
Obras religiosas são consideradas as mais demoradas da história mundial, com destaque para a Catedral de Colônia, na Alemanha, construída ao longo de 632 anos. O Teatro Municipal Sefrin Filho não chegou a tanto, mas foi uma obra ambiciosa, de alto custo, compartilhado entre o Município e o Estado.
As trocas de prefeitos e governadores, com retaliações partidárias ou restrições conjunturais e financeiras, geraram desentendimentos que arrastaram as obras no tempo. A contagem começa no início de 1977, quando o vereador Octacílio Ribeiro da Silva (1931–2001) propôs criar o grande Teatro Municipal para afirmar a força cultural da cidade.
Na época, a sociedade estava unida para superar o revés da geada de 1975, que arruinou o Paraná. Era fundamental deixar a memória da geada para trás retomando sua trajetória de desenvolvimento. O Teatro Municipal se enquadrava nesse contexto de superação, mas por ser proposta de um vereador da oposição (MDB) ao partido então no governo (Arena), ficou apenas como uma ideia solta no ar.
Com a vitória do prefeito Fidelcino Tolentino (PMDB) em 1982, a proposta voltou à cena, mas esbarrou na crise de um país corroído pela herança da ditadura, com descontrole da inflação, salto na dívida externa e a recessão que iniciava a chamada Década Perdida.
A proposta do Teatro Municipal nunca saiu dos planos, mas não virava obra. A ditadura se extinguiu em 1985, depois de arruinar a economia nacional, cuja crise se arrastaria ainda por vários anos, justificando os cortes de verbas para obras caras.
É nesse quadro se deu a eleição do prefeito Salazar Barreiros, em 1988. O país chegava aos anos 1990 em cenário de estagflação, instabilidade e inflação descontrolada.
Não havia recursos para o Teatro Municipal, mas com a agropecuária em expansão, apesar do cenário nacional adverso, em 1991 a Prefeitura promoveu um concurso público nacional para a escolha do anteprojeto do Teatro Municipal de Cascavel.
O vencedor foi o arquiteto Victor Hugo Bertolucci. Primoroso, prevendo obras de 2.545,43 m², o projeto teve consultoria do Instituto Brasileiro de Artes Cênicas para a Caixa Cênica, fosso da Orquestra e plateia principal.
Previsto para a Rua Rio de Janeiro, esquina com General Osório, ao lado do Centro Cultural Gilberto Mayer, o projeto foi amplamente exibido na mídia e já se dava a obra como favas contadas.
Por ser uma obra cara, exigindo tempo até ser concluída, a Prefeitura e o Estado tiraram um coelho da cartola: as obras rápidas do Teatro Barracão, inaugurado nos arredores do lago em março de 1990.
Com o projeto do Teatro Municipal deixado de lado à medida em que peças teatrais e espetáculos tinham por palco o Teatro Barracão, o mandato de Barreiros expirou em 1992, ano em que o ex-prefeito Fidelcino Tolentino se reelegeu prometendo que o TM viria para ser um dos melhores do país.
Por essa época o empresariado já reclamava um Centro de Eventos. Sob pressão, os planejadores municipais decidiram casar esse projeto com o do teatro, o que levaria a uma obra gigantesca com 5.923,58 m².
Agora transformado em caríssimo sonho faraônico, o TM continuava restrito à propaganda, mas ocorreu algo inesperado: a Prefeitura de Toledo anunciou com estardalhaço o projeto de um teatro que viria a ser “o segundo mais importante do Paraná”.
Salazar Barreiros volta à Prefeitura em 1997 sob a pressão de Toledo construindo rapidamente seu Teatro Municipal, em 1998 com a obra já quase pronta. Os meios artísticos de Cascavel exigiam de Barreiros o início das obras do TM de Cascavel, sempre adiadas, arrastando-se por uma década sem que o primeiro tijolo fosse assentado.
Em resposta, Barreiros firmou convênio com o governo do Estado com a intenção de fazer o projeto deslanchar rapidamente, mas só às vésperas do ano 2000 a obra foi licitada, e mesmo assim limitada apenas à fundação e estrutura.
A promessa se renovava com a entrada em cena do idolatrado arquiteto Jaime Lerner, ex-prefeito de Curitiba e governador cujo nome era na época a garantia de obra feita e relevante.
A fama de Lerner, porém, foi arranhada em Cascavel. As obras começaram em 1999, mas a construtora abandonou os trabalhos porque os recursos prometidos pelo Estado não chegaram.
Na imprensa, o abandonado canteiro de obras era apresentado como “fumódromo de crack”. Enquanto isso, o belo Teatro Municipal de Toledo recebia completava o acabamento e foi inaugurado em novembro de 1999.
Em 2001, cheio de ideias novas e uma antiga – a de finalmente executar o Teatro Municipal – o novo prefeito, Edgar Bueno, renovou o frustrado contrato com o Estado para construir o TM. O prefeito era novo, mas o governador era o mesmo Jaime Lerner e deu no que deu: o Estado negando verbas e a obra parada.
Não por isso, mas com profundo desgosto, nesse mesmo ano morreu o autor da proposta, o advogado Octacílio Ribeiro. Em 2003 entrou o novo governador, Roberto Requião, que no auge de sua arrogância desprezava a cultura como “coisa de afeminado”.
O projeto faraônico de juntar o Teatro Municipal e o Centro de Eventos então foi trocado por uma obra apresentada como provisória: o Anfiteatro Municipal Emir Sfair, inaugurado em 14 de junho de 2003. “Dá para quebrar o galho”, justificou o prefeito Edgar Bueno
Bueno deu ao Anfiteatro Emir Sfair o status de Teatro Municipal com a lei 3.640/03. Mas a cobrança dos artistas não parou e em 2004, ano eleitoral, Bueno enviou ofício ao Estado pedindo R$ 6 milhões para o TM, recursos que a Secretaria de Estado da Cultura negou.
Tentando uma saída, o secretário municipal da Cultura, Eduardo Marassi, sugeriu que o Teatro Municipal fosse construído mediante parceria entre a Prefeitura e a iniciativa privada.
Não prosperou. As famílias mais ricas de Cascavel não conseguiram “revitalizar” sequer o Autódromo, cuja área doaram ao Município e na qual a Prefeitura gastou recursos equivalentes aos previstos para o TM.
Em 2006, por magia de ano eleitoral, o governador Requião mudou de ideia e liberou verba para a parte civil do TM, prometendo que o programa ParanaCidade iria promover licitação para a caixa cênica, mobiliário e equipamentos cenotécnicos.
A essa altura, os velhos projetos do início da década já estavam defasados. Aí, dê-lhe aditivo, pactuado entre o prefeito Bueno e o governador Requião em 18 de agosto de 2009.
O início da obra se deu com o projeto arquitetônico novo, mas como os projetos complementares estavam defasados houve incongruências a corrigir. Com as alterações, o Teatro Municipal teria 7.249,61 m² e cinco pavimentos, agregando um terceiro balcão, manobra para elevar a capacidade a 1.021 espectadores.
Assim o Teatro Municipal de Cascavel passaria a ser o segundo mais importante do Paraná, desbancando o de Toledo. À altura das expectativas, no térreo seria instalado o palco, fosso para orquestra, camarins, salas de administração e ensaio, marcenaria, copa e depósito.
No primeiro pavimento ficaria a plateia, hall, sala de exposições, bilheteria, bar, elevadores, sala de eventos, sala de som e iluminação, além de depósito. No segundo, balcão, auditórios e tribuna. Um terceiro balcão no terceiro andar com salas de aula e, no quarto, piso, salão de eventos e casa de máquinas.
Projetadas ainda galeria de arte, dois auditórios com aproximadamente 180 lugares cada um e salas de aula para música, dança, teatro e artes plásticas, era um projeto de tirar o fôlego dos críticos. Mas a essa altura, o TM, que deveria ser construído principalmente com os recursos do Estado, passou a ser financiado unicamente pelo Município.
Só na gestão do prefeito Lísias Tomé (2005–2008) o Governo do Estado liberou verba para a execução da parte civil do TM. A licitação se fez, mas os projetos complementares, datados de 1991, não atendiam às normas vigentes no terceiro milênio.
Mais correções até finalmente o Teatro Municipal ser inaugurado, em 10 de abril de 2015, com uma área construída de 8.533,82 m² e cinco pavimentos servidos por elevadores.
Ao fim das pendengas, Cascavel passou a ter o Teatro Municipal Sefrin Filho como o segundo mais importante do Estado e o Teatro Emir Sfair como a sala de espetáculos, conferências e cursos mais utilizada na região. Já o Teatro Barracão foi deixado a esmo, até a ruína e a demolição, em 2011.
Aproveitando trechos de picadões da companhia Braviaco até os anos 1950 o roteiro entre Catanduvas e Foz do Iguaçu se manteve o mesmo, com poucas modificações. Foi nessa nota que se destacou um ponto no divisor de águas, local usado para acampar.
“Daí, então, tomou-se o conhecido lugar como Encruzilhada, nome esse que perdurou por muitos anos e foi como se designava o povoado nascente”, segundo Sandálio dos Santos.
Enquanto ainda nem se cogitava que um dia a cidade de Cascavel iria florescer naquele “lugar propício”, na avaliação da companhia Braviaco, em Laranjeiras do Sul acontecia o casamento de Ernesto de Oliveira Schiels com Laurentina Lopes da Silva, em 24 de julho de 1920.
O cunhado de Ernesto, Antônio José Elias, por sua vez já casado com a meia-irmã de Ernesto, Constantina, iniciava tratativas com a família Camargo para a aquisição de terras junto ao antigo pouso desativado da Companhia Domingo Barthe no Oeste: o Cascavel Velho.
Por esse tempo, em 10 de julho de 1921, com a família ainda em Laranjeiras, nascia o primeiro filho de Ernesto e Laurentina: Joaquim, que recebeu o nome do avô materno e passaria a infância e a juventude em Cascavel, sempre ajudando os pais em seus afazeres.
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