
A geada sempre veio mais forte em alguns anos e em outros chegava branda, quase indolor. Desde que nos anos 1920 o paulista Joaquim Guilherindo de Carvalho começou a plantar café no Noroeste paranaense, a rubiácea rendia bem, mas ele não plantava só café.
Sabia que não lhe bastava ter a maravilhosa terra roxa nem a oferta de preços favoráveis, pois até a II Guerra sempre faltavam infraestrutura, mão de obra disponível e meios para pôr o produto ao alcance dos mercados nacional e externo.
Em 1920 o Estado possuía, contadas, escassas 1.215 posses cafeeiras, mas ocorreu uma explosão produtiva e em 1959 já tirava de São Paulo o primeiro lugar nacional na oferta de café. Nessa época, no interior de Cascavel, todos queriam plantar café, mas as geadas já causavam cabelos brancos nos produtores.
O imigrante ucraniano Alexandre Kachuba transportava mercadorias com sua carroça na região da atual Nova Aurora quando, a chorar, uma viúva o abordou dizendo que o marido cafeicultor foi assassinado e ela não sabia como trabalhar na terra
Kachuba sabia – a agropecuária era só uma de suas várias atividades – e durante seis anos colheu boas safras, até que no fim da década uma geada além das habituais lhe torrou irremediavelmente 2,5 mil pés de café.
Nos anos seguintes, o acidente foi ignorado. A intensa propaganda das colonizadoras anunciava as terras do Oeste como as mais propícias para o café – por ser terra roxa. Mas nem em letras miúdas dos contratos mencionavam a possibilidade de geadas tão fortes quanto a que destruiu a lavoura de Kachuba.
Nos tempos da erva-mate se formou na trilha que resultaria na futura PR-180 uma pequena comunidade formada por índios e caboclos que recebeu o nome de Caixão, remontando a um grande ataúde que os pioneiros ao chegar encontraram no local.
Em 1951 começaram a chegar famílias convencidas pela propaganda de que a região era ideal para o plantio de café e mudaram o nome do lugar para Cafelândia.
A terra era de fato ótima e verdadeiras as notícias de volumosas safras colhidas nas regiões Norte, Norte novo e Norte novíssimo, onde dezenas de cidades brotavam da noite para o dia e o café fazia a fortuna de muita gente, mas Cafelândia nunca se destacou por essa produção.
A criação do Instituto Brasileiro do Café (IBC) em 1952 pelo governo Vargas favoreceu a expansão da cultura e a transformação do Paraná no maior Estado produtor brasileiro.
Paralelo à madeira, foi o café um dos grandes responsáveis pela abertura de estradas, desbravamento de novas fronteiras agrícolas, construção de pontes, estradas e igrejas no interior do Município de Cascavel.
Historicamente, a cultura da rubiácea foi o ciclo intermediário entre a fase inicial e a explosão do ciclo madeireiro. Nesse sentido, foi um dos “pais” da industrialização paranaense.
Foi, assim, devido também ao café e não somente à madeira que surgiu em Cascavel o Banco Agrícola Vale do Rio Piquiri (Banquiri), dirigido por Alceu Barroso e Alceu Barroso Filho, sob a presidência de Djalma Rocha Al Chueyr, uma história impressionante de envolvimento comunitário que ainda precisa ser contada.
O café não deu apenas o primeiro Banco de Cascavel, mas também provocou a implantação de uma unidade da Companhia Paranaense de Silos e Armazéns (Copasa), mais tarde colocada à disposição das crescentes safras de soja da região.
Houve tentativas de plantio em Marechal Cândido Rondon e Matelândia, onde também houve ocupação de terras por parte de posseiros. Em 1953, o café foi o motor para a atração dos colonos sulistas que vinham para a região de Palotina. Mas desde o início nem tudo foram flores para o café no Oeste.
No embalo publicitário, em 1955, Abel Nono Paludo chegou a Toledo com a intenção de plantar café e até teve sucesso, colhendo logo de saída 550 sacas, mas o preço de venda do produto o decepcionou. Na safra seguinte, a decepção aumentou: veio uma forte geada.
Todos os cafeicultores remanescentes dessa época que tiveram sucesso praticavam a multicultura, defendida pelo líder de Toledo, Willy Barth, e utilizavam apenas uma pequena parte das terras para o café.
Embora as geadas já não fossem novidade, em 1957 o primeiro folheto de propaganda das terras de Cascavel, lançado pela Prefeitura, louvava suas terras como “as melhores existentes, próprias para o plantio de café”. Nem se pensava seriamente em produzir soja ou trigo e só o milho era obrigatório nos quintais, para as criações de suínos.
Em 1962, o Paraná respondia por 64% da produção nacional de café. Depois de anos bons e geadas fracas, o chefe do Serviço Regional de Assistência à Cafeicultura de Maringá, engenheiro agrônomo Gabriel Neves Caleffi, e o pesquisador Ângelo Pais de Camargo, engenheiro agrônomo do Instituto Agronômico de Campinas (SP), foram checar a produção de café na Fazenda Planolândia em 1969 e estimaram que a cultura teria sucesso no Oeste.
Devido a esse parecer, em novembro desse mesmo ano foi criada a Sede de Agrônomo, mais tarde Serviço Local de Assistência à Cafeicultura (Selac), com atribuições sobre os municípios de Cascavel, Toledo, Capitão Leônidas Marques, Catanduvas e Santa Helena.
O Instituto Brasileiro do Café passou a financiar a formação de novas lavouras, produção de mudas, fertilizantes, defensivos, corretivos, implementos agrícolas e infraestrutura aos cafeicultores, além de assistência técnica à formação e recuperação de novos e velhos cafezais pelo Selac.
O plano foi um sucesso, mas a partir de 1972 uma sequência de fortes geadas começa a abalar a cafeicultura na região. Em 1975, por fim, o fantasma eventual se transformou em um monstro destruidor, liquidando toda a cafeicultura paranaense e impedindo a arrancada do Estado ao topo dos principais estados brasileiros.
Apesar do desastre, depois disso muitos produtores cascavelenses persistiram: “Mesmo assim, a região pertencente ao Selac de Cascavel possui muito café, comprovando seu trabalho e sua permanência na região”, dizia o engenheiro agrônomo Alberto Tauil, do IBC, em 1979.
O Paraná ainda manteve uma boa participação nacional, chegando a compor cerca de 20% no final dos anos 1980. No entanto, nunca mais recuperou a liderança entre os estados brasileiros.
Na década de 1990, a participação no ranking nacional caiu para menos de 10%. Entre 1997 e 2016 a produção se concentrou crescentemente no Norte do Estado, com grande redução de área no Oeste em favor do trio soja-milho-trigo.
A produção paranaense caiu para menos de 5% no conjunto nacional nos anos 2000 e menos de 3% na década de 2010, sinalizando para as grandes transformações sofridas pela agricultura brasileira e refletindo as mudanças tecnológicas e agrárias sofridas até definir sua participação no mercado mundial.
O agrônomo Alberto Tauil, entretanto, tinha razão em apostar na cafeicultura oestina. Apesar do declínio geral da cultura no Estado e ainda mais na região, a partir do desastre de 1975, o produto ganhou cultores fiéis e especializados, apostando com certeza de ganhos em variedades de alta qualidade.
Criar a Câmara Setorial do Café do Paraná foi uma boa aposta do Estado, vencida ao promover o Concurso Café Qualidade Paraná. O sucesso da iniciativa, escorada pela assistência técnica do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR), é atestado pelos números: os cafés especiais respondem, dependendo do clima e do mercado, entre 10% e 30% do volume produzido.
O conjunto foi coroado pela iniciativa “Mulheres do Café”, que agrega valor com a venda direta ao consumidor, verticalizando a produção e tirando o melhor de uma área ainda em expansão: o turismo rural.
O Paraná chega agora com uma posição mais modesta no ranking nacional, mas com novas marcas em volume – a produção nacional bate recordes seguidos – e nichos de altíssima qualidade, reflexos da variedade de opções. Já não se fala mais em “o café”, mas em muitos cafés, como viram os oestinos que tiveram a sorte de visitar o Show Rural neste ano.
Em junho de 1888 foi criada a Comissão Estratégica do Paraná, sob a chefia do capitão engenheiro militar Belarmino Augusto de Mendonça Lobo.
Instalando a CEP em Guarapuava, em novembro ele designou o segundo-tenente da Engenharia Joaquim José Firmino para chefiar os serviços de penetração, reconhecimento e construção de uma grande picada até as barrancas do Rio Paraná, prevendo um ramal à Colônia Chopim.
Os serviços do picadão se desenvolveram ao longo de sete meses e vinte dias de marcha, tendo índios Kaingangues como guias e abrindo caminho na mata desconhecida a foice e facão, margeando o Rio Iguaçu e registrando 210 cursos de água.
A expedição passou ao Sul do futuro Município de Cascavel, onde o tenente Firmino onde gravou imagens com um daguerreótipo, e em 15 de julho de 1889, uma segunda-feira, chegou à foz do Rio Iguaçu. O médico Everaldo Batista possuía cópias dessas imagens.
O Paraná chega à última década do século XIX ainda com a proibição da posse e fixação de moradias no interior das áreas concedidas pelas obrages.
Um fator adicional que apagou os nomes possíveis dos registros históricos era a regra de ouro das obrages: a proibição para de “toda povoação permanente nos ervais, desalojando-se as estabelecidas anteriormente” (Júlio Nuñez, Iviraretá).
Quando essa regra ainda estava em vigor, nascia em Rio Negro no ano de 1894 o homem que passaria à história como o primeiro agricultor a se fixar na região de Cascavel: Ernesto de Oliveira Schiels.
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