
O suicídio do ex-presidente Getúlio Vargas em 1954 e a fraqueza que tomou conta do governo federal, deixando-o exposto a pressões de toda ordem, criaram um ambiente em que a democracia esteve sempre sob forte ataque.
O vice-presidente Café Filho (1899–1970) assumiu naturalmente o governo, mas não tinha diretrizes próprias nem podia manter a batalhas políticas do líder morto. O melhor a fazer foi tocar o governo burocraticamente.
Embora não haja destaque desse fato na história, foi do governo Café Filho que vieram os projetos das obras gêmeas nas quais o próximo presidente, Juscelino Kubitschek (1902–1976), iria se apoiar para resistir às ameaças golpistas que sofreu desde antes da posse até o final do governo: a criação de Brasília para ser a nova capital federal e a ponte internacional Brasil-Paraguai em Foz do Iguaçu.
Brasília é associada a Juscelino, mas a proposta é mais antiga. Já a origem mais concreta da ponte foi um pedido do Ministério da Viação e Obras Públicas para a abertura de um crédito especial para a obra sobre o Rio Paraná, ligando a rodovia Coronel Oviedo-Pôrto Presidente Franco à então BR-35, atual BR-277.
A Comissão de Planejamento Econômico do Estado (Pladep) foi criada pelo Paraná em 1955 para resolver os problemas que iam surgindo, como o impacto da grande obra na fronteira.
Com a posse de JK e do vice João Goulart em 31 de janeiro de 1956, o nacionalismo dos anos finais da Era Vargas dará lugar ao “desenvolvimentismo”, cuja fórmula é atrair o capital estrangeiro e estimular o capital nacional a investir.
As necessidades do Paraná ajudaram os projetos de JK, que apresentou seu ambicioso Plano de Metas, conjunto de 30 propostas agrupadas em cinco setores: energia, transportes, alimentos, indústrias de base e a construção de Brasília.
A proposta de fazer “50 anos em 5” foi muito cativante e seu slogan se impôs na memória nacional. Mais que efetivamente um projeto, era manobra publicitária de impacto para assegurar apoio popular e desmobilizar os golpistas que pretendiam derrubá-lo.
Em 11 de fevereiro, dois oficiais da Aeronáutica tomaram um avião em base militar no Rio e o desviaram para a base de Jacareacanga, no Pará, em um novo ensaio de golpe.
A tentativa fracassou no dia 29, mas JK já sabia que o golpismo contaminava as Forças Armadas e parte importante da população e não seria fácil vencê-lo só com propaganda: eram necessárias realizações concretas.
A primeira vitória de JK se deu em 29 de maio de 1956, quando os governos do Brasil e do Paraguai assinaram o acordo para a construção da Ponte da Amizade.
O crédito proposto para construir a ponte saiu logo, em setembro, período em que o Paraná vivia as turbulências acumulados pelas fortes geadas que liquidaram o governo Bento Munhoz e o impediram de se tornar o líder nacional que ambicionava ser.
Mais ações internacionais fortaleceram JK, como em janeiro de 1957, ao ratificar a manutenção da base militar dos EUA em Fernando de Noronha em troca de US$ 100 milhões em armamentos.
Mas nem com as políticas desenvolvimentistas e a geopolítica da Ponte da Amizade o presidente JK conseguiu silenciar os radicais, pois havia um fator que não dependia dele: no exterior, a Guerra Fria se intensificava, impedindo a união do povo brasileiro.
No início de dezembro de 1956, Fidel Castro e 82 militantes que regressavam a Cuba iniciam a guerrilha de Sierra Maestra. A ousadia vai seduzir alguns setores da esquerda brasileira, sem analisar objetivamente as diferenças entre as condições históricas de Cuba e a situação brasileira.
A essa altura, JK havia dado o primeiro grande passo mais concreto rumo às obras da Ponte Internacional da Amizade. Em 14 de setembro de 1956 ele criou a Comissão Especial de Construção e uma semana depois o Congresso também aprovava lei autorizando a construção de Brasília.
A escolha do local da travessia no Rio Paraná foi difícil, requerendo estudos hidrológicos do regime de águas de um período de 20 anos, com levantamentos sobre uma faixa de 140m de largura, trabalho muito penoso na época.
A Ponte da Amizade teria comprimento total de 552,4m, com o arco em 303m. A concorrência pública definiu a entrega das obras ao consórcio de duas firmas: Construtora Rabello (que construiu o Palácio da Alvorada, em Brasília) e Sotege (Sociedade de Terraplanagem e Grandes Estruturas Ltda).
A condição indispensável no projeto da ponte era de que o tráfego fluvial não poderia ser interrompido. O gabarito de navegação teria no mínimo 18m de altura contado a partir do nível mais alto das águas, na enchente de 1905.
Com a criação do grupo encarregado de projetar a Ponte da Amizade, em novembro, o engenheiro Almyr França foi designado para chefiá-lo. Logo foi providenciado o lançamento da pedra fundamental da obra, pelos presidentes Juscelino Kubitscheck e Alfredo Stroessner (1912–2006).
No fundo do Rio Paraná, previamente à elaboração do projeto da ponte, é executado o levantamento das medidas batimétricas. Nesse trabalho, as águas revoltas do Paranazão, como os ribeirinhos chamam o grande rio, fizeram adernar a embarcação que transportava os técnicos.
Morrem afogados o engenheiro Tasso Costa Rodrigues e alguns integrantes da equipe. Em sua memória, a sobrevivência dos dados que levantaram foi essencial para a viabilização da obra.
Já as obras de Brasília começam em fevereiro de 1957, mobilizando seus primeiros três mil trabalhadores – os candangos. Com menos desafios estruturais, as obras de Brasília terão um desenvolvimento mais rápido que a ponte.
As obras da Ponte da Amizade deram uma sacudida positiva na região de fronteira. Foz do Iguaçu, Cascavel e Toledo se fortalecem. O entusiasmo com as obras da ponte internacional atrai investidores e moradores atraídos pelas colonizadoras à região.
Os crescentes lucros dos madeireiros com a exportação e fornecimento de material à construção de Brasília favoreceram o aumento da arrecadação nas prefeituras e novos municípios são projetados em desmembramentos.
Em janeiro de 1958, quando começou o trabalho de montagem de parte das ensecadeiras para a construção dos blocos de apoio do arco e pilone da ponte, não se imaginava que as condições irregulares do Rio Paraná apresentariam tantos desafios para os técnicos. Intermitentes, ora aceleravam as obras, ora criavam problemas de continuidade.
Com isso, apenas em maio de 1958 serão retomados os trabalhos de concretagem, e mesmo assim a elevação do nível do rio no lado paraguaio ainda não permitia iniciar a construção dos blocos para o cimbramento – a estrutura de suporte do arco.
Por outro lado, tudo em Brasília andava bem. Logo em 30 de junho de 1958 era inaugurado o Palácio da Alvorada, cuja obra, como de resto as demais construções de toda a “Novacap”, contou com a participação de amplas partidas da madeira paranaense.
A Prefeitura de Cascavel sentiu conforto de caixa para uma ação ousada: contratou a Companhia Telefônica Sul-Paranaense (Telesul), de Ponta Grossa, para instalação de telefones urbanos, e assim o ano de 1958 terminou em festa, com a inauguração da primeira rede automática de telefonia do Estado.
“Nem Curitiba possui esse moderno tipo de serviço telefônico”, orgulha-se o prefeito Helberto Schwarz (1918–2009).
Município com apenas seis anos, cidade conhecida por vários nomes desde 1930 até se consagrar como “Cascavel” apenas em 1953, a outrora desprezada vila do Território Federal do Iguaçu passava a contar com a telefonia mais avançada existente.
Note-se que a Telepar (Telecomunicações do Paraná S/A) só seria criada em 1963, no primeiro governo de Ney Braga.
Por conta dos múltiplos obstáculos apresentados, só em abril de 1960 teve início a concretagem do arco da Ponte da Amizade. Mais adiantada, no Planalto Central, no feriado de Tiradentes, 21 de abril, inaugurava-se a nova capital do País – Brasília.
A Ponte da Amizade teve duas inaugurações: em 26 de janeiro de 1961, pelo presidente JK, mais de um ano antes da finalização das obras (em 26 de março de 1962), e em 27 de março de 1965, pelo general Castelo Branco. JK pôde terminar o mandato, mas seus sucessores – Jânio Quadros e João Goulart – sem obras à altura, não tiveram a mesma sorte.
Em acordo com o governo do Paraná, no princípio da década final do século XIX o empreiteiro Augusto Gomes de Oliveira ordenou a seus peões, comandados por seus familiares, a abertura da ampla estrada ervateira/tropeira destinada a estabelecer uma ligação de extrema importância para o comércio da época.
Gomes recebeu cinco mil alqueires de terras como pagamento pela construção da estrada carroçável, que ligava Catanduvas a Lopeí na faixa de terras localizada entre as obrages argentinas Barthe e Nuñes y Gibaja.
O ponto em que a estrada ervateira cortava a trilha aberta pelos militares rumo à foz do Rio Iguaçu no divisor de águas passou a ser chamado pelos sertanejos como Encruzilhada dos Gomes, ganhando na tradição popular o sobrenome da família do coronel Augusto.
A Encruzilhada dos Gomes passou a ser muito batida, mas ninguém se interessava em viver nela, um lugar com baixada, banhado e repleto de samambaias. A parada para se refrescar e reabastecer, a partir de 1922, era a propriedade rural da família Schiels, no Cascavel Velho.
Até a vinda da família Schiels, por ali havia apenas o mato, antas, macacos e uma invernada para o gado criado pela companhia Domingo Barthe.
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