
Mesmo em um cenário internacional marcado por tensões comerciais e restrições impostas pelo governo dos Estados Unidos, Cascavel alcançou em 2025 um dos maiores volumes de exportações de sua história, consolidando-se como um dos principais polos exportadores do interior do Paraná. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) mostram que, de janeiro a novembro de 2025, o município exportou US$ 443,3 milhões, contra US$ 413,1 milhões no mesmo período de 2024, uma alta de 7,3%.
O economista Rui São Pedro avalia que o desempenho expressivo reflete não apenas a força do agronegócio regional, mas também uma reconfiguração do comércio global, impulsionada pela disputa comercial entre Estados Unidos e China, que abriu espaço para o Brasil ampliar sua presença em mercados estratégicos.
O destaque absoluto das exportações cascavelenses em 2025 foi o complexo soja, especialmente nas vendas destinadas à China. De acordo com o Mdic, Cascavel exportou 118,6 mil toneladas do complexo soja de janeiro a novembro de 2025, somando US$ 48,1 milhões. No mesmo período de 2024, foram 74,9 mil toneladas, com faturamento de US$ 33,5 milhões.
Na comparação anual, o volume embarcado cresceu 58,2%, enquanto o valor exportado avançou 43,7%. Para o analista de comércio exterior Marcelo Alves de Almeida, esse salto está diretamente relacionado ao redirecionamento das compras chinesas, que reduziram significativamente as importações de soja dos Estados Unidos em meio à escalada de tarifas e disputas diplomáticas.
“O Brasil, e especialmente regiões com forte produção como Cascavel, passou a ocupar um espaço deixado pelos Estados Unidos no mercado chinês. A soja brasileira ganhou competitividade não apenas pelo preço, mas pela confiabilidade logística e capacidade de entrega”, explica o analista de comércio internacional.
Apesar dos embargos e restrições adotados pelo governo norte-americano em diferentes setores, sendo que parte deles acabou revogado na reta final do ano, o desempenho geral das exportações de Cascavel permaneceu positivo. Segundo Rui São Pedro, isso demonstra uma diversificação dos mercados compradores, com maior peso da Ásia e do Oriente Médio.
“O impacto dos embargos dos Estados Unidos foi mitigado pela capacidade do setor produtivo de buscar novos destinos e fortalecer relações comerciais já existentes, especialmente com a China”, avalia. “Cascavel mostrou resiliência e adaptação em um ambiente internacional adverso”, completa.
Outro pilar das exportações de Cascavel segue sendo o complexo carnes, que inclui principalmente a de frango, seguida pela suína e e em menor volume a bovina. Conforme a tabela do Mdic, em 11 meses de 2025, o município exportou 154,8 mil toneladas de carnes, com faturamento de US$ 294 milhões. Em 2024, no mesmo período, foram 152,2 mil toneladas e US$ 299,5 milhões.
Os números indicam crescimento de 1,7% no volume, apesar de uma queda de 1,8% no valor total, reflexo da oscilação de preços internacionais e da forte concorrência global. Ainda assim, especialistas ressaltam que o setor mantém papel estratégico para a balança comercial local.
“O complexo carnes continua sendo uma âncora econômica para Cascavel. Mesmo com variações de preço, o volume exportado se manteve elevado, mostrando a solidez da cadeia produtiva e a competitividade das agroindústrias da região”, afirma a economista Regina Martins, especialista em agronegócio.
A combinação entre o crescimento da soja e a estabilidade das carnes reforça a centralidade da China como principal destino das exportações cascavelenses. A disputa comercial entre Pequim e Washington acabou favorecendo produtores brasileiros, que ampliaram participação em um mercado altamente demandante.
Para Almeida, o cenário atual tende a beneficiar o Brasil no médio prazo. “Enquanto a rivalidade comercial entre China e Estados Unidos persistir, o agronegócio brasileiro seguirá ocupando espaços estratégicos. Cascavel é um exemplo claro de como essa reconfiguração global se traduz em resultados concretos, mas é indispensável que novos e importantes mercados sejam abertos”.
Analistas ponderam que, embora os números de 2025 se mostrem históricos, os dados de dezembro ainda não foram oficializados, o desempenho futuro dependerá da estabilidade logística, de políticas comerciais e da capacidade de o Brasil manter acordos sanitários e comerciais com seus principais parceiros. Ainda assim, a avaliação predominante é otimista.
“O recorde de exportações mostra que Cascavel não apenas resistiu às turbulências internacionais, mas soube transformá-las em oportunidade. É um indicativo claro de maturidade econômica e inserção global”, conclui Martins.
Com resultados robustos em soja, carnes e outros segmentos do agronegócio, Cascavel encerra 2025 como um dos símbolos do avanço exportador brasileiro em um cenário global cada vez mais competitivo e politicamente tensionado, lembra Marcelo Almeida.
Mín. 17° Máx. 31°