
A União da Polícia Civil do Paraná promoveu em 2024 uma homenagem aos seus ex-presidentes, dentre os quais Gidaltti Ferreira do Nascimento, que se projetou ao assumir a mais espinhosa das delegacias do Paraná nos tempos da última ditadura.
Além de mortes em cela, prisões arbitrárias e torturas, a DP de Cascavel era um poço de encrencas, com brigas entre policiais e o uso de maus elementos como delatores, aos quais se dava o pomposo título de “inspetor de quarteirão”.
Tais maus elementos arruinavam a imagem de bons representantes da sociedade que se prestavam a contribuir para a paz social nessa função.
Nascimento veio para Cascavel com a missão de não só dar bom andamento ao cotidiano policial como também para melhorar a imagem seriamente desgastada da Polícia Civil, seguindo a Polícia Militar, que desfazia a sua própria má imagem antiga, cultivada na repressão aos posseiros nas décadas anteriores.
Habitualmente bem-humorado, o delegado Nascimento não sentiu desconforto de início ao lidar com a famigerada Maria Ribeira. Recorrentemente presa por embriaguez, ela era sempre alvo de piadas e não se perturbava ao ser presa.
Aos 35 anos, casada e mãe de quatro filhos, na tardinha de 2 de outubro de 1971, embriagada como sempre, Maria invadiu um depósito da Colchoaria Espanha, na Rua Carlos de Carvalho, e assim deu início a um caso que veio abalar o bom humor do delegado.
Não foi por acidente
“Portando consigo cigarro e fósforo, [Maria] passou a fumar naquele ambiente que continha material de fácil combustão – crina vegetal –, assim, negligente e imprudentemente, sem qualquer precaução quanto à possibilidade de deixar um toco de cigarro aceso, adormeceu”, segundo o inquérito policial conduzido por Nascimento.
Por volta das 22h houve o alarme de incêndio, causado supostamente pelo cigarro aceso por Maria: “O fogo se comunicou ao material, dando origem a violento incêndio que consumiu todo o material estocado, bem como à edificação de madeira que continha”.
Para Nascimento, um caso simples de incêndio culposo. No entanto, depois Maria contou uma história bem diferente: disse que tentou comprar um colchão, achou o preço caro demais e por vingança resolveu meter fogo na loja toda e por isso não ia parar só na queima do depósito.
Quando Maria anunciou que pretendia queimar mais que só o depósito, a seguradora suspeitou de incêndio encomendado, complicando a situação do delegado Gidaltti, que tomou o incêndio como acidental e encerrou o caso sem considerar necessário investigar mais.
O caso se arrastou até 1975, quando se encerrou por prescrição: a ré Maria Ribeira sumiu deixando para trás uma lenda urbana e um demérito na ficha do delegado Nascimento.
Pode-se ter uma ideia do que era a DP de Cascavel (e por extensão da própria cidade) nessa época pelos relatos do advogado que viria a ser um dos principais amigos de Nascimento durante o período em que esteve em Cascavel: Arnaldo De Bona.
Logo ao chegar à cidade, Nascimento ouviu dizer que o advogado era um “encrenqueiro” e logo houve um atrito envolvendo o juiz substituto João Kopytowski e o advogado gaúcho José Galdino Ribeiro Pires, em cuja defesa De Bona chegou a receber voz de prisão do juiz Hélio Enor Engelhardt.
Chamado a fazer a detenção do advogado, o delegado-chefe o tratou amistosamente e foi tratado com reciprocidade. Ali começou uma grande amizade, até o dia em que o delegado novamente chamou De Bona a comparecer à 15ª SDP.
Já amigos, quase compadres, De Bona não estranhou ter recebido intimação por telefone, sem um papel do juiz determinando a prisão. “É claro que eu não aceitei comparecer à Delegacia na hora. Mas como no meu escritório as coisas andavam muito agitadas, com muitos problemas, disse a ele que ia”, lembrou De Bona.
Nascimento avisou ao advogado que o assunto era o mesmo: a confusão provocada por Galdino e o atrito com Engelhardt. Chegando finalmente à 15ª SDP, o delegado, mais formal que de hábito, sério, semblante carregado, informou ao advogado que recebera um comunicado de seus superiores, via rádio, proveniente da capital, para que novamente providenciasse a prisão do encrenqueiro Arnaldo De Bona.
O delegado-chefe, após feita a comunicação, determinou a prisão do amigo e, distraidamente, indagou ao advogado se viera até a Delegacia, então localizada na rua Duque de Caxias, com o seu próprio automóvel. De Bona respondeu que sim. O que aconteceu a seguir deixou De Bona intrigado, mas a amizade que o ligava ao delegado o fez baixar a guarda.
“Você me leva até o cabeleireiro?”, perguntou o delegado-chefe. De Bona, mesmo estando preso, achou que não tinha como não concordar. Afinal, eram amigos. E um preso não tem negócios particulares a tratar. Além disso, meia hora a mais ou a menos não iria mudar a situação: estava preso, mas logo seus colegas advogados providenciariam a soltura.
Finda a visita ao cabeleireiro, Gidaltti do Nascimento, candidamente, pediu ao amigo que o conduzisse até o restaurante para almoçar. De Bona estranhou que um delegado investido no cargo de chefe policial levasse um preso para almoçar, mesmo sendo seu amigo na vida particular.
Mas não tinha como evitar. Depois do almoço, o delegado não perguntava mais: determinava. “De Bona, me leva no alfaiate para tirar a medida”. E o advogado, solícito, fazia a vontade do amigo.
Depois de mais algumas tarefas e andanças de automóvel pela cidade, Gidaltti do Nascimento consultou o relógio e verificou: 6 da tarde, fim de expediente. “Agora pode ir”, disse, de súbito, o delegado.
“Mas eu não estou preso?”, indagou De Bona. “Claro que não. O comunicado via rádio era mentira”. E explicou que estava com o carro enguiçado e precisava de um motorista particular gratuito por todo o dia.
De Bona, inconformado, prometeu vingança. Em certa ocasião, como era costume da dupla, foram até Foz do Iguaçu e em seguida decidiram jogar no Cassino paraguaio. “O delegado”, conta De Bona, “tinha um revólver Taurus 38, cabo coldre, lindo, daqueles que são recolhidos junto com os presos na hora da prisão, e eu levei um revólver HO, cano longo, que eu tinha ganho do meu pai”.
Cansados da jornada de jogo, bebidas e lazer, os dois amigos decidiram retornar a Cascavel por volta das 4 horas da madrugada. Como De Bona morava no próprio escritório de advocacia e o delegado-chefe da 15ª SDP no Rodotur Hotel, locais próximos um do outro, o carro ficaria num local intermediário entre os dois pontos. “Mas nós estávamos tão bêbados que esquecemos de trancar o carro”, confessa o advogado. “E as armas ficaram lá dentro”.
Logo pela manhã, lembrando que deixara o carro aberto, De Bona correu assustado até o veículo já antevendo prejuízos. Mas nada havia sido tocado: tanto as armas como outros pertences do advogado lá estavam, sem problemas.
De Bona respirou aliviado, mas um sinal soou em sua mente: era a ocasião que esperava para dar o troco ao delegado pela falsa prisão. Aparentando decepção, De Bona foi imediatamente até a Delegacia de Polícia e registrou queixa, fazendo um relato do que anunciava como ocorrência de furto.
O arrombador (ou arrombadores) havia estourado as vidraças do carro, de cujo interior foram furtadas as duas armas de estimação – o Taurus do delegado e o cano longo de De Bona – além de outros objetos que estavam no veículo.
A Polícia procurou inutilmente pelos inexistentes arrombadores do carro e pelas preciosas armas, com o previsível insucesso esperado pelo vingativo De Bona: “E fiquei com as armas. Ele sempre desconfiou que não fosse verdade. Mas realmente nunca teve certeza”.
O castigo demorou, mas veio. Alguns anos depois, De Bona viajou a Curitiba e seu carro foi efetivamente arrombado e as duas armas foram de fato furtadas. Mas Gidaltti do Nascimento, então já falecido, jamais soube do verdadeiro destino de seu revólver tão precioso.
A menos que fosse uma vingança de além-túmulo, como se perguntou o advogado até ele próprio morrer, em 19 de junho de 2007.
Quando ainda nem se pensava em Cascavel, a estrada Guarapuava–Foz do Iguaçu passava mais ao Sul, por Rio do Salto. A civilização, no vasto Oeste desabitado das obrages, estava nas duas pontas: Catanduvas e Foz do Iguaçu.
A partir de Catanduvas, a estrada atravessava a Fazenda Gomes (de Augusto Gomes de Oliveira, um dos Gomes da Encruzilhada) chegando com a primeira etapa a Rio do Salto após transpor o Rio Tormenta e já em território da empresa Domingos Barthe (depois da família Lupion e em seguida a fazenda da Industrial Madeireira do Paraná Ltda), aproveitando partes de uma antiga picada tropeira.
Na ponta de Catanduvas, “além dos ranchos, moradias de sertanejos, havia em Catanduvas as bodeguinhas, uma do telefonista. sr. Alexandre José Inácio, ex-praça das antigas comissões de Theodorico Rodrigues da Cunha (foi vereador em Laranjeiras do Sul)., este trabalhador e já bem situado e finalmente a que tinha pertencido à dona Florisbela de Souza Leal, saudosa progenitora de Alípio de Souza Leal” (Sandálio dos Santos, em suas Memórias).
Catanduvas era um entreposto entre Laranjeiras e Foz do Iguaçu, mas também era como um limite: a partir daí os contatos com brasileiros eram necessariamente feitos ao longo da linha telegráfica.
“Existia, é verdade, um posto telefônico no lugar chamado Rio Floriano, que sempre prestava serviços públicos. Mesmo que mais servisse aos funcionários do telégrafo, era mais um melhoramento” (Sandálio dos Santos).
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