
Os sindicatos patronais rurais declararam em 12 de julho de 1982 a cultura do trigo como inviável no Oeste do Paraná. A posição rompia com uma história de décadas tentando fazer a cultura render na região. O radicalismo da iniciativa veio do desgosto com a ditadura, que acumulava sucessivos fracassos, mas também foi consequência do limitado conhecimento sobre a terra da região.
O conselho sobre diversificar a agropecuária para fugir às armadilhas conjunturais da época foi sensato e os agricultores oestinos o seguiram, mas não desistiram do trigo.
Declarar a inviabilidade dessa cultura no Oeste foi um erro decorrente do terrível contexto da época e de avaliações de dados com vícios de origem, mas seria vencido pelo avanço da pesquisa, fato que o presente confirma.
Em 2025, mesmo com retração na área plantada em favor do milho safrinha, a cultura rendeu acima de 3.200 kg/ha na região, resultado do conhecimento da terra, uso de sementes mais resistentes e modernização tecnológica.
Como na política, em que vale mais a versão que propriamente a verdade, a história é repleta de versões (ou teses) que se baseiam em publicações anteriores inexatas.
No caso do trigo oestino, não é verdade que a produção começou com sementes trazidas por agricultores vindos do Sul. A verdade é muito mais antiga: foram os triticultores paranaenses que abasteceram os consumidores gaúchos quando o RS ainda nem existia.
Chegado ao Brasil pelo Porto de São Vicente, o trigo até princípios do século XIX, em toda a América do Sul, só era produzido no Paraná. Isso porque logo no início do ciclo do ouro (1580) surgiu aqui uma pequena agricultura abastecedora dos arraiais dedicados à extração aurífera.
Quando a produção de ouro declinou, a ocupação do território permaneceu baseada na agricultura de subsistência, principalmente no trigo. “É no Paraná onde primeiro se cultivou trigo na América do Sul”, escreveu o historiador David Carneiro. “É daqui que o trigo vai para outros países da América Latina, para a Argentina, por exemplo”.
A finalidade era abastecer as forças militares lusitanas e os guerrilheiros nativos em luta contra invasores estrangeiros.
Desde 1738 as guerras do Sul e o aparecimento da seca no Nordeste consumiam toda a produção paranaense. Além de mandar trigo, o Paraná antigo contribuiu para a formação do Rio Grande do Sul fornecendo braços para resistir militarmente ao expansionismo espanhol.
Com o fim do ciclo do ouro, em 1790, a ocupação do território paranaense permaneceu baseada na agricultura de subsistência, e até princípios do século XIX só o Paraná plantava trigo.
A cultura cedeu espaço ao boom ervateiro, que rendia mais e dava menos trabalho, mas um século depois o governador Francisco Xavier da Silva (1838−1922), ao estimular a política de imigração, decidiu incentivar o plantio do trigo.
Por conta disso, houve uma experiência de promoção da cultura no Oeste pela Prefeitura de Foz do Iguaçu nos anos 1930. Ao arrematar a primeira safra da gramínea cultivada pelo colono Ermínio Mezomo, as sementes foram secadas em laje de concreto e ao chegar às comunidades do interior estavam imprestáveis.
A produção de trigo em maior escala em Cascavel só começa efetivamente em 1955, quando o vice-presidente da Associação Rural, Domingos Camargo, conseguiu em Curitiba trinta sacos de sementes para distribuir entre os empregados da Industrial Madeireira do Paraná (Imapar), cujas famílias estavam ansiosas por uma boa ocupação.
O fato de parte dos empregados terem de origem gaúcha passou a errônea ideia de que esse trigo provinha do Sul. Mas vem daí a cultura aparecer em terceiro lugar na lista de grãos produzidos pelo Município de Cascavel em 1971, só atrás da soja e do milho.
“Com o início do estímulo governamental dando a partir desta época facilidades de crédito, a cultura até então de subsistência passou a ter papel econômico. As áreas foram destocadas e corrigidas, os plantios mecanizados, o emprego de variedades melhoradas e de fertilizantes desencadearam o aumento na produção” (Hilmar Adams, Estudos da Agrotécnica Planejamentos).
“O trigo sempre foi uma loteria, principalmente porque se conheciam só as variedades altas, que o vento facilmente acamava, e quando vinham as lagartas, não havia defesa: só se podia comprar inseticidas em quilos e aplicar com maquininhas manuais” (Danilo Scanagatta, depoimento ao livro Uma história de paz, produção e progresso).
A produção de trigo alcançou um volume maior em rotação com a soja, o que viria a trazer problemas adicionais à região, como o êxodo rural e complicações comerciais. Nessa época surge a Cooperativa Agropecuária Cascavel (Coopavel), em 15 de dezembro de 1970, que teve como primeira atividade o comércio de insumos para o plantio de trigo da safra do ano seguinte.
No inverno de 1971, o clima destemperou, com o aparecimento de doenças na cultura do trigo, que, somadas às geadas tardias na época da floração, reduziram o valor da produção e a qualidade do cereal, causando crise financeira no meio rural.
Os triticultores não se abateram e a área plantada em 1972 aumentou em 56%, mas vieram obstáculos terríveis: doenças e mais geadas afetando a floração, reduzindo a qualidade do cereal e mantendo a crise no campo.
“Num 7 de setembro, estávamos com o trigo muito bonito, lourando, e veio uma geada tão grande que acabou com tudo”, contou Danilo Scanagatta. “Falei à minha esposa: ‘Anoitecemos ricos e amanhecemos pobres’”.
O pior golpe viria na manhã de 18 de junho de 1975, com a mais lesiva das geadas do século passado. O governador Jayme Canet dirigiu ao presidente Ernesto Geisel uma chorosa declaração: “A lavoura de trigo foi dizimada. As demais culturas não existem mais”.
Nas safras seguintes o trigo voltou a render bem, mas esteve ameaçado de se deteriorar no campo ou a caminho dos armazéns por faltar óleo combustível para a secagem do cereal. “O trigo parado pode entrar em fermentação dentro de dois dias”, contava o Jornal do Brasil em agosto de 1979.
Rubens Carlos Buschmann, em nome da Caciopar, enviou recado ao ministro do Planejamento, Delfim Neto. A entidade, “apreensiva com a incerteza que toma conta do produtor rural”, alertava “para os graves reflexos socioeconômicos que fatalmente se abaterão sobre a nossa região, a se prolongar a indefinição na fixação de preço básico do trigo da próxima safra”.
Quadro de dificuldades
O presidente da Coopavel, Luiz Boschirolli, avisou que a área de plantio do trigo tendia a cair pela metade e é nesse quadro de angústia que surge a Sociedade Rural do Oeste, em agosto de 1980.
“Pelo valor econômico do gado [...] Em vez de tirarmos duvidosas toneladas de trigo, vamos tirar arrobas de carne de nossas propriedades”, dizia o agropecuarista Francisco Sciarra na fundação da SRO.
Chega-se, assim, ao contexto em que o Núcleo Regional dos Sindicatos Patronais Rurais vai declarar em 1982 a cultura do trigo como inviável na região, ainda antes de saber que o pior estava por vir, com chuvas excessivas seguidas de forte seca.
Mesmo assim os produtores persistiram até que em maio de 1988 o presidente do Sindicato Rural, Wilson Kuhn, criticou a entrega da comercialização do trigo a estrangeiros, contra os interesses brasileiros.
Analisando criticamente as medidas governamentais para o custeio do trigo, declarou que elas inviabilizavam a cultura na região Sul, afetando os produtores, a pesquisa, as cooperativas, as empresas rurais, comerciantes de insumos e consumidores em geral.
Produção menor, mas de boa qualidade
Essas lutas evoluíram até 1995, quando os produtores começaram a ser de fato respeitados e um novo Brasil surgia na trilha do agronegócio. Para isso foi imprescindível uma ação conjunta de todo o sistema produtivo.
“Se a agricultura está na posição que está hoje não foi por uma coisa isolada. É um conjunto do qual faz parte também o fermento da pesquisa, que estuda as possibilidades de tecnologia de variedades, fertilidade, herbicida, inseticida. A produção é um sistema integrado” (Modesto Félix Daga, também no livro Uma história de paz, produção e progresso).
O Brasil produz apenas a metade do trigo que consome, tornando-se, assim, o maior importador mundial do grão mesmo ainda tendo vastas áreas agricultáveis, mas os terrores de 1982 e o rigor frio das geadas foram amenizados pela calorosa atitude de aproveitar bem a terra.
A atuação dos engenheiros agrônomos e técnicos agrícolas junto às cooperativas foi essencial para a correção de rumos, introduzindo novas variedade, vencendo a conjuntura e até as geadas mais ofensivas.
A primeira família:
Um fato e uma dúvida
Dois meses depois que a família Schiels-Elias já estava convenientemente arranchada, no final de 1922, o coronel Jorge Schimmelpfeng, prefeito de Foz do Iguaçu, viajou a fronteira a Curitiba levando a filha Ottilia.
“Viemos numa caravana de dois carros, acompanhados de empregados e peões que armavam as barracas quando parávamos para descansar, comer e dormir, abriam passagens em trecho intransitáveis da estrada e empurravam os carros quando encalhavam” (Ottilia Schimmelpfeng, entrevista ao jornal Gazeta do Iguaçu, 10/06/1993).
Durante a noite ela ouvia, irritada e temerosa, os urros das feras e a gritaria dos símios. Na escuridão, a mata fechada e os sons persistentes da mata, Ottilia se queixou ao pai:
– Mas que lugar horrível!
– Talvez a gente venha morar aqui.
– O quê? Na terra dos macacos?
– Você está enganada, minha filha. Aqui vai crescer uma grande cidade.
Jorge Schimmelpfeng estava naquele momento na Encruzilhada dos Gomes.
Oito anos depois, José Silvério de Oliveira, o Nhô Jeca, iria fundar ali o primeiro marco da cidade de Cascavel.