
O emprego de robôs na agropecuária oestina marca atualmente o início de uma nova era na produção rural brasileira, depois de dificuldades extremas até 1980, quando iniciou a reação que pôs fim à ditadura em 1985 e às amarras de dívidas acumuladas nos anos 1990.
A origem dessa estratégia de vitórias veio de produtores com e sem terra compreenderem que brigar entre si era uma armadilha preparada para dividir a força política do campo. O ano de 1981, de gravíssima crise nacional, obrigou a unidade, necessária para enfrentar a situação de pobreza piorada pelo endividamento.
O Jeca Tatu, personagem miserável de Monteiro Lobato, era na época a imagem do agricultor brasileiro e a combinação explosiva das crises interna e externa favorecia a manutenção da agropecuária como atividade submetida à pobreza e à ignorância.
A crise interna atestava o fracasso da ditadura iniciada em 1º de abril de 1964, empobrecendo também a população urbana que conseguia melhorar de vida com a industrialização. Sem saída, a queda do regime começa por um ato de desespero que descambou para o terrorismo em abril de 1981 no Rio de Janeiro.
Foi o Caso Riocentro, no qual uma bomba explodiu no colo do sargento Guilherme do Rosário. A partir daí o país foi tomado por uma onda de protestos contra a crise econômica e pela democracia.
No Oeste do Paraná, um dos reflexos da crise era o fechamento das escolas rurais. Em Cascavel, a lei 1.544/81 determinava a “desativação e demolição” das escolas Campos Salles, Adelino Cattani e Aníbal Lopes da Silva, em Sede Alvorada, as duas primeiras pela “falta efetiva de alunos” e a última para reconstrução.
A sociedade cascavelense, debatendo meios para resistir aos impactos danosos da crise, determinou que a alternativa era promover o estímulo à industrialização. A Prefeitura criou uma companhia de desenvolvimento, a Codevel, chefiada por um experimentado administrador – André Heitor Costi.
A proposta era fortalecer o comércio e planejar o desenvolvimento industrial, pois o campo vivia momentos extremamente difíceis e dependia dos governos federal e estadual.
Por isso mesmo o Núcleo Regional dos Sindicatos Patronais Rurais (Nurespop) foi criado para combater o governo ditatorial e reclamar democracia na tomada de decisões referentes à agropecuária.
Em 2 de junho de 1981, em reunião do Nurespop, o presidente do Sindicato Rural Patronal de Cascavel, Antônio Dionízio Bosquirolli, disse que a agropecuária “não pode mais ser cúmplice das falhas patrocinadas pelos planejamentos elaborados pelos tecnocratas”. Propunha uma gestão objetiva, apartidária, prática e eficiente, que a seu ver só seria alcançada quando o governo “convocar a participação dos produtores”.
Não houve resposta. Por isso, em 5 de setembro, os Sindicatos Rural Patronal e dos Trabalhadores Rurais de Cascavel decidiram que além de se unir para enfrentar a desastrosa política agrícola da ditadura era preciso combater as causas do empobrecimento no campo.
Em nova reunião, desta vez em caráter emergencial, em 12 de setembro de 1981, ficou decidido que a mobilização dos agricultores para reagir à crise da agropecuária seria não só um desafio à incapacidade administrativa da ditadura militar, mas também iniciar ações para reduzir a pobreza rural.
Começando por determinar as causas do empobrecimento no campo, viu-se que a inexplicável “vontade de Deus” vinha das empresas transnacionais que dominavam o setor no Brasil, amarrando a Justiça, manipulando o governo e dominando o Congresso Nacional.
Desta vez a mobilização do campo não ficou sem resposta. Até por ser ano eleitoral, em março de 1982 o general-presidente João Figueiredo (1918–1999) lançou em Cascavel um projeto de agrovilas e eletrificação rural. Era pouco e não trazia mudanças estruturais, por isso os protestos continuaram e em julho os Sindicatos Patronais Rurais declararam inviável a cultura do trigo na região.
As pressões cresceram até derrubar a ditadura, em 1985, quando a inflação comia os ganhos dos produtores e causava endividamento. O questionado governo semidemocrático de José Sarney se salvou com o Plano Cruzado, que ganhou apoio urbano, mas não teve uma contrapartida rural.
No entanto as as safras começavam a ter alto rendimento e o projeto de dar fim à pobreza no campo não só fazia sentido como dependia só de ajustes entre as políticas anticrise do governo federal e as necessidades dos produtores.
O acumulado saldo comercial positivo gerado pelas exportações agrícolas veio se tornar a salvadora “âncora verde” do Brasil e a sequência das lutas e pressões dos produtores resultou na formação do agronegócio, força poderosa que representa a vitória do projeto iniciado em 1981 e consolidado em 1992, época da criação do Sistema Nacional de Pesquisa, salto decisivo para a agropecuária brasileira.
A revolução foi esmagada em abril de 1925 com a rendição do grupo remanescente rebelde em Catanduvas, mas para a primeira família cascavelense o período pós-revolucionário foi ainda um tempo de “medo e angústia” e as coisas ficaram muito difíceis.
“Vendo que os legalistas iram derrotar os revoltosos, o jagunço amigo da gente* tentou nos levar junto com ele para que não sofrêssemos represálias dos legalistas. Não fomos com ele, mas tivemos que abandonar os ranchos e se esconder na mata por três dias. Isto já em 1926”.
Foram três dias de sofrimento, medo e a esperança diária de que a revolução terminasse logo, mesmo oficialmente já encerrada.
“Temíamos por nossas vidas, pois a gente ouvia até os tiros de canhão que explodiam (...) Quando fugimos levamos um pequeno suprimento de alimentos e água, soltando os porcos e as vacas na invernada. Foi também na invernada que escondemos a produção do ano debaixo de couros de bois para que ninguém a roubasse” (Laurentina Lopes Schiels).