
O Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE) apresentou em Portugal, nesta semana, a experiência brasileira de estruturação de instrumentos financeiros voltados à conservação da biodiversidade. O caso do banco foi levado a debates em Lisboa e no Porto pelo diretor administrativo Heraldo Neves, em agendas que reuniram financiadores, empresas, especialistas em sustentabilidade e promotores de projetos ambientais.
A participação ocorre em um momento em que os créditos de biodiversidade ganham espaço na agenda internacional como uma das alternativas para mobilizar capital privado em favor da natureza. O tema passou a ter maior relevância após o Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal, que prevê a mobilização de pelo menos US$ 200 bilhões por ano até 2030 para ações de biodiversidade, incluindo instrumentos inovadores como créditos de biodiversidade, títulos verdes e pagamentos por serviços ecossistêmicos.
Em Lisboa, o BRDE participou, na quarta-feira (20), da conferência Créditos de Biodiversidade: Instrumentos Financeiros para a Natureza, realizada no LEAP Center. O banco integrou o painel “Créditos de Biodiversidade: do (des)crédito à ação”, voltado à discussão sobre os desafios, riscos e critérios de credibilidade desse mercado emergente.
No dia seguinte, no Porto, a experiência do BRDE foi apresentada na conferência Certificação de Biodiversidade: Gestão, Reporte e Competitividade, no Auditório da ANA Aeroportos. O painel tratou da aplicação prática da certificação de biodiversidade, com foco em métricas, reporte e vantagem competitiva para empresas e instituições financeiras.
A agenda em Portugal também abriu espaço para o relacionamento do BRDE com diferentes fontes de recursos, incluindo alternativas de captação com condições e precificação diferenciadas, voltadas ao financiamento de projetos sustentáveis e à ampliação da agenda de biodiversidade.
EXEMPLO CONCRETO– Um caso apresentado foi a parceria entre o BRDE e a Secretaria do Desenvolvimento Sustentável do Paraná (Sedest) para fomentar créditos de biodiversidade gerados por Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs). O projeto destina até R$ 2 milhões para aquisição de créditos, com limite de até 1,6 mil créditos por ano em cada uma das sete reservas selecionadas no Paraná.
“Na apresentação em Portugal, a experiência paranaense foi tratada como exemplo concreto de como instituições financeiras de fomento podem ajudar a organizar a demanda por ativos ambientais de alta integridade. Ao remunerar proprietários de reservas privadas pela conservação e melhoria de áreas naturais, o modelo cria incentivo econômico para a proteção da natureza e, ao mesmo tempo, oferece um caminho técnico para empresas e investidores que buscam avançar em suas estratégias de sustentabilidade”, explica Heraldo.
A agenda em Portugal também destacou o posicionamento institucional do BRDE como primeiro Banco Verde do Brasil e primeiro banco a integrar a Coalizão LIFE de Negócios e Biodiversidade. No Porto, a apresentação deu ênfase à certificação LIFE obtida pelo banco em 2024. Na prática, a Metodologia LIFE permite mensurar a pressão de uma organização sobre a biodiversidade e comparar esse impacto com ações positivas de conservação. A
partir dessa avaliação, a instituição pode estruturar planos de ação, melhorar processos internos e incorporar critérios de biodiversidade à tomada de decisão em investimentos, relacionamento com clientes e desenho de produtos financeiros.
“Não se trata apenas de comprar créditos. O desafio é criar uma infraestrutura de confiança: métricas claras, certificação independente, transparência e conexão com projetos reais de conservação. Sem isso, o instrumento perde credibilidade antes mesmo de amadurecer”, acrescenta Paulo Starke, que também representou o banco nos encontros.
AVANÇO– O debate europeu sobre o tema avançou em 2025, quando a Comissão Europeia lançou o roteiro para créditos da natureza, com o objetivo de incentivar investimentos privados em ações de proteção e preservação ambiental. A iniciativa busca criar condições para que atividades benéficas à natureza possam gerar receitas para quem protege ecossistemas e para investidores comprometidos com biodiversidade.
Ainda assim, o mercado permanece em fase inicial. Documento técnico da Natural Business Intelligence (NBI) aponta que os créditos de biodiversidade não devem ser tratados como equivalentes diretos aos créditos de carbono, porque a biodiversidade não possui uma unidade universal comparável à tonelada de CO₂. A credibilidade do instrumento depende de adicionalidade, permanência, mensuração, verificação independente, transparência e salvaguardas sociais.
FUNDO VERDE– Para o BRDE, a atuação nesse campo está conectada à estratégia do Fundo Verde e de Equidade, criado para apoiar projetos socioambientais e climáticos com recursos não reembolsáveis. Entre 2021 e 2026, o fundo deve contabilizar R$ 40 milhões em recursos disponíveis. Anualmente, o BRDE direciona 1,5% de seu lucro líquido ao fundo. O montante arrecadado é dividido de forma igualitária entre Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, e cada agência conduz a seleção dos projetos por meio de editais, chamadas públicas ou parcerias.
Além do projeto de créditos de biodiversidade no Paraná, o banco vem apoiando iniciativas em restauração e conservação ambiental, segurança hídrica, descarbonização da indústria, saneamento, economia circular, resiliência climática e inclusão produtiva.
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