
Cascavel saiu na frente no Paraná ao criar, dentro de uma associação comercial, um espaço permanente de articulação, fortalecimento e profissionalização da chamada Indústria Criativa. O Núcleo da Indústria Criativa da Associação Comercial e Industrial de Cascavel (Acic) nasceu com uma proposta inovadora: reunir artistas, criadores e empreendedores de diferentes áreas que têm a criatividade como principal insumo de trabalho e transformá-la em desenvolvimento econômico, geração de renda e valorização cultural.
A coordenadora do Núcleo da Indústria Criativa da Acic, Evelyn Anevão explica que o grupo foi pensado justamente para ampliar o entendimento do que é, de fato, a indústria criativa. “O núcleo não é só para artistas. Quando falamos em indústria criativa, estamos falando de moda, gastronomia, arquitetura, publicidade, audiovisual, mídias digitais, design. Todo profissional que precisa da criatividade para desenvolver o seu trabalho faz parte desse setor”, destaca.
A proposta, segundo ela, é quebrar a ideia de que criatividade está restrita ao campo artístico tradicional e mostrar que ela também movimenta negócios, inovação e empreendedorismo.
“O caráter pioneiro do núcleo é um dos pontos centrais dessa história. O Núcleo da Indústria Criativa da Acic foi o primeiro do gênero criado dentro de uma associação comercial no Paraná, abrindo caminho para que o setor criativo passasse a ser visto como estratégico para o desenvolvimento local”, lembra a historiadora que quer mapear a indústria criativa no oeste do Paraná, Aline Martins. Apesar de morar em Palotina, a 70 km de Cascavel, ela se interessou pela ideia e decidiu conhecer mais da iniciativa pioneira.
Vitor Pinheiro trabalha com a produção audiovisual há quase vinte anos e achou a ideia desbravadora. “É como se estivéssemos chegando em uma região ainda não desbravada e iniciando tudo, com pioneirismo e inovação. Quero fazer parte dessa proposta e, unidos, buscarmos avanços para um setor que as vezes é visto pela sociedade como gasto, mas é um investimento”, completa.
Assim, a iniciativa tem colocado Cascavel no mapa estadual como referência na organização e no fortalecimento desse segmento, tradicionalmente pulverizado e pouco integrado. “Se vê núcleos quase que informais, de artesãos, escritores, músicos, mas quando existe uma estrutura organizada e consolidada, olhando como um negócio definitivamente comercial e cultural para o desenvolvimento, você dá vida e visibilidade a setores da economia e da cultura local”, completa Aline Martins.
Desde o início, o núcleo se estruturou com base na ideia de conexão. Reunir pessoas de diferentes áreas criativas em um mesmo espaço permitiu a criação de redes, trocas de experiências e parcerias práticas. “A importância de a gente estar nesse núcleo é justamente criar network, fortalecer esse nicho criativo-cultural e fazer trocas. Nós temos palestras, consultorias, tudo voltado para a questão do empreendedorismo”, afirma Evelyn.
A lógica é simples, mas poderosa: ao compartilhar vivências e desafios, os criativos passam a enxergar seus negócios de forma mais profissional.
Na prática, o núcleo reúne desde estilistas e designers de moda até chefs, produtores culturais, arquitetos, publicitários, fotógrafos, cineastas e profissionais de mídia digital. São áreas diferentes, mas que se complementam. Um exemplo comum citado pelos integrantes são projetos de cocriação, nos quais cada participante contribui com seu talento para a construção de um produto ou serviço final. “A gente já fez trabalhos em que todos precisavam trocar talentos para produzir juntos. Isso desenvolve muito o nosso lado empreendedor”, ressalta a coordenadora.
Essa visão empreendedora é um dos pilares do núcleo. Embora o trabalho criativo seja, muitas vezes, associado ao lúdico e à emoção, há uma estrutura complexa por trás de cada entrega. Evelyn usa o teatro como exemplo para ilustrar essa realidade. “Você vai assistir a uma peça, aplaude, se emociona, vive aquela experiência. Mas, para aquela peça existir, houve meses de ensaio, construção de cenário, figurino, uma série de bastidores e pessoas envolvidas. Isso custa dinheiro, e o artista precisa receber pelo seu trabalho”, afirma.
Ao fomentar a indústria criativa, o núcleo também defende a valorização financeira e profissional dos criadores. A proposta é garantir que artistas e empreendedores do setor tenham condições dignas de trabalho, aprendam a precificar seus serviços, gerir seus negócios, divulgar seus projetos e acessar oportunidades de mercado. Para muitos participantes, o núcleo representa o primeiro contato estruturado com conceitos de gestão, marketing e planejamento estratégico.
Quem faz parte do grupo costuma destacar que a iniciativa ajuda a romper o isolamento comum no setor criativo. Profissionais que antes atuavam de forma individual passam a enxergar força na coletividade. “Aqui a gente percebe que não está sozinho, que outros passam pelas mesmas dificuldades e que é possível crescer juntos”, relatam integrantes de áreas como audiovisual e design. Para empreendedores da gastronomia, por exemplo, o núcleo ajuda a entender como criatividade também está na experiência do cliente, na identidade da marca e na forma de comunicar o produto. “Por inúmeras vezes criamos sozinhos e em ilhas de isolamento. Esse fortalecimento permite que nossas inovações, criações possam ir além dos limites dos nossos bares, restaurantes, cozinhas e das linhas geográficas do município”, lembra o chef, Renato Freire.
O Núcleo da Indústria Criativa da Acic tem se consolidado um espaço de escuta, aprendizado e construção coletiva. “Mais do que um grupo setorial, tornou-se um ambiente de estímulo à inovação e ao reconhecimento do valor econômico da cultura e da criatividade. Em uma cidade com forte vocação para o agronegócio e a indústria tradicional, o núcleo tem mostrado que ideias, talento e expressão também são motores de desenvolvimento”, celebra o presidente da Acic, Marcio Blazius.
“Ao apostar nesse modelo de organização, Cascavel revela um papel de vanguarda no Paraná e demonstra que investir em criatividade é investir em futuro. O Núcleo da Indústria Criativa amplia fronteiras, conectando talentos e fortalecendo um setor que transforma imaginação em trabalho, cultura em negócio e criatividade em desenvolvimento sustentável. Que o exemplo da Acic em Cascavel seja seguido”, completa a historiadora.
Apesar de não haver um corte específico ainda consolidado sobre a indústria criativa em Cascavel, no Paraná ela vem ganhando espaço como um dos vetores mais promissores de inovação, cultura e desenvolvimento econômico. Impulsionado por políticas públicas, programas de incentivo e pelo fortalecimento do ecossistema de tecnologia e criatividade, o setor coloca o estado entre os mais inovadores do país.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O Paraná ocupa posições de destaque em rankings de inovação, atrás de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Santa Catarina, refletindo um ambiente favorável à criação, ao empreendedorismo e à geração de novos negócios.
Além de incentivar novos empreendedores, essas políticas têm impacto social relevante ao ampliar oportunidades de formação e inserção profissional.
O setor criativo paranaense também tem ampliado sua visibilidade nacional. Profissionais e empreendedores da cultura, do design, do audiovisual e de outras áreas participam de eventos de grande porte, como o Mercado das Indústrias Criativas do Brasil, levando produções locais para circuitos mais amplos e reforçando o potencial competitivo do estado.
“Esse caráter transversal permite que a criatividade dialogue tanto com a cultura quanto com a tecnologia, diversificando a matriz econômica e criando novas possibilidades de crescimento regional. É essencial que novas associações comerciais sigam pelo mesmo caminho e valorizem essa indústria ainda invisibilizada”, reforça Martins.
Apesar do cenário positivo, especialistas apontam desafios importantes. Um dos principais entraves é a falta de dados atualizados e específicos sobre o tamanho real e o impacto econômico da indústria criativa. “Grande parte das informações disponíveis ainda é baseada em levantamentos nacionais ou estudos realizados em anos anteriores, o que dificulta uma mensuração mais precisa do setor e o planejamento de políticas públicas ainda mais eficazes”, lembra a economista Regina Martins.
Mesmo diante dessas limitações, os indicadores existentes apontam para um futuro promissor. “Ao investir em inovação, formação de talentos e estímulo ao empreendedorismo criativo, o Oeste do Paraná consolida sua posição como um polo em expansão na indústria da economia criativa brasileira, com potencial para atrair investimentos, gerar emprego e fortalecer a identidade cultural e produtiva, não de um local, mas de um estado”, encerra a economista.
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