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O crime dos 2 alqueires grilados

O arquiteto Ciro Bucaneve descobriu o roubo, origem de um assassinato que sacudiu o Paraná 

17/05/2026 às 11h52
Por: Tissiane Merlak Fonte: Alceu Sperança
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O arquiteto Ciro Bucaneve e o livro de Maurílio Rompatto sobre a Areia Branca do Tucum 
O arquiteto Ciro Bucaneve e o livro de Maurílio Rompatto sobre a Areia Branca do Tucum 

Com seu jipe em movimento, o vereador Antonio Osvaldo Neshi, de Loanda, recebeu um tiro de revólver na nuca, mas só morreu depois de receber duas facadas no pescoço. O crime, cometido em 4 de setembro de 1960, na estrada que liga Loanda a Santa Cruz do Monte Castelo, foi consequência de um grilo de terras em que Neshi perdeu dois alqueires, ocupados pelo vizinho Augusto Dias Sales.

Esse episódio começou quando Neshi contratou o arquiteto Ciro Bucaneve para fazer a medição do imóvel, visivelmente menor que o especificado na documentação. De fato, constatou o arquiteto, Neshi foi prejudicado em dois alqueires, acrescentados ao vizinho.

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Recorrendo à Justiça para recuperar a área tomada, chamou Bucaneve a depor como testemunha. Esse depoimento, com a comprovação do esbulho, foi decisivo para Neshi ganhar a causa, referente a um imóvel na chamada Areia Branca do Tucum, na estrada para o Porto São José.

Ao recuperar a área na Justiça, Neshi recebeu uma sentença de morte: o vizinho decidiu se vingar. Por sua posição política o caso poderia ter outras implicações, mas na apuração do crime se verificou que Sales foi convencido pelo amigo Dimer Spinardi a contratar um pistoleiro para matar Neshi, inimigo dos dois.

Sapateiro negociou o preço

A versão de Sales é que Dimer o seduziu com o plano do assassinato dizendo que conhecia duas pessoas que poderiam fazer o “serviço” e só precisava de ajuda financeira para a empreitada, que não daria “galho”, pois ele esconderia os autores em uma ilha no Rio Paraná.

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De posse do dinheiro, Spinardi procurou em sua roça o agricultor Waldemar Palmeira, um conhecido de longa data. Spinardi lhe perguntou se teria coragem de matar um homem. Waldemar respondeu que nunca tinha feito, mas que era capaz de matar.

Como Augusto Sales não quis pagar 40 mil cruzeiros (a moeda da época) pedidos por Palmeira pelo “serviço”, Spinardi o levou à sapataria de Augusto, entrando por trás do estabelecimento para negociar reservadamente o valor da empreitada.

Sales disse que só poderia dispor de Cr$ 30 mil, valor final aceito por Palmeira. Para o plano imaginado a seguir o pistoleiro considerou necessário contratar um motorista profissional que já prestara serviços como taxista ao vereador Neshi – Aristides José dos Santos – que levaria a metade do valor a receber pelo crime.

Negando ter encomendado o crime, Sales alegou que Dimer o havia procurado para pedir um empréstimo de nove mil cruzeiros para saldar uma dívida, na verdade utilizados para atrair a confiança da vítima.

Pagar para ganhar confiança

Embora as alegações dos acusados precisem ser relativizadas, a polícia apurou ao cruzar os depoimentos que três planos foram traçados para culminar com a morte de Neshi.

O primeiro seria executado em 2 de setembro, quando Waldemar e Aristides contrataram Neshi para lhes apresentar uma fazenda que pretendiam comprar. Neshi cederia seu jipe ao motorista Aristides, que o levaria para mostrar o trajeto a Waldemar.

A intenção era matar Neshi nessa viagem. Waldemar Palmeira entregou um revólver calibre 38 a Aristides, para que este a um sinal combinado por ambos atirasse em Neshi. Mas como o caminho era muito movimentado, Waldemar pagou a Neshi pela orientação prestada e marcou outra viagem, a ser feita no dia seguinte, desta vez para ir à Fazenda Belo Horizonte.

Essa viagem foi feita só para assegurar a confiança de Neshi, mais uma vez pago pelo serviço de indicar o caminho. Sem receio, a vítima aceitou viajar à noite daquele mesmo dia 3 para a cidade de Santa Cruz do Monte Castelo.

Aristides foi à casa de Neshi por volta das dezenove horas para pegar o jipe e o proprietário, enquanto Waldemar Palmeira e Waldemar Leite, proprietário de um bar, que iria de carona, os aguardavam perto do Banco Comercial da cidade. Leite alegou depois que não sabia do planejamento do crime.

O cachecol do criminoso

Segundo Aristides, Leite ficou no banco de trás do jipe, enquanto Waldemar Palmeira sentou-se no banco da frente, ao lado da vítima.

“Nos relatórios constam que após ter rodado um quilômetro a frente do aeroporto da cidade de Loanda depois de um sinal, Aristides que se encontrava no banco de trás do veículo disparou um tiro na nuca da vítima, e assim Waldemar Palmeira pegou a direção do jipe para pará-lo, e que Waldemar Palmeira ainda desferiu dois golpes de faca na vítima, atingindo-o na região do pescoço” (Hortência Danielli Scaliante, Violência e Conflitos Políticos no Processo de Colonização da Região Noroeste do Estado do Paraná).

Aristides contou que após o tiro e as facadas, Waldemar Leite saiu do jipe correndo. Aristides e Palmeira em seguida fugiram da cena do crime. Ao se reencontrarem o atirador cobrou a sua parte e Palmeira lhe disse que o tiro não bastou, tendo que golpear a vítima com a faca.

A polícia confirmou o disparo e as facadas como os ferimentos que provocaram a morte de Neshi. Os bolsos das roupas da vítima foram rasgados para simular um assalto, sendo seu corpo jogado na estrada.

O plano foi bem executado e os criminosos poderiam ter escapado se não fosse a sagacidade do cabo Sebastião Ignácio, que ao atender a ocorrência reconheceu de imediato a vítima como sendo o vereador Neshi e ao recolher um cachecol no jipe o associou a Waldemar Palmeira.

Dúvida: dono do bar só aproveitou a carona?

A polícia não demorou a encontrar e dar voz de prisão a Palmeira, Leite e Aristides, encontrados confraternizando no bar de Waldemar Leite. O dono do bar frequentado por Palmeira e Aristides, ao ser questionado no inquérito sobre porque estava com os outros dois acusados na cena do crime, disse que só pegou carona no jipe.

Aristides disse inicialmente que não sabia quem era o mandante e ignorava se Leite conhecia o plano do crime. Leite alegou que pediu para ir de carona com a intenção de visitar o pai, residente em Santa Cruz do Monte Castelo.

Palmeira e Aristides por fim confessaram que os mandantes do crime foram Augusto Sales e Dimer Spinardi.

O segundo teria contratado os pistoleiros a pedido do sapateiro Sales. Apesar da negativa de Leite, a promotoria o indiciou como cúmplice dos assassinos.

Quanto ao engenheiro Ciro Bucaneve, a essa altura com 34 anos, estaria na lista de execução dos assassinos por seu testemunho na Justiça, mas o cachecol esquecido no jipe usado para o crime levou a polícia a prender de imediato os criminosos.

Depois de mais depoimentos à Justiça para a caracterização do motivo do crime, finalmente Ciro Bucaneve conseguiu levar a vida em relativa paz, vivendo em Cascavel, cidade de passado turbulento que por força de seus comerciantes começava a se desenvolver rapidamente devido às encomendas de madeira para a construção de Brasília.

O italiano Bucaneve

Nascido na Itália em 16 de maio de 1926, filho de Salvatore Bucaneve e Maria del Corchio, Ciro conquistou a admiração dos cascavelenses ao planejar o Estádio Ciro Nardi e se destacar a seguir como o encarregado geral das obras da Prefeitura.

Na década de 1970, segundo Dimer Webber, foi ele quem executou o primeiro asfaltamento com impermeabilização de calcário em Cascavel. “Ele asfaltou o trecho entre a Avenida Brasil e a Rua Rio Grande do Sul, perto da antiga Comisa”, destacou Webber.

Algacyr Biazetto considerou que Bucaneve, além dessa presença ativa na comunidade cascavelense, também fez gratuitamente a planta do Autódromo de Cascavel atendendo a uma necessidade da empresa que comandava o automobilismo na época, sob a chefia de Zilmar Beux, autor do desenho original da pista.

Já debilitado, em 1986, ano de seu 60º aniversário, Ciro Bucaneve foi eleito para a presidência do Rotary Clube de Cascavel, mandato que exerceu até o ano seguinte, passando o cargo ao vereador Álvaro Palma.

Ciro Bucaneve faleceu em 1988, vítima de câncer de pulmão. Em homenagem, o Município de Cascavel emprestou seu nome a uma pequena rua do bairro Santa Cruz, onde se destaca entre os nomes de tribos indígenas que designam as ruas da região.

O cachecol do pistoleiro Waldemar lhe garantiu, assim, uma vida segura e produtiva. A Areia Branca do Tucum, entretanto, continuou envolvida em conflitos, abordados no livro de Maurílio Rompatto.  

A primeira família: Central, a Cascavel da época

Como Rio do Salto foi um grande estabelecimento ervateiro, daí em diante já partia um picadão carroçável que demandava a Central Barthe (depois Central Lupion) com diversos entrepostos.

Central Barthe poderia se considerar a Cascavel da época: sede da administração argentina da empresa, era “uma regular vilazinha de onde se ramificavam estradas para os diversos estabelecimentos menores (acampamentos de ervateiros)”. Era uma encruzilhada na época mais prestigiada que a outra, a dos Gomes.

Em maio de 1920, o prefeito de Foz do Iguaçu, coronel Jorge Schimmelpfeng, seria o primeiro a viajar em automóvel pela nova rodovia, trazendo o presidente do Estado, Affonso Alves de Camargo, para inaugurar a rodovia e visitar os portos do Rio Paraná até Guaíra, na margem brasileira.

Se automóveis já podiam transitar pela Estrada Estratégica antes inviável até para carroças, a partir de 1920 ficou mais fácil para os colonos alcançar o Oeste do Paraná com as famílias e tralhas de mudança.

Mesmo sem permanecer nem deixar registros, eles começavam a vir porque a comissão de colonização iniciada por Luiz Daniel Cleve e a estratégia de ocupação definida pelo prefeito de Foz do Iguaçu estavam perfeitamente ligadas ao interesse do governo do Estado de promover o desenvolvimento da região.

É esforço inútil tentar definir por documentos quem chegou primeiro ao atual perímetro urbano ou Município de Cascavel. Só será possível definir quem chegou e ficou.

Luiz Daniel Cleve: organizador da colonização

 

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