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Estação Rodoviária em tempos de politicagem

Foram décadas de intrigas em torno dos terminais. O atual recebeu o nome de “Helenise Tolentino” por manobra política de Jacy Scanagatta

31/05/2026 às 09h46
Por: Tissiane Merlak Fonte: Alceu Sperança
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Acima, a Rodoviária velha, um falso caso de corrupção. Abaixo, o Terminal Helenise Tolentino e seu nome improvável
Acima, a Rodoviária velha, um falso caso de corrupção. Abaixo, o Terminal Helenise Tolentino e seu nome improvável

Reinaugurado em abril com as obras ainda incompletas, o “Terminal Rodoviário Municipal Doutora Helenise Pereira Tolentino” é uma obra compartilhada entre Prefeitura e Estado, que o qualifica apenas como “Terminal Rodoviário Intermunicipal de Cascavel”.

A reinauguração apressada, depois de obras que se arrastaram meses a fio, deve-se claramente à proximidade da campanha eleitoral. É sensata a intenção de afastar suspeitas em torno do uso político que habitualmente cerca as chamadas “revitalizações”.

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Essa tendência de honestidade político-eleitoral contrasta com a história das estações rodoviárias de Cascavel, na qual se destaca a relação entre trucagens políticas, as obras e suas inaugurações.

O caso mais curioso se deu quando o prefeito Jacy Miguel Scanagatta, o maior adversário político do ex-deputado e ex-prefeito Fidelcino Tolentino, deu ao atual Terminal Rodoviário o nome de Helenise Pereira, falecida esposa de Tolentino.

Prefeito desde 1977, Jacy teve como sucessor o então deputado estadual Fidelcino Tolentino, eleito em 1982. Atribui-se essa iniciativa curiosa a um suposto espião plantado por Scanagatta nas hostes tolentinistas.

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O infiltrado avisou Jacy que o novo grupo no poder pretendia varrer da cidade qualquer obra iniciada que pudesse ser creditada a Scanagatta e servir para sua posterior projeção política ainda maior no cenário nacional.

Decreto às pressas

Uma das obras a ser desfeitas seria justamente a do Terminal Rodoviário, com a prevista demolição das estruturas já iniciadas em favor provavelmente de um grande mercado municipal. Jacy resolveu contornar esse risco por meio de um decreto que assinou às vésperas do fim de seu mandato.

Com as obras da estação rodoviária ainda em estágio inicial, feito às pressas, o decreto determinava que “o novo Terminal Rodoviário de Cascavel” terá o nome de “Helenice [na verdade, Helenise] Pereira Tolentino”. A manobra de Jacy pretendia obrigar Tolentino a concluir o prédio para não ser acusado de trair a memória da falecida esposa.

A obra de fato foi concluída, um gasto na época insuportável para o Município em meio às consequências da crise da Década Perdida da ditadura. Para chegar ao desfecho positivo, a construção foi interrompida duas vezes: no início da primeira gestão de Tolentino, por falta de recursos nos cofres municipais, e pela escassez de materiais originada pelo Plano Cruzado (1986).

Nesse mesmo ano de 1986, quando Scanagatta se elegeu deputado federal, estava mantida sua “paternidade” na obra, cuja execução arrastou até 4 de julho de 1987, ao ser inaugurado o “Terminal Dra. Helenise Pereira Tolentino” (ela foi médica).   

No fim do episódio, Cascavel ganhou uma estação rodoviária tida como uma das mais modernas e amplas do país, com 32 plataformas de embarque e quatro salas de espera com 508 poltronas em uma área construída de 10.860 m² da área total de 58,9 mil metros quadrados.

Ataques a Mion

Desse caso restou só o fato curioso, pois todos os personagens envolvidos tiveram um desfecho positivo, situação bem diferente do que aconteceu com a Estação Rodoviária central, nos anos de chumbo da ditadura, quando personalidades hoje saudadas como beneméritas do Município foram acusadas de cometer graves crimes contra o patrimônio público.

Em agosto de 1976, a Subcomissão Geral de Investigações do Paraná acusou o prefeito Octacílio Mion, eleito em 1960, de em 1964 ter doado ao arquiteto Gustavo Gama Monteiro e a Roberto Brandão, por meio de escritura pública, “um terreno com área de 2.960 m², situado no perímetro urbano da cidade, a fim de ser efetivada a construção e incorporação da Estação Rodoviária de Cascavel”.

A concessão previa, entre outras obrigações, que os concessionários vendessem os espaços e lojas pelos preços correntes no mercado imobiliário.

O contrato previa, ainda, um prazo de 25 anos, “findo o qual o cedente [a Prefeitura de Cascavel] poderia estabelecer nova concorrência para incorporação e construção de outra estação rodoviária”, prossegue a denúncia:

“Ocorre que, passado algum tempo, os beneficiários da doação transferiram seus direitos e obrigações do contrato ao sr. Adolpho Cortese, e decorrido outro lapso, este efetuou a transferência a Euclides José Formighieri, primo de Carolina Mion, esposa de Octacílio”.

Até Monteiro entrou na delação

Carolina também foi acusada de ter viabilizado essas transferências, imaginadas como atos de uma trama corrupta, quando na verdade se deram em condições naturais para a época, a começar pela decisão do arquiteto Gustavo Gama Monteiro de não se fixar em Cascavel, devido a ser chamado a projetar obras pelo país afora.

Devido a isso, Mion foi denunciado por “enriquecimento ilícito” e incurso no AI-5, instrumento da ditadura que cassou muitos opositores ao regime militar.

Mion provou que não ofereceu os imóveis a Gustavo Gama Monteiro e Brandão. A troca de obras por imóveis foi determinada por uma comissão de alto nível designada por decreto publicado no Diário Oficial do Estado em 27 de agosto de 1963.

A comissão, composta pelo comerciante Itasyr Antônio Luchesa, major Oscar Ramos Pereira, engenheiro Ciro Bucaneve e vereador Moacir Bordignon, teria que julgar as propostas dos interessados em construir a rodoviária.

No mesmo Diário Oficial foi ainda publicado o edital de concorrência pública fixando as normas para o contrato de concessão públicas, determinando o dia 31 de outubro do mesmo ano para o julgamento das propostas.

A de Gama Monteiro foi aprovada por unanimidade pelos membros da comissão sem participação do prefeito. A denúncia era improcedente, mas por que aconteceu, se nem de longe correspondia aos fatos?

Mion decidiu responder diretamente ao coronel Raymundo Negrão Torres, presidente da comissão que investigadora os supostos crimes: eles não passavam de calúnias vingativas.

Virando o jogo

Depois de demonstrar que as acusações não tinham fundamento, Mion deu indicações de que elas provinham de um ex-delegado de polícia cujo nome não citou, mas é fácil identificar: o coronel Aroldo Cruz, candidato à Prefeitura derrotado por ele em 1960.

Acusar Mion valeu a Cruz uma espetacular reversão de expectativas: o ex-prefeito aderiu ao regime militar e até foi reeleito à Prefeitura, em 1968, pelo partido governista (Arena), enquanto Cruz perdeu suas funções na Polícia Militar, acusado de tomar terrenos urbanos em conluio com o inspetor de Terras, José de Oliveira.

Cruz e Oliveira integravam a rede de elementos de confiança do grupo pessedista-lupionista que controlava o Paraná e esteve por trás da grilagem de terras e expulsão de posseiros. O grupo usava a Polícia Militar em favor de seus interesses eleitorais.

Aroldo Ferreira da Cruz até então teve uma bela história. Nascido em Paranaguá em 1926, ingressou na Polícia Militar em 1943, durante a II Guerra Mundial, como voluntário. Em 1946 concluiu o curso de cabo e permaneceu na PM até 1964, quando foi afastado e passou à reserva como tenente-coronel.

Nomeado para comandar destacamentos da PM em várias cidades, Cruz assumiu a Delegacia de Polícia em Londrina até 1955, quando o lupionismo quis se reforçar em Cascavel, ameaçado pelo predomínio do PTB na Prefeitura, e designou Cruz para comandar a delegacia local.

Explicitamente político

Aroldo Cruz, então com a patente de capitão, foi nomeado para chefiar a DP de Cascavel por decreto do governador Moysés Lupion. Era uma função de evidente viés político. Além de perseguir opositores a Lupion, Cruz se candidatou à Prefeitura para tentar evitar a eleição de Octacílio Mion.

Em sua defesa, Cruz afirmou que na função de delegado de polícia e devido aos conflitos agrários o entrosamento com a Inspetoria de Terras era “imperioso”, mas sempre em caráter meramente administrativo.

Daí até se afirmar a existência de conluio para proveito pessoal, sustentou, é “sórdida perfídia”, “acusação mórbida e levianamente infundada”.

Admitiu ter de fato tido negócios com José de Oliveira em 1963, fora das funções anteriormente desempenhadas, no loteamento da área que atualmente faz parte da cidade de Cafelândia, mas não conseguiu evitar a derrota.

A estação rodoviária que esteve na origem dessa pendenga foi desmobilizada totalmente em julho de 1987, com a inauguração do Terminal Helenise Tolentino. Cruz morreu executado a tiros em abril de 2001, aos 76 anos. Mion, por sua vez, morreu em novembro de 2015, em casa e em paz, aos 89 anos.

A primeira família: “Terra dos paraguai”

“Cascavel! Cascavel era a denominação dada ao pequeno ribeirão lugar que hoje tem o nome de Cascavel Velho. Aí existia um potreiro ou invernada, pastagens de animais de montaria e tração da Companhia Barthe” (Sandálio dos Santos, Memórias).

Às margens do picadão carroçável havia um entreposto de carreto de erva-mate cancheada dessa companhia chamado “carreria”. “Nada nos indicava que nas proximidades teríamos um dia a cidade de Cascavel”, escreveu Sandálio dos Santos:

“Tudo era sertão mesmo. Contudo, sempre se encontrava pelos picadões operários argentinos ou paraguaios daquelas empresas, todos empenhados nas fainas de seus misteres. (Por esses tempos os nossos sertanejos davam à região o cognome de terra dos Paraguai, e daí, muitas vezes éramos obrigados a fazer valer a nossa autoridade particular por meios pouco recomendáveis)”.

Eufemismo para confessar o uso de armas de dissuasão e espancamentos.

O marco futuro de Cascavel, sua “pedra fundamental”, para Sandálio dos Santos, foi usar uma picada tropeira como base para a construção da estrada carroçável que facilitou seu comércio de erva-mate cancheada, ligando a propriedade da família a Lopeí, de onde partia estrada ervateira ao Rio Paraná.

 

Mulheres paraguaias

 

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