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Café: uma história de tragédia e riqueza

O Paraná liderava a produção brasileira quando a grande geada de 1975 liquidou a cultura e pareceu ter liquidado o agro estadual

15/02/2026 às 09h43
Por: Tissiane Merlak Fonte: Alceu Sperança
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Mulheres no cafezal: desde os tempos pioneiros, excelente combinação
Mulheres no cafezal: desde os tempos pioneiros, excelente combinação

A geada sempre veio mais forte em alguns anos e em outros chegava branda, quase indolor. Desde que nos anos 1920 o paulista Joaquim Guilherindo de Carvalho começou a plantar café no Noroeste paranaense, a rubiácea rendia bem, mas ele não plantava só café.

Sabia que não lhe bastava ter a maravilhosa terra roxa nem a oferta de preços favoráveis, pois até a II Guerra sempre faltavam infraestrutura, mão de obra disponível e meios para pôr o produto ao alcance dos mercados nacional e externo.

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Em 1920 o Estado possuía, contadas, escassas 1.215 posses cafeeiras, mas ocorreu uma explosão produtiva e em 1959 já tirava de São Paulo o primeiro lugar nacional na oferta de café. Nessa época, no interior de Cascavel, todos queriam plantar café, mas as geadas já causavam cabelos brancos nos produtores.

O imigrante ucraniano Alexandre Kachuba transportava mercadorias com sua carroça na região da atual Nova Aurora quando, a chorar, uma viúva o abordou dizendo que o marido cafeicultor foi assassinado e ela não sabia como trabalhar na terra

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Kachuba sabia – a agropecuária era só uma de suas várias atividades – e durante seis anos colheu boas safras, até que no fim da década uma geada além das habituais lhe torrou irremediavelmente 2,5 mil pés de café.

Cafelândia sem café

Nos anos seguintes, o acidente foi ignorado. A intensa propaganda das colonizadoras anunciava as terras do Oeste como as mais propícias para o café – por ser terra roxa. Mas nem em letras miúdas dos contratos mencionavam a possibilidade de geadas tão fortes quanto a que destruiu a lavoura de Kachuba.

Nos tempos da erva-mate se formou na trilha que resultaria na futura PR-180 uma pequena comunidade formada por índios e caboclos que recebeu o nome de Caixão, remontando a um grande ataúde que os pioneiros ao chegar encontraram no local.  

Em 1951 começaram a chegar famílias convencidas pela propaganda de que a região era ideal para o plantio de café e mudaram o nome do lugar para Cafelândia.

A terra era de fato ótima e verdadeiras as notícias de volumosas safras colhidas nas regiões Norte, Norte novo e Norte novíssimo, onde dezenas de cidades brotavam da noite para o dia e o café fazia a fortuna de muita gente, mas Cafelândia nunca se destacou por essa produção.

A criação do Instituto Brasileiro do Café (IBC) em 1952 pelo governo Vargas favoreceu a expansão da cultura e a transformação do Paraná no maior Estado produtor brasileiro.

Paralelo à madeira, foi o café um dos grandes responsáveis pela abertura de estradas, desbravamento de novas fronteiras agrícolas, construção de pontes, estradas e igrejas no interior do Município de Cascavel.

O banco do café

Historicamente, a cultura da rubiácea foi o ciclo intermediário entre a fase inicial e a explosão do ciclo madeireiro. Nesse sentido, foi um dos “pais” da industrialização paranaense.

Foi, assim, devido também ao café e não somente à madeira que surgiu em Cascavel o Banco Agrícola Vale do Rio Piquiri (Banquiri), dirigido por Alceu Barroso e Alceu Barroso Filho, sob a presidência de Djalma Rocha Al Chueyr, uma história impressionante de envolvimento comunitário que ainda precisa ser contada.

O café não deu apenas o primeiro Banco de Cascavel, mas também provocou a implantação de uma unidade da Companhia Paranaense de Silos e Armazéns (Copasa), mais tarde colocada à disposição das crescentes safras de soja da região.

Houve tentativas de plantio em Marechal Cândido Rondon e Matelândia, onde também houve ocupação de terras por parte de posseiros. Em 1953, o café foi o motor para a atração dos colonos sulistas que vinham para a região de Palotina. Mas desde o início nem tudo foram flores para o café no Oeste.

No embalo publicitário, em 1955, Abel Nono Paludo chegou a Toledo com a intenção de plantar café e até teve sucesso, colhendo logo de saída 550 sacas, mas o preço de venda do produto o decepcionou. Na safra seguinte, a decepção aumentou: veio uma forte geada.

Todos os cafeicultores remanescentes dessa época que tiveram sucesso praticavam a multicultura, defendida pelo líder de Toledo, Willy Barth, e utilizavam apenas uma pequena parte das terras para o café.

O impulso do Selac

Embora as geadas já não fossem novidade, em 1957 o primeiro folheto de propaganda das terras de Cascavel, lançado pela Prefeitura, louvava suas terras como “as melhores existentes, próprias para o plantio de café”. Nem se pensava seriamente em produzir soja ou trigo e só o milho era obrigatório nos quintais, para as criações de suínos.

Em 1962, o Paraná respondia por 64% da produção nacional de café. Depois de anos bons e geadas fracas, o chefe do Serviço Regional de Assistência à Cafeicultura de Maringá, engenheiro agrônomo Gabriel Neves Caleffi, e o pesquisador Ângelo Pais de Camargo, engenheiro agrônomo do Instituto Agronômico de Campinas (SP), foram checar a produção de café na Fazenda Planolândia em 1969 e estimaram que a cultura teria sucesso no Oeste.

Devido a esse parecer, em novembro desse mesmo ano foi criada a Sede de Agrônomo, mais tarde Serviço Local de Assistência à Cafeicultura (Selac), com atribuições sobre os municípios de Cascavel, Toledo, Capitão Leônidas Marques, Catanduvas e Santa Helena.

O Instituto Brasileiro do Café passou a financiar a formação de novas lavouras, produção de mudas, fertilizantes, defensivos, corretivos, implementos agrícolas e infraestrutura aos cafeicultores, além de assistência técnica à formação e recuperação de novos e velhos cafezais pelo Selac.

Safras menores, qualidade maior

O plano foi um sucesso, mas a partir de 1972 uma sequência de fortes geadas começa a abalar a cafeicultura na região. Em 1975, por fim, o fantasma eventual se transformou em um monstro destruidor, liquidando toda a cafeicultura paranaense e impedindo a arrancada do Estado ao topo dos principais estados brasileiros. 

Apesar do desastre, depois disso muitos produtores cascavelenses persistiram: “Mesmo assim, a região pertencente ao Selac de Cascavel possui muito café, comprovando seu trabalho e sua permanência na região”, dizia o engenheiro agrônomo Alberto Tauil, do IBC, em 1979.

O Paraná ainda manteve uma boa participação nacional, chegando a compor cerca de 20% no final dos anos 1980. No entanto, nunca mais recuperou a liderança entre os estados brasileiros.

Na década de 1990, a participação no ranking nacional caiu para menos de 10%. Entre 1997 e 2016 a produção se concentrou crescentemente no Norte do Estado, com grande redução de área no Oeste em favor do trio soja-milho-trigo.

A produção paranaense caiu para menos de 5% no conjunto nacional nos anos 2000 e menos de 3% na década de 2010, sinalizando para as grandes transformações sofridas pela agricultura brasileira e refletindo as mudanças tecnológicas e agrárias sofridas até definir sua participação no mercado mundial.

No Show Rural, a cara atual do café

O agrônomo Alberto Tauil, entretanto, tinha razão em apostar na cafeicultura oestina. Apesar do declínio geral da cultura no Estado e ainda mais na região, a partir do desastre de 1975, o produto ganhou cultores fiéis e especializados, apostando com certeza de ganhos em variedades de alta qualidade.

Criar a Câmara Setorial do Café do Paraná foi uma boa aposta do Estado, vencida ao promover o Concurso Café Qualidade Paraná. O sucesso da iniciativa, escorada pela assistência técnica do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR), é atestado pelos números: os cafés especiais respondem, dependendo do clima e do mercado, entre 10% e 30% do volume produzido.

O conjunto foi coroado pela iniciativa “Mulheres do Café”, que agrega valor com a venda direta ao consumidor, verticalizando a produção e tirando o melhor de uma área ainda em expansão: o turismo rural.

O Paraná chega agora com uma posição mais modesta no ranking nacional, mas com novas marcas em volume – a produção nacional bate recordes seguidos – e nichos de altíssima qualidade, reflexos da variedade de opções. Já não se fala mais em “o café”, mas em muitos cafés, como viram os oestinos que tiveram a sorte de visitar o Show Rural neste ano.

A primeira família: Uma região se forma

Em junho de 1888 foi criada a Comissão Estratégica do Paraná, sob a chefia do capitão engenheiro militar Belarmino Augusto de Mendonça Lobo.

Instalando a CEP em Guarapuava, em novembro ele designou o segundo-tenente da Engenharia Joaquim José Firmino para chefiar os serviços de penetração, reconhecimento e construção de uma grande picada até as barrancas do Rio Paraná, prevendo um ramal à Colônia Chopim.

Os serviços do picadão se desenvolveram ao longo de sete meses e vinte dias de marcha, tendo índios Kaingangues como guias e abrindo caminho na mata desconhecida a foice e facão, margeando o Rio Iguaçu e registrando 210 cursos de água.

A expedição passou ao Sul do futuro Município de Cascavel, onde o tenente Firmino onde gravou imagens com um daguerreótipo, e em 15 de julho de 1889, uma segunda-feira, chegou à foz do Rio Iguaçu. O médico Everaldo Batista possuía cópias dessas imagens.

O Paraná chega à última década do século XIX ainda com a proibição da posse e fixação de moradias no interior das áreas concedidas pelas obrages.

Um fator adicional que apagou os nomes possíveis dos registros históricos era a regra de ouro das obrages: a proibição para de “toda povoação permanente nos ervais, desalojando-se as estabelecidas anteriormente” (Júlio Nuñez, Iviraretá).

Quando essa regra ainda estava em vigor, nascia em Rio Negro no ano de 1894 o homem que passaria à história como o primeiro agricultor a se fixar na região de Cascavel: Ernesto de Oliveira Schiels.

 

Livro de Julio Nuñez explica porque não havia povoações nas áreas de extração da erva-mate 

 

 

 

 

 

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