
O Paraná chega às eleições de outubro com um fato raro: pode trocar toda a sua bancada no Senado. Flávio Arns (PSB) e Oriovisto Guimarães (PSDB) não vão buscar a reeleição, e Sergio Moro tenta se eleger governador. Antes que o trio saia de cena, vale fazer a pergunta que o eleitor raramente faz: quanto cada um custou e quanto cada um entregou?
Os números vêm do Portal da Transparência do Senado, do SIGA Brasil e de levantamentos publicados na imprensa nacional. A resposta não cabe em um único vencedor, mas desenha perfis bem distintos.
Os três partiram exatamente do mesmo ponto. Considerando os limites de emendas individuais impositivas (aquelas que o governo federal é obrigado a pagar) registrados para os exercícios de 2024 a 2026, cada senador teve uma dotação potencial próxima de R$ 212,2 milhões, segundo a metodologia adotada neste levantamento. O que muda é a capacidade de transformar esse direito em dinheiro na conta das prefeituras, ou seja, em benefício do cidadão paranaense.
Flávio Arns foi quem mais entregou na ponta: R$ 134 milhões efetivamente pagos (63% do teto), distribuídos em 343 dos 399 municípios paranaenses, ou 86% do estado. Oriovisto liderou nas etapas anteriores, com R$ 172 milhões empenhados e R$ 148 milhões liquidados, e chegou a 260 cidades.
Sergio Moro ficou em último em todas as fases: R$ 160 milhões empenhados, R$ 138 milhões liquidados e R$ 122 milhões pagos. Mais grave do que a diferença financeira é o alcance: apenas 102 municípios, um em cada quatro. Paranaguá, sede do principal porto do estado, ficou fora da lista.
No Oeste, a diferença tem nome e endereço. Em Ouro Verde do Oeste, Arns destinou R$ 1,19 milhão e Oriovisto, R$ 520,1 mil. De Moro, o município não recebeu nada.
Se na entrega Moro fica atrás, na despesa ele dispara. Considerando apenas os anos fechados (2023 a 2025), o ex-juiz utilizou R$ 1,14 milhão da cota parlamentar (Ceap). Arns gastou R$ 843 mil. Oriovisto, R$ 285,7 mil. Ou seja, Moro custou quase quatro vezes mais que o colega do PSDB.
O ano de 2025 chama atenção. A cota de Moro saltou 76% em relação a 2024 e chegou a R$ 521,8 mil, puxada por passagens (R$ 186,2 mil) e por locomoção, hospedagem e alimentação (R$ 139,5 mil). Somando os gastos fora da cota, que incluem mais R$ 102,7 mil em passagens aéreas e R$ 78,6 mil em diárias, a despesa do senador naquele ano passou de R$ 711 mil.
Foi justamente o ano em que Moro teve o menor valor de emendas pagas entre os três: R$ 54,4 milhões, contra R$ 62,4 milhões de Arns e R$ 57,1 milhões de Oriovisto. Foi também o ano em que sua pré-candidatura ao governo do Paraná ganhou corpo.
Arns teve seu pico em 2024, com R$ 346,4 mil, sendo 43% em passagens aéreas. Em 2025, seus gastos com Correios fora da cota somaram R$ 80,7 mil, valor que destoa dos colegas.
Oriovisto é o ponto fora da curva no sentido positivo. Nunca usou as rubricas de material de consumo nem de serviços de apoio, e seu aluguel de escritório ficou sempre bem abaixo dos demais.
No campo legislativo, a balança se inverte. Moro é quem tem mais leis aprovadas com impacto nacional, todas na segurança pública. A principal é a Lei 15.245/2025, de sua autoria, que cria o crime de obstrução de ações contra o crime organizado, com pena de 4 a 12 anos. Como relator, ainda assinou as Leis 15.272/2025, que endurece regras nas audiências de custódia, e 15.407/2026, sobre transferência de assassinos de policiais para presídios federais.
Arns deixa as normas de maior alcance social. É autor do projeto que virou a Lei Complementar 220/2025, que criou o Sistema Nacional de Educação, apelidado de "SUS da Educação", e da Lei 15.344/2026, o programa "Mais Professores para o Brasil".
Oriovisto é o paradoxo do grupo. Apresentou 7 propostas de emenda à Constituição, 15 projetos de lei e 8 projetos de lei complementar ao longo do mandato. Nenhum virou lei. Sua proposta mais conhecida, a PEC 8/2021, que limita decisões individuais de ministros do STF, passou no Senado em 2023 e segue parada na Câmara.
A assessoria do senador sustenta que a execução de empenho e liquidação ficou próxima de 100% em 2024 e 2025, que a comparação somando 2026, ainda em andamento, é metodologicamente incorreta e que a opção foi por "ações estruturantes" de maior valor, em vez de pulverizar recursos. O argumento tem lógica, mas ainda carece de comprovação: os dados disponíveis mostram menos municípios atendidos, não obras maiores.
Uma pesquisa do instituto IRG, feita em maio, revela o tamanho do distanciamento: 95% dos paranaenses não souberam citar uma lei ou projeto de Moro. Para Arns, o índice foi de 93%. Para Oriovisto, 97,5%.
No balanço final, cada um tem uma bandeira para exibir. Arns levou dinheiro a quase todo o Paraná e deixa leis estruturantes na educação. Oriovisto foi o mais econômico, mas sai sem nenhuma lei própria aprovada. Moro aprovou leis duras na segurança pública, mas foi o que mais gastou e o que menos chegou às cidades. Justamente ele, que agora pede votos para administrar todas elas.