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A estranha história do prefeito chantageado

Prisão de jornalista seria uma armadilha para um flagrante de extorsão, mas o script tinha falhas 

Alceu Sperança
Por: Alceu Sperança
23/08/2026 às 09h09
A estranha história do prefeito chantageado
O jornalista Júlio Cesar Fernandes foi o único a aparecer. Toninho Magal não se deixou fotografar e a garota estava protegida por restrição legal 

Na manhã de 20 de janeiro de 2000, o colunista social Antônio Mendes de Almeida, o Toninho Magal, apresentou ao secretário municipal de Comunicação de Cascavel, jornalista Júlio César Fernandes (1957–2020), um folheto impresso contendo um texto ofensivo ao prefeito Salazar Barreiros, nessa época em férias.

O panfleto de difamação seria espalhado como se fosse conteúdo jornalístico, relatando denúncias de que o prefeito empregava parentes na Prefeitura e supostas irregularidades ocorridas em uma instituição para recuperação de menores infratores coordenada pela esposa do prefeito, Idalina Barreiros.

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Magal contou ao secretário Fernandes que o texto, um apanhado de denúncias disparadas contra o prefeito Salazar Barreiros por seus adversários políticos, estava previsto para ser espalhado naquela noite, durante jogos no Estádio Olímpico, e depois, durante o Show Rural Coopavel, no mês seguinte.

Seriam 50 mil folhetos, pelos quais Magal alegou que receberia R$ 50 mil de um grupo político adversário de Barreiros. Disse que se recebesse do prefeito o mesmo valor de R$ 50 mil apontaria quem o contratou e não faria a distribuição dos folhetos.

Cotas combinadas

Magal ignorava que era uma armadilha montada pela equipe do prefeito Salazar Barreiros. A cena foi gravada por uma câmera escondida no compartimento de um aparelho de ar-condicionado. 

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Nela, enquanto Magal apresentava sua suposta chantagem, o secretário Fernandes fingiu aceitar o compromisso de pagar R$ 50 mil parcelados, com R$ 5 mil em espécie imediatamente, outra parcela de R$ 10 mil a ser paga em seguida e o restante nas próximas semanas.

Ao sair da sala, Magal foi preso em flagrante pelo Serviço Reservado da Polícia Militar. O pacote de dinheiro seria a prova da extorsão, detalhada pela gravação em vídeo. Como em outros casos semelhantes, a fita teria que ser periciada e o áudio depurado em equipamento específico.

Frente ao risco de cumprir uma pena por extorsão entre de 4 e 10 anos de reclusão, Magal reagiu agressivamente: “Foi uma armação. Eles é que mandaram me chamar na Prefeitura para fazer um acerto para não divulgar os fatos, que são verdadeiros”, alegou o acusado ao jornal Folha de Londrina.

Escapou fácil 

Ainda preso, em 24 de janeiro, Magal reafirmou que a Prefeitura lhe ofereceu dinheiro para não divulgar o panfleto. A gravação em filme apenas o mostrava recebendo o pagamento de verba publicitária para sua revista. 

A sequência de diálogos em que ele aparece como achacador teria sido um roteiro montado pela Prefeitura para incriminá-lo. Isso pôs em dúvida a denúncia que levou à sua detenção.

Como a cena foi gravada com a clara intenção de prender Magal, seu advogado, Paulo Milanesi, não teve muita dificuldade para obter a liberação do jornalista. Não ficou bem esclarecido em troca do que, afinal, o dinheiro foi oferecido e aceito por Magal. 

Com isso, foi solto já no dia 25 de janeiro, mas o episódio ainda teve um desdobramento: de volta das férias o prefeito Salazar Barreiros acusou o deputado Edgar Bueno de tramar a extorsão. 

Se tramou, deu-se bem: nas eleições de outubro seguinte, Bueno se elegeu para a Prefeitura com uma votação arrasadora: 78.869 votos contra 37.404 do também deputado Tiago de Amorim Novaes (1959–2001), apoiado por Salazar. 

A menina esfaqueadora

Na próxima vez em que Magal foi vítima de um cenário supostamente armado para prejudicá-lo ele não se saiu tão bem. Na segunda-feira, 25 de setembro de 2017, uma garota de 14 anos o esfaqueou na garganta, no interior de seu automóvel. 

Todo ensanguentado, já na altura dos 56 anos, ele conseguiu dirigir até um hospital, onde foi atendido quase à morte, com uma artéria rompida e cortes no braço esquerdo e mão direita.

Confuso, Magal não conseguiu explicar o que aconteceu. Suspeitou-se que a garota fizesse parte de um esquema de achaque, mas com as alegações contraditórias o caso se limitou a especulações.       

Um mês antes, Magal teve o carro parado em uma blitz policial que ao conferir os documentos constatou estarem irregulares. Nessa ocasião ele tentou fugir, mas a polícia o pegou. Agora o carro estava manchado de sangue. 

No hospital, ao sair do estado grave, não conseguiu expor de forma coerente como se deu a tentativa de homicídio de que foi vítima. A garota agressora deu sua versão, mas a Justiça não a divulgou. Supõe-se que alegou defesa de assédio. A armadilha da Prefeitura foi menos dolorida e mais fácil de explicar.

A primeira família: Revolução e incêndios 

Certo da iminente vitória dos governistas, Antônio José Elias não quis abandonar a lavoura nem os animais de criação, cujo rebanho aumentava no chamado Cascavel Velho.

No início de agosto de 1924, porém, as forças leais ao governo foram derrotadas no Rio Paraná e Elias logo foi surpreendido pela coluna revolucionária que veio estabelecer seu QG de operações justamente em sua propriedade.

Com a vanguarda legalista surpreendida em Guaíra, a ocupação do Oeste foi rápida. O governo respondeu enviando a Guarapuava o Comando Geral das Forças Legais, cujo comandante era o então general Cândido Mariano da Silva Rondon.

Além de Antônio José Elias, também viviam no Cascavel Velho seu irmão Francisco Elias, Ernesto Schiels, cunhado de Elias; e o ainda jovem João Maria Elias Diogo, que chegou com a caravana da família no dia de seu aniversário, em 1922.

Os colonos que já haviam se fixado ao redor da Encruzilhada fugiram e as informações sobre essas famílias se perderam, somente restando os familiares de Elias. 

Finda a luta, segundo o relato de Sandálio dos Santos, “viemos encontrar pelas margens da estrada alguns sertanejos que ficaram na mais completa penúria, mas trabalhando sempre”. 

“De muitos lhes foram incendiadas as propriedades, como aconteceu a Alípio de Souza Leal e à vila que constituía a administração de Central Barthe”.

 

Alípio de Souza Leal teve a casa queimada na Revolução de 1924

 

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Jornalista, escritor e historiador.
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