
No período posterior à II Guerra Mundial o Brasil viveu dois fenômenos importantes. De um lado, a urbanização crescente com o desenvolvimento de polos comerciais e industriais. De outro, o fortalecimento das comunidades do interior com a exportação de madeira e abertura de amplas áreas para a agropecuária.
Com a urbanização se fortaleceu o movimento operário nas grandes cidades. O desenvolvimento da agropecuária levou as famílias sem terra a se organizar para ocupar espaços livres no interior, mas esbarraram na reação armada dos latifundiários especulativos.
Em outubro de 1957, depois de atentado a uma viatura do governo em Capanema, cometido por posseiros que reagiam à reintegração de posse das terras ocupadas, o senador paranaense Gaspar Veloso fez uma proposta de Reforma Agrária que seria a solução para o problema.
Ele sugeriu ao governo expropriar as terras usadas para especulação, dividindo-as em “lotes pequenos, não maiores do que dez alqueires, e entregá-los, com título legal, aos colonos que querem colonizar, aqueles que realmente querem trabalhar na terra”.
Nada resolutivo se fez e o problema cresceu. Respaldados por milícias de jagunços, os grileiros, latifundiários e especuladores promoviam expulsões e matanças no campo.
Em resposta, a Igreja Católica e o Partido Comunista Brasileiro (PCB) organizaram amplamente as diversas categorias de trabalhadores no campo, dando-lhe força similar à do operariado urbano.
Tendo ciência de que lavradores e posseiros sofriam expropriação e expulsão de terras, queima e destruição de casas e roças, violências e arbitrariedades, indução ao endividamento e escravização, o regime militar instalado pelo golpe de Estado do 1º de abril de 1964 prometeu fazer imediatamente a Reforma Agrária.
O primeiro presidente da ditadura, general Castelo Branco, seis meses depois de tomar o poder, entregou ao país o Estatuto da Terra, cujas linhas principais eram a Reforma Agrária e o desenvolvimento rural.
No entanto, Castelo Branco foi afastado do poder pelos falcões da ditadura e morreu em um estranho acidente aéreo quatro meses depois, em julho de 1967. Depois dele, a Reforma Agrária se arrastou em medidas ineficientes. Quanto ao desenvolvimento rural, o sucesso viria por meio do cooperativismo.
Em Cascavel desde 1966, nem o Instituto Brasileiro de Reforma Agrária (Ibra) nem seu sucessor, o Incra, a partir de 1970, conseguiram completar a tarefa. No vácuo, o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) foi criado em 21 de janeiro de 1984.
O que aconteceu entre novembro de 1964, quando o Estatuto da Terra definiu como seria a Reforma Agrária, e a criação do MST, duas décadas depois, foi a traição generalizada às promessas feitas.
Ineficientes, os governos ditatoriais se esgotaram na impopularidade, sobretudo após o AI-5, em 1968, que pôs fim às últimas máscaras de democracia simuladas pela propaganda do governo: havia eleição para prefeito, mas não para governadores e presidente. Nem os prefeitos das capitais eram eleitos.
O caso de Palotina é exemplar de como tudo se arrastou. Em agosto de 1972, depois de uma espera de muitos anos, os títulos de propriedade dos colonos foram confirmados, contra as pretensões do Estado, pelo Supremo Tribunal Federal.
Mas já em setembro, entretanto, as empresas Giacomet e Marodin, associadas ao banco Maisonnave, iniciavam com a contestada aquisição dos imóveis Pinhal Ralo e Rio das Cobras a madeireira Araupel, nome que a partir daí virou sinônimo da Reforma Agrária encalacrada no Paraná.
O caso de Palotina só foi concluído em 1976, quando o governo federal, depois de sofrer uma derrota arrasadora nas urnas, em 1974, decretou a desapropriação da região conflitada do Piquiri. Era mais um caso isolado, porém. No Estado e no país os problemas se acumulavam.
Em janeiro de 1977, o presidente do Sindicato Rural de Cascavel, Antônio Dionízio Bosquirolli, dirigindo um encontro emergencial conjunto dos sindicatos patronais e de trabalhadores rurais do Oeste, exigiu a efetivação de fato da Reforma Agrária no Brasil.
O clamor não passou em branco: em março desse ano foi desapropriada pelo Incra a Fazenda Pires (gleba nº 9 da Colônia Tormenta), no interior de Cascavel, uma das áreas do Paraná conflagradas pela disputa da posse da terra.
A área foi ocupada em 1979 por 186 famílias de agricultores, época em que a mecanização agrícola causava o êxodo de milhares de famílias de agricultores, com meio milhão de boias-frias vagando pelo Estado.
A situação se arrastou, com tensões e violências no campo entre jagunços e posseiros que iniciavam a reação armada, causando preocupações aos empresários urbanos: em abril de 1983 a Associação Comercial e Industrial de Cascavel (Acic) propôs ao governo “uma política agrária coerente e de longo prazo”.
Para piorar, em maio vieram tempestades, matando e desabrigando. Uma grande manifestação de ruralistas, em junho, na Associação Atlética Comercial, propôs assentar os sem-terras em latifúndios inexplorados.
O governo ignorou o apelo e o Sindicato Rural (patronal) em julho promoveu um tratoraço de protesto. Na primavera, em desespero, agricultores entregavam máquinas para pagar os financiamentos.
Havia 16 mil famílias de agricultores sem-terras no Paraná e o número de boias-frias (trabalhadores volantes) ultrapassava os 450 mil. Agricultores com e sem terra protestaram unidos no centro de Cascavel pelo atraso nas ações de Reforma Agrária determinadas duas décadas antes pelo Estatuto da Terra.
Em consequência, não é de estranhar que a 21 de janeiro de 1984 um encontro nacional de agricultores sem-terra fundasse o MST em Cascavel. Surgiu sem reação negativa por parte dos proprietários de terras, pois não era um movimento criado para durar.
Em fevereiro, ruralistas com e sem terra, por meio dos Sindicatos Rural Patronal e dos Trabalhadores Rurais, denunciaram como “falsa” a Reforma Agrária da ditadura.
Carta dos Produtores Rurais de 30 municípios do Oeste exigia em julho a promoção imediata da Reforma Agrária, com o assentamento de agricultores em terras inexploradas. Foram muitos apelos em vão, até que a ditadura caiu sozinha, sem um tiro, em 1985.
Acreditou-se que a Reforma Agrária logo viria, como consequência natural da redemocratização, e com isso o MST se esvaziaria. Como a reforma continuou travada, o movimento se espalhou pelo País, até incluindo “campesinos” paraguaios.
A união entre ruralistas com e sem terra acabou em 1985, com a criação da UDR (União Democrática Ruralista), entidade elitista que alimentou atritos entre donos de terra e despossuídos, com os primeiros se opondo a qualquer Reforma Agrária e os sem-terras estimulados a fechar praças de pedágio e ocupar terras para exigi-la.
Trancando ruas, marchando pelo País, promoveram encontros, manifestações e seminários com grande repercussão no exterior. Isso jamais teria ocorrido se os sucessivos governos eleitos após a reconquista da democracia aproveitassem as chances de resolver o problema.
A novela da Reforma Agrária teve uma ótima ocasião para se completar a partir de 30 de dezembro de 1985, quando o decreto presidencial 92.256 declarou a Fazenda Vitória de interesse social para fins de desapropriação, compreendida como área prioritária para esse fim.
Em 3 de fevereiro de 1986 dezenas de famílias de agricultores sem terra tomaram posse das fazendas Conceição e Vitória, mas 150 famílias assentadas foram despejadas por ordem judicial executada pelas Polícia Federal e Militar em 29 de janeiro de 1987.
Com fome, os expulsos ameaçaram invadir Cascavel e saquear os supermercados. As famílias continuaram ocupando a área e as disputas continuaram até a vitória final dos assentados, em 1995, mas o Caso Araupel continuou uma ferida aberta pelos anos seguintes.
Cabe recordar que a empresa sucessora da Araupel em Quedas do Iguaçu – a Millpar – fechou as portas em agosto do ano passado, golpeada mortalmente pelo tarifaço do presidente americano Donald Trump, que estrangulou suas exportações.
Se os governos democráticos posteriores a 1985 efetivassem de fato a Reforma Agrária em sua plenitude, o MST não existiria mais. Se ainda existe é porque não só a ditadura fracassou: os governos democráticos também não deram totalmente conta do recado.
Domingo, 20 de setembro de 1874. A família reunida no Porto de Hamburgo, todos prontos para embarcar no navio Shakespeare, um gigante com 786 toneladas inglesas. O menino Franz (Francisco, https://bit.ly/3blaJDZ) Schiels, de oito anos, vai fazer com os pais e dois irmãos uma longa viagem marítima a uma terra distante e desconhecida: o Brasil.
O pai de Francisco, Joseph Schiels, nascido em Schwarzenberg, na Bavária (Alemanha), estava com 34 anos. Ele e a esposa, Maria Magdalena Späth, tiveram Francisco em 1866, o ano em que aconteceu a Guerra Austro-Prussiana.
Os primeiros anos de Francisco transcorreram em uma década tensa, dinâmica e definitiva para a Alemanha, tendo como pano de fundo a unificação do país.
Procurar dias melhores em outras terras era uma tendência para muitas famílias da colcha de retalhos étnica da Alemanha e nações vizinhas.
Francisco era o mais velho dos filhos. Aloys tinha cinco anos e Anna, três. Um casal jovem com filhos ainda bem pequenos e com Bárbara já a caminho. Ela nasceria nesse mesmo ano de 1874 já no Brasil e um ano depois nascerá o caçula, João.
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