
Moradores de municípios do Oeste do Paraná têm relatado um aumento significativo no aparecimento de cobras, especialmente da espécie cascavel, em áreas rurais e também dentro dos perímetros urbanos. Cidades como Marechal Cândido Rondon, Mercedes, Santa Helena e Palotina vêm registrando ocorrências mais frequentes, muitas vezes em locais incomuns como residências, galpões, máquinas agrícolas e até áreas centrais nos perímetros urbanos, O que antes era algo quase impossível, tem se tornado quase uma rotina.
Segundo relatos de agricultores, esse cenário mudou nos últimos anos. Antes, era mais comum encontrar outras espécies, como jararaca, urutu e coral. Apesar da sequência de registros, ainda não há confirmação oficial de infestação, mas a frequência dos casos tem chamado a atenção e aumentado a preocupação da população. Somente do início do ano passado para cá, as forças de fiscalização e controle, incluindo o Corpo de Bombeiros, foram acionados pelo menos uma centena de vezes para a captura desses animais. As cascavéis passaram a ocupar parte expressiva da cena.
Segundo o biólogo Mateus Pelegrin, o aumento do aparecimento de cobras em áreas urbanas está ligado principalmente às mudanças climáticas, que alteram o comportamento e a atividade dos répteis, e à expansão das cidades sobre áreas naturais, o que afeta o habitat desses animais e os força a buscar novos espaços. “Além disso, fatores como acúmulo de lixo, mato alto e presença de presas como roedores acabam atraindo as serpentes para o ambiente urbano ou habitado”, destaca.
Um desses agricultores afirmou nunca havia visto cobras cascavéis na propriedade, porém, localizou várias no último ano. A primeira foi localizada pelo filho adolescente, perto de um açude de peixes. Dias depois, outra cascavel grande foi encontrada dentro da plataforma de uma colheitadeira, no barracão onde a máquina fica guardada. Semanas depois, uma terceira apareceu à noite, na varanda da casa. “Saí para ir ao banheiro e quando abri a porta escutei um barulho. Primeiro fiquei sem entender o que era. Depois percebi a cascavel batendo o guizo”, relatou.
Nos últimos dias, o mesmo agricultor encontrou mais uma cascavel, ainda filhote, com cerca de 20 centímetros. “Onde tem um filhote com certeza tem mais e tem os pais deles também”, disse. Segundo ele, um vizinho também encontrou duas cascavéis recentemente.
Outra agricultora relatou ter encontrado seis cascavéis nos últimos cinco anos. A primeira apareceu na época da pandeia de covid-19. Depois, houve um período sem novos registros, mas, no último ano, foram cinco ocorrências. “Uma delas, na estrebaria, quase me pegou. Fui abrir a porta e ouvi um barulho estranho, parecia água esguichando. Estava escuro e fiquei iluminando com celular, quando olhei para o chão eu estava parada ao lado dela”.
Ela também encontrou uma cascavel na varanda da casa, dentro de um vaso de flores. Outras foram localizadas atropeladas na estrada, mortas, possivelmente por cães e debaixo de pilhas de madeiras.
Segundo registros da Secretaria de Estado da Saúde do Paraná (Sesa), somente no ano passado foram registrados em todo o estado 863 ataques de cobras, estima-se que cerca de 20% deles, tenham sido na região oeste.
No interior de Marechal Cândido Rondon, moradores apontam regiões como a Linha Arara com maior incidência de aparições. Há relatos de cobras encontradas em lavouras, estrebarias, varandas, barracões e até próximas às residências durante a noite. Agricultores também relatam a presença de serpentes em locais como açudes e dentro de colheitadeiras, o que aumenta o risco durante o trabalho no campo.
Na área urbana, os registros também surpreendem. Já houve casos de cascavéis encontradas em regiões centrais da cidade, inclusive em áreas comerciais. Em municípios vizinhos, como Terra Roxa, há pouco sidas uma serpente foi localizada dentro de uma máquina de lavar roupas, evidenciando o avanço desses animais para dentro dos espaços domésticos.
De acordo com o Instituto Água e Terra, o aumento no número de avistamentos está ligado a uma combinação de fatores ambientais. O calor é um dos principais, já que temperaturas elevadas aumentam a atividade das serpentes, tornando-as mais propensas a sair de seus esconderijos.
A expansão das áreas urbanas e agrícolas também contribui diretamente para esse cenário. Com a redução do habitat natural, esses animais acabam buscando novos espaços, muitas vezes ocupando áreas habitadas. Além disso, o ambiente rural oferece condições favoráveis, como abrigo, umidade e alimento, principalmente pela presença de roedores.
Outro fator relevante seria o desequilíbrio ambiental, causado por desmatamento, queimadas e redução de predadores naturais. “Esse conjunto de mudanças favorece a dispersão das serpentes e explica por que o fenômeno não ocorre apenas no Paraná, mas também em diversas regiões do Brasil”, lembra o biólogo. Importante destacar que não se trata apenas de cascavéis, mas de diferentes espécies que passam a circular com mais frequência nesses ambientes.
Outro ponto importante é a busca por alimento e condições adequadas de temperatura. Como os répteis dependem do ambiente para regular o corpo, períodos mais frios ou variações climáticas fazem com que procurem locais aquecidos, como áreas urbanizadas. “Esse fenômeno pode ser visto como resultado de um desequilíbrio ambiental somado às condições oferecidas pelas cidades, mas eu não o chamaria de anormal. Aliás, tende a ficar ainda mais frequente”, reforça.
O ciclo reprodutivo das cobras também tem influência direta nesse aumento de aparições. Em geral, muitas espécies, incluindo a cascavel, apresentam maior atividade entre a primavera e o verão, períodos mais quentes do ano. “Acabamos de sair do verão e em muitas regiões do estado as temperaturas ainda estão elevadas. Isso influencia tanto para os humanos quanto para os animais”, lembra o meteorologista Eduardo José Campos.
Durante essa fase, os animais se deslocam mais em busca de parceiros para reprodução e também de locais adequados para abrigo.
Além disso, após o nascimento dos filhotes, há uma maior dispersão desses animais pelo ambiente. Isso aumenta a chance de encontros com humanos, já que tanto adultos quanto filhotes passam a ocupar novos territórios. Esse comportamento, somado às condições ambientais favoráveis, contribui para que as cobras apareçam com mais frequência em áreas urbanas e rurais. “E a indicação é, sempre acionar os órgãos de fiscalização e controle para fazer a captura. Muitos desses animais são capazes de matar seres humanos e animais domésticos”, completa o biólogo.
Apesar do aumento dos registros, especialistas reforçam que as cobras não atacam sem motivo e agem, na maioria das vezes, de forma defensiva. Ainda assim, a presença desses animais exige atenção, especialmente de trabalhadores rurais. O uso de equipamentos de proteção, como botas e perneiras, é essencial para reduzir o risco de acidentes.
Medidas simples também ajudam na prevenção, como manter terrenos limpos, evitar acúmulo de entulhos, lenha e lixo, além de controlar a presença de roedores, que servem de alimento para as serpentes. Essas ações reduzem significativamente a chance de esses animais se aproximarem de residências.
“Ao se deparar com uma cobra, a orientação é manter distância e não tentar capturar ou matar o animal. O mais indicado é acionar o Corpo de Bombeiros ou órgãos ambientais, que possuem treinamento adequado para realizar o resgate com segurança”, completa.
Embora o aumento das aparições cause preocupação, especialistas lembram que as serpentes desempenham papel importante no equilíbrio ecológico, especialmente no controle de pragas. Por isso, lembram eles, a informação e a prevenção continuam sendo as principais aliadas para garantir a segurança da população e uma convivência mais equilibrada com a fauna silvestre.
Mín. 6° Máx. 11°