
O médico e servidor público Milton Neckel (Dr Miltinho) analisa o cenário atual da saúde pública em Cascavel, abordando desde a demanda nas UPAs e a insegurança enfrentada pelos profissionais até questões comportamentais da população, como a busca por atestados falsos e o uso indiscriminado de medicações para emagrecimento. Neckel destaca a necessidade de expansão da estrutura física e humana para acompanhar o crescimento da cidade.
Dr Miltinho foi o convidado da última semana no podcast Batendo o Guizo, do comunicador Miguel Dias. Confira a seguir uma síntese da entrevista. O episódio completo você assiste em vídeo nas plataformas digitais do Preto no Branco ou escaneando o QR Code ao final da entrevista.
Preto no Branco: A saúde em 2026 continuará sendo um tema de grande preocupação ou vivemos um momento mais tranquilo?
Dr. Milton Neckel: A saúde é dinâmica. Atualmente, estamos num período teoricamente mais tranquilo devido às férias escolares, com menor procura nas unidades. No entanto, Cascavel tem características de trânsito e poluição que impactam, principalmente nas doenças respiratórias. A cidade cresceu, e a dificuldade de mobilidade gera estresse, que também é saúde.
Preto no Branco: Sobre a estrutura física, a cidade comporta novas unidades?
Dr. Miltinho: Cabe mais uma UPA em Cascavel, sem sombra de dúvidas. A UPA Brasília, por exemplo, é pequena estruturalmente. O Ministério da Saúde preconiza uma UPA para cada 100 mil habitantes, e estamos chegando aos 400 mil. Na região do Riviera, com a construção de novos prédios, já caberia mais uma unidade de saúde. O problema não é construir, é manter e equipar com material humano.
Preto no Branco: A segurança dentro das unidades de saúde tem sido um problema recorrente. Como os servidores se sentem?
Dr. Miltinho: A sensação é de insegurança. Infelizmente, muitas vezes o agente de segurança, ao ser acionado, acaba desacreditando o servidor público. Nas UPAs, entra e sai quem quer, não há controle de fluxo interno. Já tivemos casos de danos ao patrimônio e agressões. O servidor não é treinado para conter pacientes exaltados; nossa formação é para conter surtos psiquiátricos, não alguém insatisfeito dando "carteiraço". Precisamos de controle de acesso, como havia em gestões passadas.
Preto no Branco: Existe uma "indústria do atestado" ou as pessoas realmente adoecem mais em determinados dias?
Dr. Miltinho: Segunda-feira é um dia caótico na UPA. Infelizmente, muitas pessoas buscam o atestado, a chamada "atestadite". Existem grupos que falsificam carimbos e documentos da prefeitura e vendem atestados por 30 ou 40 reais. É um crime. Isso gera desgaste no atendimento médico, pois muitas vezes o paciente exige o documento sem necessidade clínica.
Preto no Branco: O senhor mencionou o descarte irregular de lixo. Isso impacta na saúde?
Dr. Miltinho: Impacta muito. Hoje vivemos uma epidemia de uso de medicações injetáveis para emagrecer. O paciente usa a seringa em casa e descarta incorretamente no lixo comum ou em terrenos, o que pode ferir crianças ou coletores, além de contaminar o lençol freático. Falta educação; a pessoa deve levar esse material à unidade de saúde para o descarte correto.
Preto no Branco: Falando em hábitos, por que aumentaram tanto os casos de infarto e AVC?
Dr. Miltinho: Estamos vivendo uma epidemia de hipertensão e diabetes em pacientes cada vez mais jovens. São essas doenças que levam ao infarto e ao AVC. Isso é reflexo da má alimentação e do sedentarismo. A população busca medidas heroicas e "mágicas" para emagrecer, mas não faz atividade física.
Preto no Branco: A dengue pode voltar com força em 2026?
Dr. Miltinho: A dengue é sazonal e pode voltar. Quando estamos numa situação confortável, a tendência é relaxar nos cuidados. Mas o vetor, o Aedes aegypti, transmite também Chikungunya e Zika. A vacina ajuda, mas é parte da solução. O controle do vetor depende essencialmente da educação da população em cuidar do seu entorno.
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