
Acostumado a ser obedecido desde em 1960, ao ser designado como pároco da igreja de Nossa Senhora de Fátima de Guaraniaçu, o padre Palmiro Finatto foi enviado para Cascavel no início de 1964. Ele ficou horrorizado ao saber que estava programada para a tarde de 19 de janeiro a primeira prova automobilística da cidade, organizada pelos jovens Marcos Mion e Luiz Carlos Biazetto.
Finatto fez um agressivo sermão criticando a irresponsabilidade de promover uma perigosa corrida nas ruas, com o público exposto a risco nas precárias calçadas. Os pilotos ficaram ressentidos com o padre que acabava de chegar, lembrando que o esporte não conflita com a religião: o papa Pio XII era fã do automobilismo e amigo do piloto Chico Landi.
Ao saber do sermão, no qual o padre também insistiu na necessidade de doações dos fiéis para a construção de uma nova igreja, o piloto Tamôio Fedumenti fez piada misturando o apelo por doações para o novo templo com a corrida: “Um automóvel correndo a 120 cruzeiros por hora não para com facilidade”, teria dito o padre no sermão.
O Cruzeiro era a moeda brasileira na época. Naquela tarde, como em resposta ao ataque sofrido no sermão matinal, diante da mesma igreja em que o padre advertiu as famílias sobre o perigo que a prova representava, os carros dos competidores foram dispostos lado a lado.
Os pilotos eram aquele mesmo Tamôio Fedumenti, Mário Thomasi, José Caratú, Deoclides Carpenedo, Alves Damian, Jacy Scanagatta e Valdeci Sartori.
Eles, distantes cerca de 50 metros dos veículos, aguardavam o sinal para correr até eles e então partir para duas horas de competição e muita poeira. “Os carros de um lado da pista e os pilotos do outro. A largada era dada com um tiro de revólver, no estilo Le Mans” (Alberto Pompeu, no livro Cascavel em Alta Velocidade https://bit.ly/3y98ooJ).
Ironicamente, o próprio Tamôio venceu aquela primeira corrida, sem os graves acidentes que o padre temia.
Essa primeira péssima impressão passada pelo padre Finatto em seu início de atividades em Cascavel era forte e negativa, mas foi atenuada pela energia com que ele destravou um dos mais tensos imbróglios correntes na comunidade católica.
Em 1953, nem todos concordaram com a decisão do padre Luiz Luíse de construir a nova Igreja no Patrimônio Novo, então desabitado, ao contrário do Patrimônio Velho, onde se encontrava a sede do distrito recentemente desmembrado de Foz do Iguaçu.
Luíse argumentava que as leis da Aeronáutica proibiam a construção de edifícios próximos a aeroportos.
Para esclarecer a questão formou-se uma comissão de líderes comunitários – Ernesto Farina, Adelino Cattani e Helberto Schwarz – para se dirigir ao prelado de Laranjeiras, dom Manoel Könner, que, tomando conhecimento dos prós e dos contras, determinou o novo templo no Patrimônio Novo, de acordo com planta do governo estadual.
Luíse então construiu um pavilhão provisório de madeira na quadra que receberia no futuro a Igreja Matriz, mas devido às divergências de opinião com os líderes da cidade foi mandado de volta ao Rio Grande do Sul em março de 1953 e não teve a satisfação de construir a nova Igreja.
Em seu lugar assumiu a Paróquia de Nossa Senhora Aparecida o padre Francisco Schlüter, substituído em julho por padre Guilherme Maria Heyer, que também não conseguiu pôr em prática o plano de construir a igreja nova. Nem os sucessores que vieram entre 1959 e 1963: padres Carlos Nitzko, Luiz Bumppe, José Arz, Santo Pelizzer e Angelo Casagrande.
A iniciativa sobre as obras da segunda igreja – antecessora da Catedral de Nossa Senhora Aparecida – ficou, portanto, travada por vários anos, apesar do rápido desenvolvimento da cidade.
Coube a Palmiro Finatto, então, a energia necessária para pôr um ponto final aos desentendimentos e abrir caminho definitivo à obra do novo templo.
O prédio rústico da primeira igreja Matriz foi substituído por um edifício construído de acordo com projeto de autoria do arquiteto italiano Bartolomeu Giavina-Bianchi.
A obra exigiu recursos no montante de 150 milhões de cruzeiros, arrecadados velozmente pelas conclamações do padre Palmiro Finatto.
“A nova Igreja Matriz será constituída de cinco partes, divididas em capela do Santo Sacramento, Batistério, Sacristia, Presbitério e Corpo da Igreja com capacidade para 3.500 pessoas sentadas e 1.500 em pé num vão livre de 150 metros quadrados. Com doze vitrais simples para iluminação natural e cinco entradas, sendo duas laterais numa área quadrada superior a 1.600 metros, será o maior templo do oeste paranaense”, registrou a revista Oeste.
A pedra fundamental foi plantada em 4 de outubro de 1964 e seria injusto não reconhecer o papel do padre Finatto nessa conquista. No entanto, ele não pôde comandar as obras, designado para novas missões na região.
Embora não tenha permanecido longo tempo em Cascavel, Finatto deixou impressões marcantes, mas não o bastante para ser lembrado com o nome de prédios ou vias públicas.
Sem se limitar à pregação na igreja, Finatto vivia encrencando com alguém, usando o rádio para defender o que julgava o “conhecimento verdadeiro”, atacando astrólogos, ciganos e vendedores de raízes medicinais.
Segundo registro do livro tombo da Paróquia Nossa Senhora Aparecida, a pedido de Finatto o delegado de polícia, coronel João Lapa, expulsou ciganos que passavam em Cascavel. O padre também não gostava de circos e outras novidades “que apareciam para perturbar e se aproveitar das pessoas menos esclarecidas”.
“Insistia na conscientização de seus fiéis, com as pregações e exemplos, mas notando que vacilavam, expulsava tudo que via ser ameaça. Não media palavras, corria com os espertos comerciantes como se fossem bandidos” (Florice Dias dos Reis).
O peso negativo da disputa com os automobilistas e outros atritos pesaram sobre o dado muito positivo de destravar as obras da igreja que foi o primeiro cartão postal da cidade.
Mas sua história estava longe de acabar. Quando Finatto foi transferido a Nova Aurora, em 1965, virou lenda ao aparecer nos mais diversos cantos da cidade e do interior montado em uma égua, de megafone em punho e fazendo ameaças aos pecadores.
Nunca foi o padre que esperava o fiel na igreja: ia em busca de crentes e descrentes, usando sua personalidade comunicativa e crítica como fez em Cascavel, com missas quase diárias exigindo que todos os fiéis fossem confessar pecados e perseguindo em casa quem faltasse às missas.
Em Nova Aurora se deu o milagre da conversão do padre Finatto de radical inimigo dos automobilistas em motorista, trocando as quatro patas da égua por quatro rodas. Só não mudou sua velha teimosia.
Ao adquirir uma pick-up Willys, Finatto se dirigiu ao interior e se deparou com a estrada, próxima a um banhado, alagada por acúmulo de águas da chuva. O padre foi aconselhado pelos moradores a evitar o atoleiro para não encalhar.
Finatto padre não se deu por achado, garantindo que a pick-up sempre daria conta de qualquer atoleiro. Enfiou o veículo na área de risco e não conseguiu atravessar. Foi providenciada uma junta de bois para puxar o veículo sem sucesso. A solução foi procurar o dono de um trator, que a duras penas resgatou a pick-up vitimada pela excessiva confiança do padre Finatto em seu veículo.
Conta-se em Nova Aurora que nessas jornadas motorizadas, quando o padre chegava perto das moradias começava a cantar “ôi, ôi, ôi, nós queremos boi”. Se de fato não levasse um boi, sempre levava alguma prenda de valor para apoiar os serviços religiosos.
Já mais moderado pelo passar dos anos, padre Finatto se sentiu satisfeito ao ser designado para dirigir a Paróquia Nossa Senhora de Lourdes, em Tupãssi, onde se tornaria um dos principais nomes da história local.
Tupãssi surgiu das atividades da Colonizadora Norte do Paraná, que plantou diversos núcleos urbanos no Estado. Seu rápido crescimento levou o lugar a se tornar distrito de Assis Chateaubriand em 1967.
O padre Finatto e outras lideranças locais conduziram uma bem-sucedida campanha pela emancipação, que culminou com o plebiscito em 1979 e a instalação do Município de Tupãssi em 1983.
Ao morrer, em 3 de julho de 1995, a comunidade de Tupãssi deu seu nome ao Hospital Municipal. Hoje não é a severidade nem as atitudes fanáticas do padre Finatto que permanecem na memória regional: prevaleceu o senso de comunidade.
O Município de Nova Aurora deu seu nome a um Cmei, que ao ser ampliado em 2020 passou a ser chamado de Super Creche pela população. Tupãssi, por sua vez, além do Hospital Municipal, emprestou seu nome a um refúgio ecológico, homenagem também prestada por uma escola municipal em Nova América da Colina.
Os ranchos da família Schiels/Elias ficavam na cabeceira do atual lago artificial. Os filhos Sebastião e Cassilda coletavam água na nascente que deu origem à Fonte dos Leões.
A família que chegava tinha outros objetivos, de acordo com Laurentina Lopes Schiels: “Criar nossos animais e cultivar alimentos para o nosso sustento. Quando sobrasse alguma coisa, iríamos negociar em Foz do Iguaçu”.
“O primeiro passo que demos foi requerer a terra junto ao governo. Ganhamos 10 alqueires, limpamos a área e iniciamos nossa primeira plantação de feijão e milho”.
A propriedade, entre 1922 e 1924, tinha ranchos muito humildes, de sapê. Eram dois, para moradia e paiol.
A família ocupou os dois lados do rio – os Schiels de um lado e os Elias do outro – e mais ranchos seriam construídos mais tarde, de acordo com as necessidades.
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