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O sumiço dos votos de 1996

Edgar Bueno alegou que o resultado das eleições para a Prefeitura não correspondia à verdade e pediu a recontagem dos votos

05/04/2026 às 09h26
Por: Tissiane Merlak Fonte: Alceu Sperança
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Salazar e Edgar: cinco mandatos à frente da Prefeitura de Cascavel
Salazar e Edgar: cinco mandatos à frente da Prefeitura de Cascavel

Com uma virtual contagem regressiva para o terceiro milênio, o ano de 1996 foi o primeiro do novo Brasil. O Brasil anterior, iniciado com a ditadura de 1964, prometeu Reforma Agrária e a modernização das atividades rurais, mas desagradou profundamente o agro.

Só em 1.º de abril de 1980, depois de fortes protestos, os agricultores conseguiram sua primeira grande vitória, derrubando um pernicioso imposto de exportação que prejudicava gravemente a agricultura brasileira.

Mas não houve avanços a partir daí e logo a asfixia dos produtores cresceu, levando em julho de 1983 a um tratoraço na Avenida Brasil. O regime prometia democracia, mas a eleição para presidente em janeiro de 1985 ainda foi indireta.

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Eleito Tancredo Neves, que morreu em seguida, o governo foi entregue a José Sarney, incapaz de oferecer respostas positivas aos milhares de agropecuaristas, patrões e empregados que se levantaram contra a ameaça de insolvência do setor.

Não havia uma política agrícola de fato, levando os sindicatos rurais e cooperativas em junho de 1985 a fechar a BR-277. Mas não adiantou. Em 1987 o agro fechou dezenas de agências bancárias para exigir a redução dos juros e em 1989 se deu o Levante da Soja: cerca de 500 produtores queimaram uma colheitadeira na pista bloqueada da BR-277.

Traído pelas promessas de Fernando Collor, o setor só se beneficiou após a cassação do presidente. O vice Itamar Franco assumiu e iniciou de fato a transição do país à democracia. Em 1992 entregou o bem-sucedido Plano Real e elegeu o próximo presidente, Fernando Henrique Cardoso, em 1994. Assim começou o novo Brasil.

Vencendo obstáculos

Para Cascavel, 1996 foi um ano de lutas intensas, que hoje seriam impossíveis. Sendo a cidade um dos mais expressivos polos médicos do país, essa história parece agora como de outro planeta, mas na época os cascavelenses abriram guerra contra a Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep).

O episódio começou por uma iniciativa absurda do empresário José Carlos Gomes de Carvalho, o Carvalhinho, presidente da Fiep, que votou no Conselho Estadual de Saúde contra a criação dos cursos de Medicina e Odontologia na Unioeste, o que lhe valeu o ruidoso repúdio dos empresários oestinos.

Embora inacreditável na atualidade, essa história foi contaminada pela conjuntura da época, tempo de ultrapassagem da ditadura de 1964–1985 para a democracia, que só se completou após a grande vitória dos agropecuaristas em 1995 sobre as tramoias que por décadas oprimiram o campo em favor de interesses estrangeiros.

Com as exigências básicas dos agricultores cumpridas, tinha início a modernização efetiva do setor. Em julho de 1996 o setor somava mais uma conquista: a criação do Programa Agrícola Mecanizado (Pamec) para atender a proprietários rurais, arrendatários, parceiros ou meeiros com áreas mecanizadas de até cinco alqueires.

Para chegar a esse novo Brasil, entretanto, foi preciso vencer décadas de dificuldades, falta de recursos e endividamento. Nesse processo, 1996 chegou com as atenções voltadas às eleições municipais no país já plenamente redemocratizado.

As mortes de 1996

O ano de 1996 foi marcado em Cascavel por uma série de mortes de lideranças locais muito estimadas, a começar por Zacarias Silvério de Oliveira, o Tio Zaca, sobrinho do fundador de Cascavel, José Silvério de Oliveira, o Tio Jeca, em janeiro.

Em março morreu o líder da Sociedade Rural do Oeste, Francisco Antônio Sciarra. Em junho, o ex-vereador Hercílio Fossá. Em julho, o jornalista Sefrin Filho. Considerado um milagre, escapou da morte o ex-prefeito e piloto Pedro Muffato, que em agosto sofreu gravíssimo acidente no Campeonato Sul-Americano de Fórmula 3.

Assumindo depois do primeiro mandato de Barreiros, o prefeito Fidelcino Tolentino vivia o último ano de seu próprio segundo mandato. O ex-prefeito Salazar Barreiros concorria pelo recém-fundado Partido Progressista Brasileiro (PPB), um dos nove partidos aos quais o ex-presidente Jair Bolsonaro pertenceu.

O principal oponente de Salazar era o deputado estadual Edgar Bueno (PDT). Barreiros obteve a vitória com 42.467 votos, contra igualmente robustos 42.310 votos dados a Bueno, naquela época em sua fase “trabalhista”, antes de se definir pelo PSDB.

Bueno reagiu aos resultados que apresentavam a pequena diferença de apenas 157 votos e levantou suspeitas de que teria sido prejudicado na contagem final, mostrando dados de uma rigorosa apuração paralela que não batiam com a oficial.

Situações de quase empate

A diferença indicava uma eleição quase empatada. Na primeira eleição municipal, em 9 de novembro de 1952, o resultado foi decidido por um voto não dado: por não votar em si mesmo, o candidato Tarqüínio Joslin dos Santos (PR) perdeu para o eleito, José Neves Formighieri (PTB), pelo próprio voto não dado.

O Partido Republicano, derrotado, entrou com pedido de recontagem dos votos. Quando Formighieri já cumpria três anos de mandato, em 1955, veio a notícia de que o TRE iria fazer a recontagem dos votos, mas a essa altura Tarqüínio já havia criado (logo em 1953) a Associação Rural de Cascavel para manter a mobilização de quem o apoiou.

Humildemente, o prefeito Neves Formighieri o procurou e lhe pediu para ser também um associado à ARC. Por sua vez, Tarqüínio desistiu de insistir na recontagem, até porque estava com negócios requerendo sua atenção em Foz do Iguaçu.

Viu que a população precisava apoiar a Prefeitura naquele início difícil de vida municipal, estava contente com o desempenho de Neves Formighieri e, segundo d. Diva, sua esposa, nunca mais quis falar no assunto, mesmo porque logo caiu adoentado e desistiu da vida pública.

O Caso Balaio

Salazar, antes do confronto com Bueno, viveu uma situação também próxima do empate no pleito de 1988, quando enfrentou Jacy Scanagatta. Nessa época, Salazar (PMDB) obteve 26.049 contra 25.704 dados ao ex-prefeito Jacy, no curso de uma campanha eleitoral jamais vista, levada como uma guerra entre o PMDB e o PDS, novo nome da Arena, que havia sido o partido da ditadura.

Na época, a Polícia Federal foi chamada para investigar uma descarada compra de votos em favor do candidato do PMDB, episódio que veio a ser conhecido como “Caso Balaio”. Foi uma eleição tão tensa que teve até a “expulsão” da Polícia Federal da cidade, impedida de prosseguir na investigação das denúncias de compra de votos.

Mesmo contestado, Salazar venceu em 1988 e repetia o feito em 1996, mas desta vez foi contestado pelo oponente Edgar Bueno. Travou-se uma agitada disputa na Justiça, nos bastidores e na mídia, levando o TSE a aceitar a recontagem dos votos, em concorrida apuração final marcada para 5 de abril de 1998.

Seria um procedimento rápido, pois foi autorizada a recontagem de apenas 38 das 399 urnas guardadas na agência central do Banco do Brasil em Cascavel.

Quem estava certo?

A recontagem revelou que Edgar Bueno tinha razão: houve erros na apuração do pleito em 1996. Comprovou-se que seis votos dados a Edgar Bueno desapareceram na contagem inicial. No entanto, jamais se soube como nem porque esses votos sumiram.

Devido a isso a Justiça Eleitoral oficializou a vitória final de Salazar Barreiros por 42.467 votos a 42.316, perfazendo a diferença final de 151 votos.

Como sempre, os eleitos festejam e os derrotados, depois das queixas e esperneios de praxe, começam a se preparar para novas batalhas. E assim Edgar Bueno, depois dessa derrota foi eleito três vezes para a Prefeitura – em 2000, 2008 e 2012.

Salazar Barreiros virou saudade. Filho de agricultores, nascido em 15 de junho de 1939 em Getulina (SP), formou-se em Direito em Curitiba, onde começou a advogar, participando também de bancas em Mandaguaçu, Goioerê e Cascavel.

Assessor jurídico das prefeituras de Goioerê, Moreira Salles e Mariluz, também foi professor, diretor de escola e vereador pelo Município de Mandaguaçu nas legislaturas de 1960 a 1964 e de 1964 a 1968.

Mudou-se para Goioerê e a partir de 1981 se estabeleceu em Cascavel, onde já tinha terras, e em seguida se dedicou à pecuária em Amambai (MS). Com um ativo de dois mandatos bem-sucedidos de prefeito em Cascavel, Salazar Barreiros morreu em 5 de fevereiro de 2021.

A primeira família: Preparando o terreno

Incluindo os pousos ervateiros de Toledo e Cascavel, os diversos entrepostos das obrages deram lugar no ciclo madeireiro a serrarias.

Em 1906, após penosos serviços, inauguravam-se festivamente na Colônia Militar do Iguaçu (atual Foz do Iguaçu) os terminais de linha telegráfica cujos traçados se orientaram pelo antigo picadão, entre Rio do Salto e Juvinópolis.

A construção esteve a cargo e sob chefia do capitão engenheiro Felix Fleury de Souza Amorim. A construção da rodovia logrou alcançar provisoriamente Catanduvas.

“Com a ligação telegráfica, aos poucos e gradativamente o caboclo, sertanejo brasileiro, vinha se assenhoreando da região, construindo suas choças às margens da linha telegráfica e estratégica” (Sandálio dos Santos, Memórias).

A medição apontou que o pouso Cascavel, da companhia N&G, estava na área da Barthe. O entreposto da Barthe, a Central, estava na área da Nuñez y Gibaja. Em breve, o pouso seria desativado e a Central Barthe passaria a ser a Central Lupion.

Ressalte-se, portanto, que até 1928 a Encruzilhada dos Gomes era só um desabitado ponto de passagem na divisa entre as medidas terras das companhias Núñez y Gibaja e Domingo Barthe e o Cascavel Velho era uma propriedade rural iniciada em 1922.

A primeira bodeguinha na Encruzilhada só foi aberta em 1928, quando Antônio José Elias e José Silvério de Oliveira formalizavam o arrendamento da área, já em curso desde os primeiros entendimentos, em 1923.

Telégrafo, aparelho com o qual eram escritas as mensagens à distância

 

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