
A intensificação do El Niño deve aumentar o risco de eventos climáticos extremos no Paraná nos próximos meses. A previsão preocupa produtores rurais diante da possibilidade de mais tempestades, vendavais, granizo e períodos de chuva intensa.
Segundo o Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar), com informações da Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), há mais de 90% de probabilidade de o fenômeno atingir intensidade forte.
O pico deve ocorrer entre outubro e dezembro, com influência sobre o clima paranaense até o primeiro trimestre de 2027.
O meteorologista Reinaldo Kneib, do Simepar, explica que o El Niño reforça características climáticas que já ocorrem no Estado.
“Como a dinâmica já é mais chuvosa, com uma frequência maior de tempestade, o El Niño deixa ainda mais instável. Nós podemos ter uma frequência maior de vento, tempestade, dias chuvosos, com mais dias consecutivos com chuva”, afirma.
Um dos exemplos dos prejuízos provocados pelos eventos extremos é o da produtora Leticiane Flugel, de Piraí do Sul. No início de agosto, um tornado atingiu a propriedade onde ela vive com o marido, Juliano Santos.
O casal havia investido na construção de uma estufa e no plantio de 4 mil pés de morango. As plantas estavam com 90 dias e próximas da primeira colheita quando o tornado atingiu a propriedade.
A casa, a garagem, a estufa e o carro foram danificados. O prejuízo chegou a R$ 20 mil. Como não tinha seguro, a família contou com a ajuda de vizinhos para cobrir o telhado e iniciar a reconstrução.
“Você perde uma vida em cinco segundos”, relatou Leticiane sobre a experiência.
Para o presidente do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette, o cenário exige medidas de prevenção e políticas de proteção ao produtor.
“O El Niño intenso, com tempestades, vendavais e chuvas, significa mais risco para os nossos produtores rurais. Vamos seguir cobrando o poder público quanto a uma política de seguro rural acessível, além de medidas e estratégias de prevenção”, afirmou.
O agrônomo Bernardo Lipski, do Simepar, orienta os produtores a acompanhar diariamente os alertas meteorológicos. A medida permite antecipar ações para reduzir os danos nas propriedades.
Ventos fortes e tornados podem atingir lavouras, estufas, galpões, silos, redes elétricas e equipamentos. O granizo pode destruir plantações em poucos minutos, enquanto a chuva intensa aumenta o risco de alagamentos, enxurradas e erosão.
Durante alertas de tempestade severa, a recomendação é evitar áreas abertas, árvores isoladas e estruturas metálicas. Também é indicado suspender a aplicação de defensivos e a operação de máquinas, além de verificar previamente as condições de telhados e estufas.
Máquinas, equipamentos e animais devem permanecer em locais protegidos.
Nas culturas de inverno, o excesso de umidade pode comprometer a qualidade dos grãos e resultar em descontos no preço pago ao produtor. Atualmente, esse tipo de perda não é coberto pelo seguro rural, que protege apenas contra perdas de produtividade.
Na soja, chuvas intensas durante o início do plantio podem provocar erosão e levar sementes recém-plantadas, aumentando a necessidade de replantio. Períodos prolongados de nebulosidade também podem alongar o ciclo da cultura.
A umidade elevada favorece ainda a ocorrência de ferrugem asiática, aumentando a necessidade de aplicações de fungicidas e o custo de produção.
De acordo com levantamento citado pelo Sistema FAEP, em 2025 foram registrados 503 atendimentos relacionados a eventos climáticos extremos em 244 municípios do Paraná.
Foram 241 ocorrências de vendavais, 75 de granizo e oito tornados. Os eventos atingiram quase 273 mil pessoas e provocaram R$ 1,9 bilhão em prejuízos.
Somente os tornados afetaram 23 mil pessoas e causaram R$ 104,5 milhões em prejuízos. Sete municípios decretaram situação de emergência e Rio Bonito do Iguaçu decretou calamidade pública.
Em 2026, até o fim de agosto, foram registradas 310 ocorrências em 160 municípios. Desse total, 272 estavam relacionadas a eventos climáticos extremos, incluindo 102 vendavais, 46 alagamentos, 41 ocorrências de granizo e sete tornados.
Esses eventos atingiram cerca de 160 mil pessoas e causaram quase R$ 860 milhões em prejuízos.
Os sete tornados registrados em 2026 ocorreram em janeiro, junho e agosto. Eles afetaram quase 2 mil pessoas, provocaram R$ 12,8 milhões em prejuízos e levaram Piraí do Sul, Reserva e São José dos Pinhais a decretarem situação de emergência.
O cenário também preocupa o setor de seguros. Segundo o Sistema FAEP, as seguradoras já avaliam o aumento do risco em determinadas safras e restringem a comercialização de algumas apólices.
Com a redução da subvenção governamental, o custo do seguro também pesa mais sobre o produtor.
Para o Sistema FAEP, a subvenção ao seguro rural é uma das principais ferramentas para reduzir os impactos financeiros provocados por eventos climáticos extremos.
O produtor que sofrer danos deve fotografar e filmar os prejuízos antes de retirar materiais ou limpar a propriedade.
Também é recomendado procurar a Defesa Civil ou a prefeitura para registrar formalmente os danos e guardar o número do protocolo.
Produtores com seguro devem comunicar o sinistro imediatamente à seguradora ou ao corretor. Em financiamentos com Proagro, é necessário comunicar o banco e solicitar a abertura da Comunicação de Ocorrência de Perdas (COP) antes de destruir restos de lavoura ou iniciar novo cultivo.
Em caso de falta de energia elétrica, o produtor pode acionar a Copel pelo canal Copel Agro, no telefone 0800 643 7676 ou pelo WhatsApp (41) 3013-8970.
O cadastro de alertas meteorológicos pode ser feito por SMS. Para isso, basta enviar uma mensagem para o número 40199 com o CEP da residência.
Também é possível receber alertas pelo WhatsApp, salvando o número (61) 2034-4611 e enviando “oi”.
Em situações extremas, alertas podem ser enviados diretamente aos celulares localizados na área de risco por meio da tecnologia Cell Broadcast, sem necessidade de cadastro.