâmites burocráticos que visam dar mais agilidade no atendimento à população em situações de emergência.
No episódio desta semana do podcast Diálogos com a Ju, a jornalista Juliet Manfrin conversou com Nei Haveroth sobre as ações preventivas e o plano de contingência de Cascavel diante das previsões de chuvas intensas provocadas pelo El Niño. Confira a seguir uma síntese da entrevista. O episódio completo você assiste em vídeo nas plataformas digitais do Preto no Branco.
Preto no Branco – Diante das perspectivas de que o fenômeno El Niño se intensifique nesta temporada, o que a população de Cascavel e da região Oeste pode esperar em termos práticos?
Nei Haveroth – Significa que nós vamos ter um período de chuvas mais intensas e frequentes, que podem vir acompanhadas de granizo e vendavais. Há uma possibilidade real de intensificação dessas tempestades torrenciais. Esse trabalho preventivo já vem sendo articulado pela Defesa Civil Estadual desde o final do ano passado. Recebemos essas informações técnicas diretamente do Estado para traçar nossos planos locais e preparar a estrutura de resposta rápida.
Preto no Branco – Isso significa que teremos um inverno diferente do habitual na nossa região?
Nei Haveroth – Exatamente. Esse período chuvoso tende a se fazer presente no inverno e se estender pela primavera e verão. Teremos um inverno com maior recorrência de massas de ar frio acompanhadas de chuva volumosa. Mas é importante ressaltar que não há motivo para desespero. O momento exige cautela, precaução e atenção constante aos alertas que emitimos pelos órgãos oficiais.
Preto no Branco – De que forma as ações de planejamento e comportamento urbano influenciam na prevenção de desastres causados pela chuva?
Nei Haveroth – As ações de planejamento urbano, principalmente nas construções, precisam de um olhar diferente daqui para a frente. Questões como a permeabilidade do solo, o uso e ocupação das áreas urbanas e o sistema de drenagem são fundamentais. Há também o problema do descarte irresponsável de lixo por uma parcela da população. Esse lixo obstrui bueiros, entope galerias e represa a água em pontes, o que pode acabar custando vidas. A prevenção deve ser trabalhada nos momentos em que o tempo está firme.
Preto no Branco – Cascavel possui áreas mapeadas de risco? Onde estão concentrados esses pontos de maior atenção?
Nei Haveroth – Dentro do nosso plano de contingência, nós temos catalogadas 77 áreas no perímetro urbano de Cascavel consideradas "áreas de atenção". Geralmente, são locais onde cruzam rios ou córregos que possuem bueiros e pontes. Se esses pontos estiverem obstruídos, qualquer chuva torrencial pode provocar represamentos e alagamentos no entorno. Não temos casos alarmantes porque Cascavel é uma cidade que cresceu de forma relativamente planejada, mas o monitoramento dessas áreas de atenção precisa ser permanente.
Preto no Branco – O senhor poderia citar um exemplo prático de um ponto que exige intervenção constante do município?
Nei Haveroth – Um ponto histórico fica na baixada de ligação entre o bairro Cancele e o Canadá, na região do Rio das Antas. Trata-se de uma microbacia altamente impermeabilizada. Quando chove forte, a água desce de uma vez só para o rio, arrastando galhos e lixo. Em um intervalo de apenas 60 dias, nós fizemos a desobstrução daquela ponte três vezes. Há projetos em andamento para a construção de uma ponte maior naquele local para resolver o problema de forma definitiva.
Preto no Branco – Recentemente foi aprovada a criação do Fundo Municipal de Proteção e Defesa Civil em Cascavel. Qual é a finalidade prática desse fundo?
Nei Haveroth – Cascavel e a grande maioria dos municípios paranaenses não contavam com essa legislação. Trabalhamos na elaboração da lei desde o início do ano, ela foi aprovada pela Câmara de Vereadores e já possuímos o CNPJ. A finalidade prática é dar agilidade. Em cenários de emergência ou calamidade pública, o município pode concentrar e remanejar recursos nesse fundo para aquisições rápidas e dispensa de licitação. Além disso, os governos estadual e federal hoje exigem a existência desse fundo constituído para repassar recursos aos municípios. Ele também servirá para financiar obras de prevenção.
Preto no Branco – Se houver a necessidade de evacuar famílias de áreas de risco durante um temporal, como a Defesa Civil trabalha hoje com essa perspectiva?
Nei Haveroth – Nosso plano de contingência conta com 27 salões comunitários cadastrados, além de ginásios de esportes e o Centro de Eventos, para acolher as famílias de acordo com a região. Estamos restabelecendo os Núcleos Comunitários de Proteção e Defesa Civil (Nupdecs) em cada bairro para treinar moradores locais a nos ajudarem na logística de abertura e preparação desses abrigos em caso de emergência.
Preto no Branco – Qual é a orientação principal para o cidadão no momento em que a água começa a subir ou o vento forte atinge a residência?
Nei Haveroth – A vida deve estar em primeiro lugar. Se a água começar a invadir, a orientação é não esperar. Pegue seus documentos pessoais, desligue a energia se for seguro e saia do local imediatamente. Procure um abrigo seguro e acione o Corpo de Bombeiros pelo 193 ou a Defesa Civil pelo 199. Depois que o temporal passar, as equipes técnicas farão a avaliação da estrutura.
Preto no Branco – Como o morador de Cascavel pode se cadastrar para receber esses alertas preventivos direto no celular?
Nei Haveroth – É um procedimento gratuito. Basta enviar uma mensagem de texto (SMS) para o número 40199 contendo o CEP da residência. O sistema da Defesa Civil Estadual valida o cadastro e passa a enviar alertas de tempestades ou ventos severos diretamente para o celular cadastrado, informando o nível de risco. É um hábito simples que ajuda a salvar vidas.