
“Não podemos esquecer que, certa vez, o Paraguai decidiu invadir o Brasil”, disse o presidente Lula da Silva em mais uma de suas habituais frases de impacto, tocando em um assunto que só deveria causar vergonha ao Brasil, pois foi um erro brasileiro que forçou a decisão guarani.
O início da pendenga está em 1816, com a primeira decisão: ordem do príncipe João VI para tomar a Banda Oriental, que virou o extremo-sul do Brasil com o nome de “Província Cisplatina”. Ao conquistar a independência no curso da guerra travada entre 1825 e 1828 ela assumiu o nome de Uruguai.
Em meio a uma guerra civil entre 1839 e 1851, o Uruguai se tornou alvo da cobiça do ditador argentino Juan Rosas (1793–1877), que decidiu tomar o território sem levar em conta que os estancieiros gaúchos haviam estabelecido uma ampla rede de poder e negócios na região.
Com interesses contrariados pela eleição de Manuel Oribe no Uruguai, aliado ao argentino Rosas, o Brasil articulou rapidamente uma intervenção militar na região: aliou-se a Frutuoso Rivera (Partido Colorado) no Uruguai para derrotar Oribe e ao general argentino Justo José de Urquiza, governador de Entre-Rios, para derrotar Rosas.
Celebrado em maio de 1851 um acordo entre o Império brasileiro e Justo Urquiza, este liderou “um exército de cerca de 20 mil homens e recebeu a ajuda de um corpo de exército brasileiro, 4.000 soldados de elite, sob o comando do general Manoel Marques de Souza [depois Conde de Porto Alegre]” (Pedro Calmon, História da Civilização Brasileira).
Rosas, em retaliação, declarou guerra ao Brasil em 18 de agosto de 1851. A Guerra do Prata começa de fato com o Combate de Tonelero, em dezembro de 1851. Em 5 de janeiro de 1852 o Grande Exército Aliado (Uruguai, Brasil, Entre-Rios e Corrientes) começa a marcha rumo a Buenos Aires, chegando a 2 de fevereiro.
No dia seguinte, a batalha de Monte Caseros vai assinalar a vitória das forças aliadas. Vencido, Rosas comentou: “Não foi o povo [argentino] que me derrubou. Foram os macacos, os brasileiros”. Veio daí o estúpido insulto, hoje limitado ao futebol.
Poderia ter ficado nisso, mas se deu que em 1864, voltando ao poder no Brasil, os liberais decidiram promover uma ruidosa intervenção no Uruguai, onde Atanasio Cruz Aguirre (1801–1875) ameaçava interesses de brasileiros que viviam na região.
O governo imperial, então, apresenta seu ultimato ao governo do Uruguai: fixa o prazo de seis dias para Aguirre atender às exigências brasileiras, sob pena de intervenção militar para garantir os direitos dos súditos do Império no Uruguai.
O Paraguai, pelo ditador Solano López, no final de agosto de 1864, avisou o Brasil de que não iria se “conservar indiferente” frente a uma eventual invasão do Uruguai, “pois ela destrói o equilíbrio político no Prata”.
Essa notificação foi o início propriamente dito da Guerra do Paraguai, porque o Brasil ignorou o aviso de López e aí se deu o caso mencionado por Lula: a decisão paraguaia de ocupar o Forte de Coimbra, no MT.
Sem ter forças armadas à altura, um país com fronteiras imensas não poderia declarar guerras, mas o Império decidiu contratar a Tropa Mercenária no Norte da Alemanha, com 1.800 homens, dentre eles 80 oficiais, pagos em moedas de cobre de 40 réis (as chamadas patacas).
Eles eram chamados de brummers (ranzinzas, encrenqueiros). Quando foram desmobilizados, muitos receberam o soldo em terras, inclusive áreas ainda ocupadas por índios.
Desorganizados e rebeldes (daí o apelido pejorativo), nem todos os brummers chegaram realmente a combater, mas vários deles, após terminado o contrato com o Império, ao receber terras como pagamento alternativo, fixaram-se no Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, contribuindo para a organização e desenvolvimento da economia sulina.
O que veio com esse exército internacionalizado foram anos de combates cujos terríveis resultados apresentaram a liquidação do povo paraguaio e o enfraquecimento do império brasileiro.
Lula tem razão em supor que o Brasil precisa se fortalecer no seu Oeste, sobretudo na região amazônica, mas não por causa de uma eventual “decisão” do Paraguai de invadir o Brasil. Os invasores, no mundo de hoje, são outros. Ficam no hemisfério Norte.
Em última análise, quem venceu a Guerra do Paraguai foram só a Argentina e o Uruguai, pois o Império do Brasil se arruinou ao dizimar o povo paraguaio em uma guerra na qual não ganhou nada, a não ser o começo da monstruosa dívida que até hoje inferniza o país, na altura dos 9 trilhões de reais.
O Império do Brasil perdeu tudo ao morrer à míngua em 1889. O Paraguai teve a ótima compensação de ganhar o acesso ao mar, via Porto de Paranaguá, conquistando todo o corredor brasileiro da BR-277, mas do império brasileiro só restaram vergonha e dívida. López avisou.
Na primeira metade da década de 1920 o modo de vida sertanejo dos pioneiros, com os dias se arrastando no duro trabalho da roça, mas calmos, logo foi drasticamente alterado pelo medo e a insegurança alimentados pela desinformação sobre a caótica situação do país.
O que se espalhava pelo interior era a rebelião de jovens militares contra o governo do presidente Artur Bernardes, cujo ato mais ousado se deu em 5 de julho de 1924 (https://bit.ly/3dtN6to).
Nessa ocasião, para relembrar o episódio Revolta dos 18 do Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro (https://bit.ly/3b492KW), uma ousada ação dos militares rebeldes toma São Paulo e leva o presidente a um criminoso ato: usar as forças armadas para bombardear a capital paulista.
As forças leais ao governo retomaram São Paulo, mas a revolução não cessou: os revolucionários seguiram o rumo do Mato Grosso e logo ocuparam o Oeste paranaense à espera das forças rebeldes do Sul com a qual contavam para prosseguir o golpe contra Bernardes.
