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Cabeças de gente nas Cataratas há 6 mil anos

A arqueologia ajeita a história: quem descobriu os saltos do Iguaçu não foi o espanhol Cabeza de Vaca, mas os primeiros indígenas a chegar à região

01/02/2026 às 10h09
Por: Tissiane Merlak Fonte: Alceu Sperança
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Os indígenas que os espanhóis encontraram em 1542 não foram os primeiros moradores do Oeste 
Os indígenas que os espanhóis encontraram em 1542 não foram os primeiros moradores do Oeste 

Anunciada como “descoberta”, a existência das Cataratas do Iguaçu chegou ao mundo pela publicação em livro de um cronista de passagem pela região: o espanhol Álvar Núñez Cabeza de Vaca, nascido entre 1488 e 1492 e morto em 1559. 

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Os livros publicados por Cabeza de Vaca resultaram das anotações de seu secretário pessoal, Pero Hernández, dentre as quais se destacam os relatos em torno do Rio Iguaçu e das Cataratas.

As circunstâncias de sua passagem pela América do Sul foram amplamente divulgadas. Afinal, as regiões que ele visitou seriam, hoje, como descobrir civilizações em planetas desconhecidos.

Cabeza teve uma vida de romance – até porque ele próprio romanceou sua história: depois de ser escravo de índios na América do Norte, escapando por fingir ser curandeiro, em 1541 ele foi mandado pelo rei Carlos V para impor o domínio espanhol no Cone Sul com “licença” para “conquistar e pacificar e popular as terras” como “adelantado del Río de la Plata”.

Desembarcando na ilha de Santa Catarina com 250 arcabuzeiros e 26 cavalos, passou meses estudando o que precisaria fazer para atravessar um sertão jamais percorrido por europeus até chegar ao destino: Assunção, que viria a ser a capital do Paraguai.

Muitas povoações

Cabeza de Vaca partiu da futura Florianópolis em outubro de 1541 depois de recrutar índios vaqueanos com experiência em percorrer a mata, mas sabendo que era uma viagem inédita: seria preciso traçar a rota no próprio caminho.

Provando que os sertões do Paraná não eram uma região despovoada, a trajetória do viajante espanhol traz o registro de inúmeras aldeias encontradas ao longo do caminho. Não eram viajantes ocasionais achados na mata, mas povoados com centenas e até milhares de pessoas.  

Os relatos dão conta de que embora tenha passado dias transitando por terras despovoadas o grupo passou “sempre por muitos povoados, onde vinham até velhas e crianças com cestas de batata ou milho para lhe oferecer”. Não foram hostilizados: por onde passavam, os índios cantavam e dançavam. 

A expedição subiu o Rio Itapocu em novembro de 1541, “atravessou a Serra do Mar, a margem oriental do Campo do Tenente e o Iguaçu nas proximidades de Araucária. (...) Prosseguindo, alcançou o Rio Tocoarí (Ivaí), onde foi socorrido com víveres que lhe ofereceram os índios Guaranis chefiados por Abangabí” (Romário Martins, Bandeiras e bandeirantes em terras do Paraná).

Guaranis eram canibais

Depois de 19 dias de caminhada, de aldeia em aldeia, como a do cacique Tocanguir, no Corumbataí, a expedição transpôs as serras da Esperança e do Cantu, “fazendo um estágio reparador de forças numa outra aldeia de Guaranis e deixando, junto ao Rio Cantu, Francisco Arejon com 14 espanhóis que afrouxaram na travessia” (Romário Martins).

O secretário Pero Hernández descreveu os Guaranis como “amantes da guerra” que comiam carne humana. Hernández anotou: “Quando capturam um inimigo na guerra trazem-no para seu povoado e fazem com ele grandes festas e regozijos, dançando e cantando, o que dura até que ele esteja gordo, no ponto de ser abatido”.

Detalhista, Hernández contou que três meninos de seis ou sete anos eram enfeitados para a guerra e recebiam machadinhas de cobre. Todos dançavam até que o guerreiro mais valente começava a golpear o prisioneiro, primeiro pelos ombros, depois pela espinha e em seguida na cabeça:

“Somente depois de muito bater com aquela espada, que é feita de uma madeira negra muito resistente, é que consegue derrubar o prisioneiro e inimigo. Aí então chegam os meninos com as machadinhas e o maior deles, ou filho do principal, é o primeiro a golpeá-la com a machadinha na cabeça até fazer correr o sangue”.

O andarilho solitário

Sabendo que algumas tribos poderiam, ser especialmente cruéis, em cada aldeia que parava, Cabeza de Vaca enchia os nativos de presentes e assim não faltaram voluntários para ensinar os caminhos da mata aos visitantes.

“Fato extraordinário ocorreu quando a expedição saiu nos campos gerais, estacionando em busca do célebre Caminho do Peabiru, que fora encoberto pelas macegas da campanha”, contou Nivaldo Kruger no livro Paraná Central: A Primeira República das Américas:

“Num local que se supõe ter sido nas proximidades de Ponta Grossa, inexplicavelmente o vulto de uma pessoazinha andando a pé sobressai na vastidão aberta da savana, nos campos gerais do Segundo Planalto. Era um índio, que depois se soube chamar-se Miguel, que vinha de Assunção com destino ao litoral atlântico. Abordado amistosamente por Cabeza Vaca, o índio concordou em voltar, e orientar a expedição pela vereda do Peabiru, por onde viera”.

Perigos: nativos e corredeiras

“Assim, seguindo por estes caminhos, aos quatorze dias do mês de janeiro, chegaram a um rio muito largo e caudaloso que se chama Iguaçu”, escreveu Hernández. “É um rio muito bom, de bastante pescado e muitas árvores na ribeira”.

“Esse afluente do rio Paraná adentrava por um território onde se esperavam por índios prontos a atacar e matar os espanhóis. Um grupo desceu o rio com canoas, enquanto outro guiava os cavalos pela margem. As quedas d’água fortes, recorrentes e com muitas pedras dificultavam a passagem. Depois de desviar as grandes cataratas do Iguaçu, eles chegaram à junção do rio Iguaçu com o Paraná” (Cleverton Lopes, https://x.gd/WnToZp).

Para a travessia do Rio Paraná os espanhóis anotaram que ao chegar presenciaram “um grande número de índios Guaranis, todos enfeitados com plumas de papagaios e muito pintados de maneira multicolorida, com seus arcos e flechas na mão, formando um esquadrão que era maravilhoso de se ver”.

Houve perturbação entre eles ao perceberem a aproximação dos espanhóis, mas, por meio de seus intérpretes, Cabeza de Vaca logo soube quem eram os chefes e lhes deu presentes.

“Cristão arrastado pelas águas”

“Como são sequiosos por novidades, foram logo se acalmando e se aproximando, tendo muitos índios vindo ajudar o governador a passar para a outra margem”, segundo Hernandez, narrativa publicada por Cabeza de Vaca no livro Naufrágios e Comentários:

“Em seguida, o governador mandou que juntassem as canoas duas a duas, transformando-as em balsas, para a passagem dos cavalos e do restante do pessoal que o acompanhava. A parte deste Rio Paraná por onde cruzaram tem a largura de um tiro de balista, possui uma correnteza muito forte e forma muitas ondas e redemoinhos, devido à grande força da água e à sua profundidade. Ao ser realizada a travessia, uma canoa virou e um cristão foi arrastado pelas águas, morrendo afogado”.

Chegando a Assunção em meados de março de 1542, Cabeza de Vaca proibiu a escravidão de mulheres e definiu que toda tribo seria considerada amiga se aceitasse o governo espanhol. No fim de abril, ordenou aos índios Guaranis que parassem de comer carne humana.

A história de Cabeza de Vaca esclarece que já havia uma civilização no interior do Brasil no século XVI, mas agora uma nova revelação aponta que os verdadeiros descobridores das Cataratas do Iguaçu não foram nem os exploradores europeus nem os índios que os receberam, mas povos indígenas anteriores. 

A nova descoberta 

Arqueólogos argentinos da Universidade Nacional de La Plata e do Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas que investigavam os sedimentos da área, pesquisa que dificilmente chegaria ao conhecimento do público, descobriram com surpresa sinais de ocupação da área por um povo que viveu entre 7.000 e 2.000 anos atrás. 

Uma população pré-hispânica ampla e bem desenvolvida surgiu das coletas e da datação de artefatos encontrados em locais como a ilha San Martín e em áreas entre o Circuito Inferior e o Puerto Macuco pelo arqueólogo Eduardo Apolinaire, com a participação de seus colegas Luciano Pérez Pesce, Laura Bastourre e Carola Castiñeira.

No trabalho, iniciado em 2019 no Parque Nacional Iguazú, lado argentino das Cataratas, as datações com carbono 14 mostram que os vestígios mais antigos, como restos de fogueiras e ferramentas de pedras, remontam a pelo menos seis mil anos. “Tivemos a sorte de recuperar restos de carvão muito antigos”, escreveu Apolinaire.

Os habitantes mais antigos, conforme as pesquisas, praticavam o estilo de vida nômade, associado aos grupos de caçadores-coletores. Só bem depois os povos da cultura Guarani, que já dominavam a agricultura, ocuparam a região e em 1542 receberam Cabeza de Vaca.

A primeira família: O ataque da onça 

 Na formação colonial de Canoinhas, em 24 de outubro de 1881 nasceria ali Antônio José Elias. Seus pais, Diogo José Elias (1859–1919) e Placedina Ferreira de Lima (1871-?), lavradores no interior catarinense, participaram dos esforços para a consolidação do lugar, cuja formação urbana começará em 1888. 

Os Elias eram “gente esquentada, inclusive envolvidos na célebre Guerra do Contestado, quando atuaram como revoltosos”. 
A fama de bravura da família se deve a uma incrível façanha de Manoel José Elias, a personalidade mais lembrada da família pelo milagre de sobreviver ao caçar uma onça frente a frente e no corpo a corpo, sem dispor de arma de fogo.

Munido de apenas um facão – temia atirar e ferir um de seus cães de estimação, que acossavam a onça – o felino raivoso com uma patada lhe arrancou a arma e ele sem temor se atracou com a enorme onça.

Observado por dois atônitos caçadores e um afilhado, quando a onça fugiu temendo o alarido que se seguiu o corajoso Elias estava “caído, sem sentidos, ensanguentado e lascado de unhas, o couro cabeludo puxado para a frente, os olhos pendurados fora das órbitas, mas ainda vivo” (Nerje, João Olivir Camargo).

João Olivir Camargo contou as peripécias da família Elias no livro Nerje

 

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