
Era uma sexta-feira, 28 de março de 1930. José Silvério de Oliveira, o Nhô Jeca, chega para se estabelecer em definitivo na Encruzilhada dos Gomes, onde a família já tinha uma bodeguinha (pequeno bar e armazém típico das estradas da época) e começa a formar a vila que deu origem à cidade.
Nesse mesmo dia, adeptos da Aliança Liberal derrotados nas eleições de 1º de março articulavam um golpe de Estado para derrubar o presidente da República, Washington Luís, em linha com a situação mundial, com Mahatma Gandhi em plena Marcha do Sal, movimento rebelde que iniciou a independência da Índia. O desemprego também originava revoltas populares nos EUA e na Europa.
O início da formação urbana de Cascavel data de 1930, mas suas origens estão na Revolução de 1924, após a derrota dos militares revolucionários que se renderam em 1925 sob o cerco das poderosas forças organizadas pelo general Cândido Rondon.
Os sobreviventes se dividiram, por força dos acontecimentos, em dois grupos. O primeiro foi o dos revolucionários presos após a derrota do movimento em Catanduvas. Esse grupo amargou seus mortos, cumpriu penas em prisões e campos de concentração e voltou às atividades tramando uma nova revolução.
O segundo grupo, o dos que escaparam à repressão governamental, recusou-se a aceitar a derrota e seguiu os passos de Gandhi, iniciando sua própria marcha com a Coluna Prestes, que por sua vez inspirou a revolução chinesa em 1934.
A coluna iniciou a marcha pelo interior do Brasil tentando sublevar a população contra as oligarquias rurais e o governo federal, mas o presidente Artur Bernardes governava com mão de ferro, limitando as liberdades civis com repressão e perseguições.
Ações de cunho nacional deram a base para a formação de Cascavel. Em setembro de 1926, uma reforma constitucional conduzida no Congresso fortaleceu o Poder Executivo e permitiu ao novo presidente eleito, Washington Luís, empossado em 15 de novembro, dar fim do Estado de Sítio.
Automóveis começavam a fazer parte dos cenários nas ruas e estradas, dando ares de modernização ao país. Com as reformas constitucionais a Coluna Prestes perdeu suas motivações e se dispersou quando o Congresso Operário Sindical criou em fevereiro de 1927 a Confederação Geral do Trabalho (CGT).
Em 1928, quando o governo federal priorizou as obras rodoviárias como eixos de povoação do interior, Jeca Silvério decidiu arrendar junto ao colono Antônio José Elias, o Antônio Diogo, as terras ao redor da Encruzilhada dos Gomes, por onde a futura BR-277 iria passar.
Aproveitando a parte alta do lugar para abrir sua bodeguinha e o banhado adjacente para criar suínos, Silvério e família desenvolviam a atividade conhecida como “safrismo”, que consistia em criar suínos e após a engorda levá-los para ser vendidos em feiras agropecuárias nas cidades-polo.
Com a quebra da Bolsa de Nova York em 24 de outubro de 1929, a situação mundial iniciou uma nova história: a crise derrubou as exportações brasileiras, ancoradas no café, e assim o Brasil se viu à beira da ruína.
A saca de café abriu 1929 valendo 200 mil réis e no final do ano rendia apenas 10% disso. A solução aplicada pelo governo foi usar dinheiro público para comprar o café excedente e queimá-lo e enormes fogueiras.
Para fazer frente ao governo abalado, surge a Aliança Liberal, coligação formada por Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba, que sob as lideranças de Getúlio Vargas e João Pessoa decidiu enfrentar a oligarquia cafeeira paulista.
Defendia o voto secreto, reformas sociais e a industrialização para vencer a dependência quase completa ao setor primário.
Silvério era ligado à Aliança Liberal, que tentaria conquistar o poder pelo voto nas eleições de 1º de março de 1930. A máquina eleitoral do governo, entretanto, era muito poderosa e deu a vitória ao paulista Júlio Prestes.
A derrota causou um impacto severo na vida de Jeca Silvério. Já com 42 anos, não se sentiu forte o suficiente para enfrentar os adversários vitoriosos em Pouso Alegre, no interior de Guarapuava, onde tinha sua residência fixa.
Quem narra esse período é Sandálio dos Santos, em suas Memórias, manuscrito datado de 1964:
– Infelizmente, após o pleito eleitoral deu-se pretexto e ensejo a algumas perseguições políticas àqueles cidadãos que tinham discordado das diretrizes governamentais. Nhô Jeca, procurando evitar uma situação vexatória ante os acontecimentos que se desenrolavam, acompanhado de empregados e parentes conseguiu com Antônio José Elias, Antônio Diogo, um trato de terras justamente na Encruzilhada dos Gomes para se estabelecer. O lugar era tão remoto que bem poucos acreditavam nele.
Vindo ao Oeste em definitivo em 28 de março de 1930, portanto, foi nesse dia que Silvério mandou construir algumas casas ao redor da bodeguinha e deu início à formação da cidade de Cascavel.
Os derrotados de 1º de março, porém, recusaram-se a aceitar o resultado da eleição, alegando fraude. A conspiração cresceu em todo o país e aumentou com a continuidade da crise econômica e o assassinato de João Pessoa, a tiros, em 26 de julho.
Em 3 de outubro, a Guarda Civil gaúcha, estimulada pelos conspiradores, tomou o quartel-general do Exército de Porto Alegre. A orientação era unir forças para seguir ao Rio de Janeiro e tomar o governo, mas teriam que passar pelo Paraná, cujo governo era ligado à oligarquia.
O major Plínio Tourinho e oficiais da 5.ª Região Militar tomaram os quartéis de Curitiba na madrugada de 5 de outubro, obtendo imediatamente o apoio da Polícia Militar para neutralizar o governo.
O presidente (governador) do Paraná, Affonso Camargo, fugiu de Curitiba, deixando livre o caminho para os rebeldes marcharem sem obstáculos para permitir, em 24 de outubro de 1930, a revanche dos derrotados no Oeste do Paraná em 1924.
A vitória da Revolução anulou as concessões e vendas de terras apadrinhadas pelo regime vencido. Com isso, o arrendamento feito por Silvério junto a Antônio José Elias foi anulado e, por posse de seus parentes e amigos ao redor da Encruzilhada dos Gomes, ele passou a ser o proprietário de toda a área ao Norte do Cascavel Velho.
Sandálio dos Santos conta, em suas Memórias:
– Para felicidade da região, veio de ser nomeado prefeito municipal de Foz do Iguaçu o dr. Othon Mäder, cidadão que já houvera ocupado o cargo de comissário de terras. Este ilustre cidadão com a sua esclarecida visão administrativa, previu no lugarejo [Encruzilhada dos Gomes] um futuro centro da imensidão territorial do município de Foz do Iguaçu.
– Era por uma encruzilhada mesmo e assim despontava o sertão requerendo do governo do Estado uma área de terras para ser um Patrimônio Municipal. A planificação dada à área não teve um delineamento de urbanização, mas, seja como for, erigia-se o marco da futura cidade.
Antes de Jeca Silvério iniciar a cidade, no interior do atual Município de Cascavel já viviam no meio rural outras famílias, como as de Antônio José Elias e Ernesto/Laurentina Lopes Schiels no Cascavel Velho, Tomás Fernandes e Pedro Vaninski, o Pedro Louco, em Centralito.
Desde 1920, segundo Sandálio dos Santos, já viviam na área da atual Cascavel “o caboclo Benedito Modesto e uma velha índia chamada Maria da Conceição”. Famílias polonesas esparsas vinham e se estabeleciam, mas por falta de clientes para seus produtos logo partiam para outros lugares anunciados como promissores.
Além dos Silvério, as primeiras famílias a se estabelecer na vila que entre os anos 1950 e 1960 virou cidade foram Siqueira, Victor, Araújo, Germano, Santos, Leal, Batista, Bazaki e de Paula.
Silvério trouxe os primeiros e Ramiro Siqueira trouxe Antônio Eduardo, que vivia no interior de Foz do Iguaçu. Alguns eram parentes e trabalhadores das empreitadas de limpeza de ervais na região, base da agropecuária.
Daí para frente o antigo “lugarejo” passaria a receber milhares de novos cascavelenses até se transformar em um dos grandes polos econômicos do país.
Quanto ao Cascavel Velho, só passou a fazer parte da cidade na década de 1960, com a primeira grande ampliação do perímetro urbano e sua correspondente transformação em bairro.
Em 8 de setembro de 1903 nasceu João Maria Diogo, em Rio Negro. Irmão de Antônio José Elias, com treze anos ele acompanharia a família Schiels na mudança para o Oeste e viveu em Cascavel até se transferir para Catanduvas.
Dois meses depois do nascimento do irmão João Maria, já com 22 anos, Antônio José (mais conhecido como Antônio Diogo) se casava na mesma cidade de Rio Negro com a jovem Constantina Schiels, filha de Francisco e Antônia Maria da Fonseca.
Constantina era irmã por parte de pai de Ernesto de Oliveira Schiels, o primeiro morador da região de Cascavel.
Nessa época já havia intenso movimento de ervateiros no Oeste, em viagens feitas unicamente a pé ou em lombo de burro, tornando-se extremamente difíceis. Os cavaleiros abriam picadas a facão para a passagem da montaria.
Criada em 1888 e tendo como ótimo resultado a criação da Colônia Militar do Iguaçu, a Comissão Estratégica do Paraná foi novamente acionada no início do século XX com os encargos de concluir a ligação telegráfica e rodoviária de Guarapuava a Foz do Iguaçu.
Em 1905, concluindo seus trabalhos de topografia e exploração das áreas das obrages no Oeste paranaense, a equipe do engenheiro Arthur Martins Franco traçou o primeiro mapa do Médio Oeste do Paraná identificando os entrepostos de coleta de erva-mate.
Mín. 19° Máx. 36°