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As vitórias e tragédias de uma família

O sobrenome Boaretto está ligado a avanços que fizeram de Cascavel uma das principais cidades do país   

Tissiane Merlak
Por: Tissiane Merlak
02/08/2026 às 09h40
As vitórias e tragédias de uma família
A família Boaretto: O pai Neto, o brasão do touro, os filhos Pedro Luiz e José Vidal

A origem da família é a mesma de outras que fizeram a força do Sul brasileiro vindas do Vêneto italiano, região tomada por Napoleão Bonaparte que no início do século XIX esteve sob o controle do Império Austríaco. 

Integrada ao recém-criado Reino da Itália em 1866, a economia era agrícola, mas marcada negativamente por latifúndios e pesados impostos cobrados pelo novo Estado italiano. 

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Com enchentes frequentes do Rio Pó, más colheitas e doenças, a população submetida à pobreza foi atraída pela propaganda que prometia um novo mundo nas Américas. 

Pietro Boaretto (1860–1941) nasce nesse contexto, em Maserà di Padova. O sobrenome da família vem de suas origens rurais pecuárias, assinalada pelo touro presente no brasão da família. Com 27 anos, Pietro se casou com Carolina Betin e com o aumento da família se viu na contingência de migrar para o Brasil. 

Seu filho Giovanni Boaretto (1890–1921), o João, com a família já no Brasil, casa-se com Ana Favretto e seu filho Pedro Boaretto Neto nasce em 12 de maio de 1917, em Sananduva (RS). 

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Vida de trabalho intenso

Neto não teria um início de vida fácil: o pai morreu quando ele estava com apenas quatro anos de idade. Passa a infância na terra natal e ainda bem jovem, transferindo-se para Caxias do Sul, foi trabalhar na Metalúrgica Abramo Eberle, que produzia armas para o Exército, como espadas e facas.

A vida já melhora em Tangará (SC). Com algum capital, Neto desenvolve projetos madeireiro e agropecuário e participa da constituição da Indústria de Madeira Rio Bonito (Imaribo) em 1943.

Casa-se com Maria Dulce Pizzani e em 1949 nasce o filho Pedro Luiz Boaretto. Foi como diretor da Imaribo, em sociedade com a família Pizzani, que Pedro Neto partiu de Tangará ao Oeste do Paraná, abrindo instalações da madeireira na Colônia Melissa (Fazenda Boi Picuá).

Em 1960, ano em que surgiu no cenário cascavelense uma de suas mais significativas entidades – a Acic –, Pedro Neto trouxe para Cascavel em definitivo a esposa Dulce e os filhos Pedro Luiz, 11 anos, e José Vidal, 5. 

Pedro Neto foi um dos fundadores do Rotary Clube de Cascavel, que presidiu em duas gestões. Na ditadura, percebendo a cidade crescendo sem resolver seus graves problemas sociais, Neto em 1966 iniciou ações para melhorar a vida dos mais carentes, que cresciam sem ter ao menos uma certidão de nascimento. 

Assim, no vácuo da paralisia ditatorial, Pedro Boaretto Neto passou a canalizar as ações dos clubes de serviço na orientação dos moradores da periferia pobre sobre higiene e saúde pública. 

Formando os filhos

Sentindo os sinais de que a exploração florestal daria lugar à atividade agropecuária, Neto adquiriu terras para desenvolver projetos nesse campo, afastando-se da diretoria da Imaribo. 

Nessa atividade, contribuiu para fundação do Sindicato Rural de Cascavel. Foi ainda um dos fundadores da Coopavel, da qual foi diretor-secretário em duas gestões consecutivas (1974–1978).

Desde o início dos anos 1970 os filhos também passam a escrever a história da família. Pedrinho cursa Engenharia em Curitiba, onde faz estágio na Sociedade Meridional de Construções entre 1970 e 1973, seguindo para experiências também na Fundição Muller, que deu origem ao famoso shopping center, e em Porto Alegre (RS) na Empresa Brasileira de Fundações.

Pedro Luiz Boaretto se formou em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Paraná em 1974 e no ano seguinte, ao retornar a Cascavel, começa a mexer na paisagem urbana da cidade como diretor técnico da Festugato Pavimentações e Construções (Fepaco). 

Pedro se casa ainda em 1975 com Elizabeth Kovara e em 1977 funda a Village Construções. A família se destaca ainda mais quando o prefeito Fidelcino Tolentino chama Pedro Luiz para seu secretariado no início de 1983. 

A primeira tragédia, entretanto, vem nesse mesmo ano: Pedro Neto e a esposa Maria Dulce morrem em acidente rodoviário nas proximidades de Irati quando retornavam de Curitiba, em 25 de abril. 

Para homenageá-lo, seu nome foi dado ao Colégio Polivalente, futuro Centro Estadual de Educação Profissional Pedro Boaretto Neto.

Irmãos em ação

Pedro Luiz Boaretto começa em 1988 a se destacar junto à diretoria da Acic e tudo que faz vira notícia. Preocupa-o que mesmo já uma das mais expressivas forças econômicas, a construção civil era uma atividade desorganizada, com atraso empresarial e até ilegalidades. 

Nesse contexto, em 1989, associado ao irmão José Vidal Boaretto e ao empresário Paulo Carlesso, Pedro Luiz funda a Imobiliária Cidade. É o envolvimento com a construção civil que leva José Vidal Boaretto em 1996 a assumir a presidência do Sinduscon Paraná Oeste com o desafio de dinamizar o setor em um período de grande estagnação econômica no país.

Com a redemocratização do país, Pedro Luiz também inicia atividade política, mas percebe que não é bem a sua praia. Era um nome em quem muitos apostavam como futuro prefeito de Cascavel, mas no embate político com o advogado Salazar Barreiros, da Sociedade Rural, perdeu a indicação do PMDB para concorrer à Prefeitura nas eleições de 1996.

Volta se concentrar nas atividades empresariais e em 1997 inicia debates em torno do tema “Repensando o Desenvolvimento Econômico de Cascavel”, que resulta na formação do grupo Expande (mais tarde, Pacto de Cascavel), com a participação da Sociedade Rural.

Nesse ambiente de debates e projetos de desenvolvimento, Pedro Luiz Boaretto assume a Presidência da Acic em 27 de junho de 1997. A essa altura, o Expande já conta com 106 pessoas, integrantes de 66 entidades organizadas. 

O Expande, motor social

Esse movimento foi um divisor de águas entre as atitudes anteriores da Acic, de protestar, propor e sugerir, para também pensar e criar as fórmulas para o desenvolvimento econômico e social da comunidade.

O Expande, uma espécie de “pai” do atual Codesc (https://x.gd/4Ocao), foi lançado em 14 de outubro de 1997 na Unioeste. Abrindo espaço à participação de pessoas físicas, entidades, órgãos públicos e privados, o Expande propunha um trabalho conjunto de todos os segmentos sociais, o que exigia caráter suprapartidário. 

Coordenado pelo Sebrae, o Expande legou à Acic a bem-sucedida prática de criar câmaras setoriais para os diversos segmentos da economia e fóruns de discussão sobre uma infinidade de temas de interesse da comunidade e não apenas do empresariado.

Criando um departamento de apoio ao comércio exterior, Pedro Luiz promoveu uma viagem à Alemanha com a delegação da Fundação Empreender (SC), para troca de experiências e conhecer o modelo empresarial da região da Alta Baviera.

A partir daí a Acic se tornou palco de memoráveis debates em torno da identidade econômica da região, levantando grandes bandeiras, como o Aeroporto Regional, o Porto Seco, melhoria e duplicação de rodovias, obras dos contornos da cidade e acesso às BRs e formação da Unioeste.

Atividades interrompidas

Pedro Luiz Boaretto se empenhava também na viabilização do projeto de um gasododuto ligando Salta (Argentina) ao Paraná e em 18 de junho de 1998 foi reeleito para a Presidência da Acic e em setembro desse mesmo ano assume a função de conselheiro da Federação das Associações Comerciais e Industriais do Paraná (Faciap). 

Não poderia ir mais além, entretanto: a morte o surpreendeu em um acidente em 5 de dezembro, perto de Irati e de onde os pais haviam morrido em 1983. 

Era o fim das especulações de que se preparava para ser candidato à Prefeitura em 2000. As atividades destacadas da família, porém, não cessam. Continuarão por meio do irmão mais novo de Pedro Luiz: José Vidal Boaretto.

Vidal foi um dos idealizadores do Projeto Construindo o Saber, para qualificar e garantir emprego à mão de obra. “O trabalhador da primeira etapa ficava ocioso na segunda e assim por diante. Analisando isso, surgiu a ideia de formar profissionais multifuncionais. Com isso, as quatro frentes de trabalho, do servente, oficial, e meio oficial e ao mestre de obras, ganharam pessoas qualificadas. Isso deu um impulso na construção civil”.

Essa conquista provavelmente se atrasaria por mais tempo se Vidal Boaretto morresse no acidente em que perdeu os pais, em 1983, pois ele também se feriu na ocasião.

A primeira família: A santa na Encruzilhada  

 A cidade de Cascavel começou a se formar em 1930, mas seu iniciador, José Silvério de Oliveira, ainda em 1923 travou seu primeiro contato memorável com o lugar, para o qual viria a iniciar uma nova história.

“De passagem pela encruzilhada, em uma de suas numerosas jornadas pela região – é safrista, criador, comerciante e empreiteiro, atividade que lhe dá a condição de tropeiro e o leva com os parentes a demoradas andanças pelas áreas das empresas argentinas –, o patriarca encontra-se com Antônio José Elias e descobre próxima à Encruzilhada a imagem de uma santa” (https://bit.ly/3yMOEWz).

Essa declaração deu origem ao livro “Cascavel: Uma Santa na Encruzilhada” (https://x.gd/y8rGl). 

Após o contato com Elias, alguns parentes de Silvério começaram a plantar e criar suínos por ali, mas ainda sem fixar moradia.

Era o safrismo: a combinação entre a produção de milho e a criação de suínos (https://bit.ly/3C8wFNt). O regime de moradia não era fixo, baseado em acampamentos, de acordo ainda com as regras impostas aos mensus na coleta de erva-mate. 

Laurentina soube que mais gente começava a chegar e a se fixar na região, como alguns que “se instalaram lá pelas bandas do Guarujá, onde montaram até uma mercearia”.

O modo de vida sertanejo dos pioneiros, com os dias se arrastando no duro trabalho da roça, mas calmos, logo foi drasticamente alterado pelo medo e a insegurança alimentados pela desinformação sobre a caótica situação do país.

Laurentina, a primeira moradora de Cascavel, aos 90 anos CRÉDITO: Jackson Piaia

 

 

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Alceu Sperança
Jornalista, escritor e historiador.
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