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Arriscando a vida por ser briguento

Moacir Bordignon teve muitos sócios e amigos, mas também adversários ferrenhos e brigas em tempos de armas na cintura   

25/01/2026 às 10h44 Atualizada em 26/01/2026 às 08h44
Por: Tissiane Merlak Fonte: Alceu Sperança
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Bordignon x Bilibio: ao contrário de tiros entre os dois, reconciliação 
Bordignon x Bilibio: ao contrário de tiros entre os dois, reconciliação 

As brigas aconteciam na Câmara Municipal durante a semana. Nos fins de semana, no Estádio Ciro Nardi, nos jogos do time semiprofissional do Tuiuti Esporte Clube, formado por jogadores da Seleção Paraguaia e os melhores atletas locais.

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Moacir Bordignon, apesar da facilidade com que fazia amigos e encontrava sócios para os negócios, desde que chegou ao Oeste do Paraná se envolveu em brigas memoráveis. Para ele, algo natural: dois dias depois que nasceu, em 23 de janeiro de 1923, em Guaporé, na Serra Gaúcha, começou uma grande briga no Sul, entre os ximangos de Borges de Medeiros e os maragatos de Assis Brasil. 

Guaporé, uma colônia de imigrantes criada em 1892, progrediu, mas as terras ficaram estreitas para numerosos herdeiros, que partiam para abrir novas frentes de colonização em Santa Catarina e Paraná.

O jovem Moacir viveu uma temporada em Chapecó (SC) e iniciou a sua primeira sociedade em Joaçaba, com o irmão Tranqüilo: a empresa de ônibus União da Serra, depois incorporada pela empresa Reunidas.

Em 1951, já em Francisco Beltrão (PR), abriu uma casa comercial com Adelino Vettorello e conheceu um médico e líder político chamado Walter Pecoits.

Bordignon não participou das brigas entre posseiros e jagunços iniciadas por Pecoits em 1957 porque um ano antes se transferiu para Cascavel, onde em sociedade com Geraldino Cristófoli abriu a loja A Musical, mais tarde vendida à família Dalmina.

Investigando incêndio 

Também em sociedade com as famílias Moterle, Grando e Piasson na Industrial Madeireira Cascavel Ltda, fábrica de esquadrias de madeira e beneficiamento, Bordignon era intenso em tudo: nessa época também tinha meia dúzia de táxis e em sociedade com Euclydes Formighieri passou a vender terrenos no Loteamento Iguaçu.

Candidato a vereador pela UDN nas eleições de 3 de outubro de 1960, o rol de amigos de Bordignon lhe valeu a segunda maior votação entre os nove eleitos. Dois dias antes de sua posse, em 12 de dezembro, a Prefeitura, onde também funcionava a Câmara Municipal, foi destruída por um incêndio criminoso. 

Os vereadores assumiram os cargos diante das cinzas, no dia 14, quando uma sessão especial foi convocada para o dia seguinte, uma quinta-feira. Como os vereadores trabalhavam no interior e foi dia útil, a sessão foi determinada para as 22h, no Fórum da Comarca.

Sob a presidência do vereador José de Oliveira, o mais velho, a primeira atividade foi aprovar requerimento propondo a criação de uma Comissão de Inquérito, “com poderes para contratar advogado e acompanhar o processo referente à queima da Prefeitura”.

Assinado por Bordignon, Adevino de Oliveira, José Maltezo e Itasyr Luchesa, o requerimento foi aprovado e Bordignon foi eleito como um dos membros, ao lado de Oliveira, Roberto Paiva e Algacyr Biazetto. A comissão chegou a apurar três suspeitos, que se safaram por não haver provas. 

Tortura e olho vazado

Com a UDN apoiando a implantação da ditadura civil-militar em 1º de abril de 1964, Bordignon acreditou que o regime iria completar a Reforma Agrária e levar o Brasil ao Primeiro Mundo, mas logo ocorreu um episódio que o levou a se atritar com os defensores do novo regime.   

O médico e deputado Walter Pecoits, de quem Bordignon ficou amigo durante sua passagem por Francisco Beltrão, voltara com a esposa de uma viagem ao Uruguai e, vindo a Cascavel no dia 9 de maio, foi almoçar na casa do amigo José Neves Formighieri.

O coronel João Rodrigues da Silva Lapa se dirigiu com um destacamento da Polícia Militar à casa de Formighieri e prendeu o médico, acusando-o de promover insurreição e mortes. Levado para uma cela comum, Pecoits foi violentamente espancado e acabou ferido pela coronha de um rifle, que o deixou cego da vista esquerda. 

Houve naturais manifestações de desagrado na Câmara e Bordignon se mostrou um dos mais irritados com o episódio. O presidente da Câmara, vereador Luiz Picoli, que apoiava o governo, admoestou aos presentes que não iria tolerar perturbações.

Bordignon, mesmo sendo politicamente aliado aos defensores da ditadura, juntou-se com as lideranças locais do PTB e o ex-prefeito Neves, primo de seu sócio Euclydes Formighieri, para exigir a libertação imediata de Pecoits.

Surpresa eleitoral

Por defender um inimigo da ditadura, Bordignon chegou a ser ameaçado, mas disse que jamais aceitaria uma injustiça, sob nenhum pretexto. Por isso decidiu não concorrer à reeleição em 1964.

Nesse ano, afastado da UDN devido ao episódio com Pecoits, aceitou concorrer ao cargo de vice-prefeito pelo PTB. Para surpresa geral, Bordignon teve mais votos (1.335) que o candidato à prefeito de seu ex-partido, Modesto de Grandi (1.154). O PTB elegeu o prefeito (Odilon Reinhardt), mas o vice eleito foi Theodoro Colombelli (UDN). 

No ano seguinte, Bordignon aceitou o convite para fazer parte da Arena, o partido de sustentação do governo ditatorial. Esperava que o novo partido cumprisse a promessa contida no nome – Aliança Renovadora Nacional. 
Paralelamente à política, o forte espírito associativo de Moacir Bordignon o levou a uma grande paixão pelo Tuiuti Esporte Clube, participando

inicialmente como atleta e depois como diretor da equipe profissional, no período 1967/69.

Sempre agressivo, a cada deslize dos árbitros não hesitava em chamá-los explicitamente de “ladrões”, como os torcedores fazem nas arquibancadas. Mas Bordignon não se limitava às palavras: partia para a briga.

Não quis ser prefeito 

Dercio Galafassi, que jogava no time do Tuiuti, ficou impressionado quando o inconformado Bordignon reagiu ao empate com um clube de Toledo correndo para cima do árbitro, a quem acusava de roubo: “Depois do jogo foi tirar satisfações com o árbitro. Brigou, bateu, foi necessária intervenção dos jogadores para fazer a separação”.

Já de volta às atividades políticas, Bordignon se empenhou em criar o Município de Nova Aurora, onde tinha uma casa comercial e depósito de madeiras beneficiadas. Foi chamado a ser o primeiro prefeito, mas tinha seus negócios centralizados em Cascavel e recusou.

Eleito novamente para a Câmara em 1972, Bordignon se sentiu incomodado com os desastres políticos e econômicos da ditadura, que ia mal e sofreu ampla derrota nas eleições limitadas de 1974. Ele acreditava que a situação ia melhorar após a promessa do presidente Ernesto Geisel de recriar a democracia.

Mas a situação piorou. No dia 6 de maio de 1976 o vereador Horalino Bilibio pediu a palavra na Câmara e propôs um repúdio geral à ditadura. Acusava a Arena de piorar a situação do povo e não poupou seu próprio partido, o MDB, por coonestar o regime participando de eleições sem voto para governador e presidente. 

Bilibio, enfático, disse que inicialmente acreditou na propaganda da “revolução”, que prometeu construir a democracia mas virou ditadura. Disse que o MDB deveria se dissolver e denunciar ao mundo a imposição de “um partido só”.

O vereador Moacir Bordignon, incomodado com a metralhadora giratória de Bilibio, deixou-se tomar pela raiva e despejou insultos sobre o líder oposicionista. 

Bordignon x Bilibio: choque de gigantes

Bordignon ficou indignado porque em 1973 contrariou seu partido e apoiou a reeleição de Bilibio à Presidência da Câmara. Por isso, em junho de 1976, Bordignon se irritou com Bilibio e o insultou, como fazia com os árbitros.

Mas, também bom de briga, Bilibio intimou Bordignon a repetir na rua o que havia dito na Câmara. Muitos já antecipavam um possível derramamento de sangue. Passada a raiva, porém, Bordignon negou que tivesse acusado Bilibio de cometer “imoralidades”. 

Falar que Bilibio não tinha “caráter”, desculpou-se, foi um excesso motivado pelo calor da discussão. Bilibio aceitou as ponderações e a cidade, já em polvorosa, sossegou, pois se Bordignon era agressivo e sem papas na língua, Bilibio não hesitava em pegar em armas para a defesa da honra. 

Embora mais tenso que outros episódios, essa foi uma ocorrência comum na ditadura, período em que a oposição radicalizava na acusação e os defensores do regime devolviam na mesma moeda, antecipando a recente era de brigas entre bolsonaristas e lulistas.

Cansado de guerra, Moacir Bordignon faleceu em paz, em 8 de julho de 1989, respeitado pela comunidade, que o reverencia com o nome de uma rua. No fim da vida, Bordignon disse que não se orgulhava das brigas: queria ser lembrado por sua atuação como vereador, como quando propôs a transformação do trecho da BR-35, hoje BR-277, que passava pelo centro de Cascavel, em avenida de duas pistas, com estacionamento no centro.

A primeira família: Chegando da Alemanha

Tendo por destino a Colônia Dona Francisca (atual Joinville), onde receberiam um dos primeiros lotes situados na Rua Argollo, a família Schiels e outros 117 passageiros, alemães e tchecos da Boêmia, desembarcam em 11 de novembro de 1874 no porto de São Francisco do Sul.

Com tanta gente chegando e sem ocupação imediata, houve escassez de alimentos e, consequentemente, preços altos. Muitos colonos venderam ou simplesmente entregaram as terras à direção da colônia e partiram para outras localidades.

“Os migrantes saíam de localidades interioranas de Canoinhas, incluindo Barra Mansa, Rio da Areia do Meio, Rio dos Pardos, Pulador, Serra do Lucindo, Major Vieira, Pinheiros, Bela Vista do Toldo e seus arredores, transportando em carroças e carroções suas tralhas e sua gente. Porcos, galinhas, cães e outros animais viajavam num veículo. Noutro, a família e os minguados pertences domésticos. Num trajeto superior a 500 quilômetros, em boas condições, a viagem demorava trinta dias ou mais. Poucos, os mais abastados, seguiram em caminhões, pelas precárias estradas daqueles tempos” Fernando Tokarski, https://bit.ly/3NGQPAu).

Colônia Dona Francisca, primeiro destino da família Schiels no Brasil

 

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