
Até 1950, já na altura dos 30 anos, Marins de Oliveira Belo era conhecido como um homem valente, sem medo de entrar na mata virgem, onde era fácil encontrar índios e posseiros prontos a defender suas terras. No entanto, essa valentia admirável, nos 30 anos seguintes, iria lhe valer a pecha de jagunço e pistoleiro.
Um de seus admiradores era o prefeito de Campo Mourão, Pedro Viriato Parigot de Souza Filho, que o recomendou para ser o mateiro de colonizadores paulistas interessados em ocupar terras devolutas. Marins teria que abrir caminho e expulsar os eventuais posseiros, se preciso à força.
Nascido em Clevelândia (PR) em 1916, Marins desde menino estava embrenhado nas matas do interior paranaense, aprofundando seu pioneirismo ao participar da abertura de estradas entre o Oeste e o Norte do Estado, como a ligação entre Campo Mourão e Londrina.
Em 1949 a família paulista Scarpari passou a disputar uma gleba devoluta com 1.200 alqueires para plantar café no recém-criado Município de Campo Mourão. É a Colônia Goioerê, autorizada no ano seguinte.
O agrimensor Ladislau Trauczinsky foi encarregado de fazer a demarcação do lote sob a proteção do mateiro Marins Belo.
Embora a história oficial de Goioerê o tenha apagado de seus registros, o proprietário da área, Carlos Scarpari, escreveu que no dia 23 de novembro de 1950, às 9h, na presença de Marins Belo e outros fundadores de Goioerê, então chamado acampamento Água Bela, foi plantada ali a primeira semente dos muitos cafezais que depois surgiriam na região.
A área foi visitada por grupos armados reivindicando a posse, mas Carlos Scarpari, com Marins Belo à frente de seus próprios homens armados, não permitiu aos invasores seguir em frente.
Em seguida a Polícia Militar foi acionada para dissolver os conflitos armados pela terra. Os chefes dos jagunços foram absorvidos pela força policial-militar e os homens desarmados se tornaram agricultores, mas alguns faziam jogo duplo, trabalhando na polícia em favor de grileiros.
“Sob o comando de Marins Belo e de outros famosos pistoleiros da região, foram desalojadas famílias inteiras de posseiros e assassinadas muitas pessoas, cujos corpos eram jogados no rio Piquiri” (Silvestre Duarte, https://shre.ink/jKD6).
Sempre com o cinturão de balas e revólveres à vista, ninguém estranhou quando Marins se mudou com a família para Cascavel em 1957, pois nessa cidade os homens habitualmente andavam armados para se defender no interior contra onças e cobras.
Mas Marins chegou se impondo. No Bar Estrela, da família Teixeira, que também era padaria, ele fez a atendente servir bebida a uma pessoa que Marins forçou a beber sob a ameaça de um revólver. “Depois o homem comprou um pão e ele [Marins] deu três tiros no pão”, lembrou a proprietária, Dalvina Teixeira.
Contratado em setembro de 1959 pelo Banco do Estado do Paraná como guardião, também foi designado pela Polícia Civil como “chefe dos inspetores de quarteirão” da 7ª SDP. Sua função no Banestado seria evitar o roubo de pinheiros nas terras do banco e “negociar” a retirada de posseiros.
Como funcionário do governo do Paraná, Marins Belo servia aos interesses do grupo Lupion, encastelado em Curitiba, que também tinha asseclas em Cascavel e recrutou Marins.
Nessa época, o agricultor Vitor Bartnik foi expulso de suas terras, junto ao atual centro de Cascavel, por jagunços ligados à Inspetoria de Terras comandados por Marins Belo. Logo depois Bartnik foi assassinado por “desconhecidos”.
Com o fim do predomínio de Lupion sobre o Paraná, partiu uma ordem de prisão emitida pelo governador Ney Braga contra Marins, mas ninguém teve coragem de ir lhe dar voz de prisão. O coronel João Lapa foi mandado a fazer a detenção pessoalmente.
Marins seguiu algemado para Curitiba, “porém nenhum processo contra ele foi formalizado e, em menos de trinta dias, o conhecido pistoleiro já havia sido contratado para chefiar um bando encarregado de vigiar as terras do Banco do Estado do Paraná (Banestado) na região de Cascavel” (Memórias de 1964 no Paraná, Milton Ivan Heller e Maria de Los Angeles G. Duarte).
Com o golpe civil-militar de 1º de abril de 1964, cooptado pelo governo, Marins Belo passou a servir como agente da ditadura. Conhecia a região palmo a palmo, ajudava a polícia a capturar foragidos e passou a servir de batedor para as operações de caça aos comunistas.
Mário de Oliveira, na época militante do PCB, lembrou que o fotógrafo João Zacarias, secretário do Partido, morava numa posse distante da cidade: “O barraco onde ele morava com a família às margens do Rio Melissa era de difícil acesso”.
Marins Belo saiu com policiais para prender Zacarias, mas naquele dia choveu muito e seu jipe atolou no barro a poucos metros do barraco. “Apenas a esposa e filhos menores de João Zacarias estavam em casa”, lembrou Mário.
“A esposa de João era uma cabocla decidida. Em desespero, mas sabendo o que fazia, ela retirou as crianças para fora e pôs fogo no barraco”. Ao chegar, o temido Marins só achou cinzas.
Em abril de 1969, no período mais severo da repressão política, Marins Belo certo dia desconfiou de um grupo de pessoas e seu faro acertou na mosca: eram guerrilheiros. Um dos “farejados” por Marins era o jornalista Aluízio Palmar.
“Alguns companheiros que estavam em Vera Cruz do Oeste se envolveram em litígios de terras na região de Matelândia, despertando a suspeita da polícia, e resolvemos promover a retirada do pessoal. Começamos a retirar alguns papéis que tínhamos guardado na casa de um companheiro em São Pedro – entre Cascavel e Toledo –, quando sofremos um acidente de carro”.
“Foi uma batidinha leve, mas juntou muita gente. Apareceu o Marins Belo, fiscal da Pinho & Terras, ele chamou alguns policiais que estavam nas imediações e começou a abrir as mochilas. Fui preso e começou a minha via-crúcis”.
Aluízio Palmar foi pendurado no pau-de-arara e submetido a torturas durante dois dias na delegacia de polícia de Cascavel, localizada onde hoje está o Centro Cultural Gilberto Mayer.
Para os vizinhos, porém, Marins era gentil e nada agressivo. Sua conduta era ditada por interesses em terras. Quando o jornalista Celso Sperança, vizinho de rua, esteve com mandado de prisão aberto, ele fez vistas grossas.
Outro vizinho, Benito Benítez, dono de um posto de lavagem de veículos, lembrou que Marins, embora andasse em uma caminhonete rural com jagunços dos quais só os codinomes eram revelados, como Cor-de-Rosa, Zé Grande e Papo Amarelo, não ameaçava ninguém. Sabia a quem abordar.
Para o automobilista e mecânico Alves Damian, Marins era o melhor cliente, com quem todos os dias tomava chimarrão, tradicional hábito sulino. “Ele andava sempre com uma japona, com dois revólveres na cinta e seguia os caminhos com o jipão dele”.
Nas famílias, quando as crianças teimavam em não obedecer, lembrou Damian, os pais diziam: “Vão dormir senão eu vou chamar o Véio Marins”. Era a encarnação do bicho-papão para crianças e adultos.
Uma imagem que nunca chegou a convencer uma pessoa que o conheceu muito bem: Orlando Ferreira, para quem Marins nunca foi um sujeito valente, pois até apanhava da esposa, Dalva, dona de uma casa de prostituição.
Já no fim da vida, quando sentiu incômodos urinários, Marins Belo foi se consultar com o médico Antonio Romero, que contou as impressões que teve dele para a revista Aldeia (https://shre.ink/juUa):
“Ele chegava no consultório de chapéu e paletó. Tinha problema na próstata. Então eu pedia licença e tirava o cinturão dele com os dois 38. Colocava os revólveres sobre a minha mesa. Eu fazia os exames imaginando que o homem estava desarmado. Na verdade ainda havia no bolso do paletó um 38 cano curto. Ele nunca ficava completamente desarmado, nem durante a consulta”.
Até a morte de Marins Belo virou lenda, como contou Carlos Umberto Tonini (Gazeta Alt, 25/5/2008). Certa vez, em um duelo a tiros, Marins teria recebido junto ao coração uma bala que os médicos preferiram não extrair para não precipitar sua morte.
Mais tarde, às vésperas do Natal de 1973, quando sofreu o último e repentino ataque cardíaco, apoiado a um poste, nos arredores da Rodoviária Velha, entre as ruas Rio Grande do Sul e Erechim, conta-se que a bala encalhada, por conta própria, escorregou para dentro do coração do pistoleiro, precipitando o óbito de quem havia sempre se protegido atrás das balas.
Se apenas em 1923 houve o contato entre Silvério e Elias para arrendar a Encruzilhada, fica a dúvida: o prefeito de Foz do Iguaçu, coronel Jorge Schimmelpfeng, estava fazendo uma profecia ao dizer à filha que naquele banhado iria crescer uma grande cidade, tinha planos para o local ou, bem-informado, sabia de um planejamento estadual nesse sentido?
Só era certo na época, segundo Sandálio dos Santos, que o governo federal pretendia construir um ramal telegráfico de Catanduvas a Porto Mendes. A Companhia Nuñez y Gibaja já possuía um ramal telefônico de Lopeí a Porto São Francisco para seu uso.
Os serviços foram iniciados, mas pela instabilidade nacional logo foram interrompidos. O Brasil começava a viver um estado de conflito entre o governo federal e a jovem oficialidade do Exército.
O tenentismo significava o desconforto da população com um governo incapaz de resolver seus problemas.
Por ausência de cartório local, Maria Francisca, filha de Laurentina e Ernesto, só foi registrada em 30 de maio de 1923, em ida a Guarapuava.
Em 29 de junho desse ano, aliás, nasceu Pedro Rego Filho, que em 1944 viria a ser a genro de Laurentina e Ernesto, casando-se com Maria Balbina.