
O que deveria se transformar em um espaço de acolhimento, reconstrução de vidas acabou se tornando símbolo de destruição, insegurança e um projeto que chega ao fim, sem sequer ter começado.
Em apenas três meses, o imóvel onde funcionaria a Embaixada Solidária, em Marechal Cândido Rondon, foi alvo de dois ataques de vandalismo que comprometeram totalmente a implantação do projeto social voltado a imigrantes na região. Ele não vai mais ser operado na cidade, afirmam os gestores.
A iniciativa, idealizada para atender famílias estrangeiras em situação de vulnerabilidade, teve sua estrutura destruída em duas ocasiões: a primeira na madrugada de 24 de janeiro e a segunda no dia 11 de abril. Em ambos os casos, segundo a coordenação, os prejuízos foram extensos, ultrapassam os R$ 150 mil, e ainda não há respostas concretas das autoridades sobre a identificação dos responsáveis, tendo em vista que boletins de ocorrência foram registrados, mas sem informações sobre o andamento das investigações.
Apesar da repercussão do caso e de manifestações de apoio por parte do Governo do Estado e de instituições nacionais e internacionais, ainda não há qualquer manifestação oficial por parte das autoridades policiais sobre as investigações para a identificaçãodos responsáveis.
Diante desse cenário, a coordenação da Embaixada Solidária afirma que a decisão de encerrar as atividades no município já está tomada. Segundo Edna Nunes, a equipe deve recuar na atuação local, mesmo mantendo projetos semelhantes em funcionamento em outras regiões do Brasil.
O primeiro episódio ocorreu quando o espaço estava em fase final de preparação. A proposta era transformar o local, um antigo imóvel desativado, em um centro de acolhimento com estrutura completa, incluindo dormitórios, cozinha comunitária e áreas para cursos profissionalizantes.
De acordo com a coordenadora do projeto, Edna Nunes, o ataque foi marcado por destruição generalizada. Móveis, eletrodomésticos e materiais recém-adquiridos e doados foram danificados ou inutilizados.
Na ocasião, ela descreveu o impacto emocional e material do ocorrido. Segundo Edna, o local estava praticamente pronto para iniciar as atividades quando foi invadido durante a madrugada. Geladeiras, freezers, máquinas de lavar, vidraças e parte da estrutura do imóvel foram destruídos. “Não dá para calcular o tamanho do prejuízo, mas estimamos que nas duas ocorrências passem de R$ 150 mil”, relata.
Ela também destacou que o projeto vinha sendo construído há anos, com base em doações e parcerias, e que o objetivo era atender não apenas o município, mas toda a região. “Muitas famílias migrantes chegam sem condições básicas de moradia, apesar da oferta de emprego no Oeste do Paraná. A proposta do espaço, que seria chamado de “Vila Mundo”, incluía ainda cursos de capacitação, como aulas de costura, e suporte para que os imigrantes pudessem recomeçar”, descreve.
Todo esse planejamento foi interrompido com a destruição. “Não foi um furto isolado. Foi um ato de maldade. Destruíram tudo, desde móveis até materiais que seriam usados para cursos e atendimento às famílias”, afirmou Edna, ao relatar que até o telhado e instalações internas haviam sido danificados.
Quando ainda tentava se recuperar do primeiro ataque, o projeto voltou a ser alvo de criminosos o que acabou ponto um fim na ideia na cidade. No dia 11 de abril, uma nova invasão foi registrada, novamente com atos de depredação.
Segundo Edna Nunes, o segundo episódio ocorreu enquanto a equipe ainda buscava alternativas para retomar as atividades. Desta vez, além dos danos materiais, houve um sentimento ainda mais forte de desamparo.
Ela classificou o caso como “uma vergonha” para o município e afirmou que o projeto foi inviabilizado após os ataques sucessivos. A coordenadora também relatou dificuldades para obter apoio imediato durante a ocorrência.
“Estamos completamente desamparados. Tentamos apoio no momento da invasão e não conseguimos atendimento. É algo que assusta”, declarou.
Edna também levantou a hipótese de motivação xenofóbica, embora isso ainda não tenha sido confirmado oficialmente. Para ela, a repetição dos ataques indica que não se trata de um caso isolado.
“Quem está por trás disso? Quem está comandando esses ataques? Essa é a pergunta que fica”, questionou.
Após os dois episódios, boletins de ocorrência foram registrados, mas, segundo a coordenação do projeto, não houve retorno sobre o andamento das investigações.
A ausência de informações oficiais tem gerado preocupação e revolta entre os envolvidos. Para Edna Nunes, a falta de respostas contribui para a sensação de impunidade e insegurança.
“Em nenhuma das vezes tivemos retorno sobre as investigações. Não sabemos se há suspeitos, se há alguma linha de apuração. Isso aumenta ainda mais a insegurança”, afirmou.
A Polícia Civil ainda não se pronunciou sobre o andamento das apurações.
Para especialistas em políticas públicas e assistência social, casos como esse vão além do prejuízo material. Eles destacam que a destruição de iniciativas voltadas a populações vulneráveis pode ter efeitos duradouros.
Segundo analistas da área, projetos como a Embaixada Solidária cumprem papel fundamental na integração de imigrantes, oferecendo suporte inicial para moradia, trabalho e adaptação cultural. “Sem esse tipo de estrutura, muitas famílias acabam expostas a situações de maior vulnerabilidade”, alerta o sociólogo Marcelo Almeida.
Além disso, a repetição de ataques pode desestimular novas iniciativas sociais. “Quando um projeto é inviabilizado dessa forma, há um efeito em cadeia. Outras organizações podem se sentir inseguras para investir ou atuar na região”, avalia.
Há também preocupação com a possibilidade de motivação discriminatória. Caso confirmada, a situação exigiria resposta mais ampla, incluindo ações de conscientização e segurança.
Diante dos danos acumulados e da falta de garantias de segurança, a continuidade do projeto em Marechal Cândido Rondon foi descartada. A equipe deverá devolver o imóvel ao poder público, representando o fim da iniciativa no local.
“O cenário atual inviabiliza a retomada das atividades. O que era para ser um espaço de acolhimento virou um símbolo de destruição. A gente não sabe mais o que esperar”, lamentou Edna Nunes.
Enquanto isso, lembra ela, segue a expectativa por respostas das autoridades e por medidas que garantam segurança para que outros projetos sociais possam atuar sem sofrer novos ataques.








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