
A Operação Três Passos foi um movimento guerrilheiro desencadeado no Sul na noite de 25 de março de 1965 e logo reprimido pelo Exército no Parque Nacional do Iguaçu. Começou com um sucesso além do esperado, mas teve fôlego curto.
Supostamente apoiados pelo ex-governador gaúcho Leonel Brizola, exilado no Uruguai, o coronel Jefferson Cardim e o sargento Alberi Vieira dos Santos, da Brigada Militar do Rio Grande do Sul, partiram à frente de um de um grupo de 19 homens de Campo Novo rumo a Três Passos, alcançada na madrugada seguinte.
Sem resistência, assaltaram o destacamento da Brigada Militar, apossando-se de 30 mosquetões e quatro fuzis-metralhadoras, além de 600 cartuchos. Ainda nessa madrugada, ocuparam a Rádio Difusora e divulgaram uma “Proclamação ao Povo Gaúcho”, pedindo à população para pegar em armas e impedir que do golpe de 1º de abril de 1964 completasse um ano.
Os guerrilheiros atravessaram o Oeste de Santa Catarina e entraram no Paraná por Barracão. Para barrar a progressão rebelde, o governo enviou tropas para Capitão Leônidas Marques em 27 de março de 1965, data em que o general Castelo Branco inaugurava a Ponte da Amizade em Foz do Iguaçu.
Cinco mil soldados foram combater os guerrilheiros, vencidos logo no primeiro confronto, entre Santa Lúcia e Lindoeste. Foram detidos no 1º Batalhão de Fronteira o coronel Jefferson Cardim, o sargento Alberi e mais 23 guerrilheiros.
“Os presos passaram por seguidas sessões de tortura que duraram uma semana e um deles, Silvano Soares dos Santos, irmão caçula de Alberi, morreu alguns dias após ter sido jogado do segundo andar do prédio do Batalhão” (Aluizio Palmar).
Essa história de horrores ainda estava longe de acabar. Em 1973, quando acabou de cumprir pena, o ex-sargento Alberi Vieira dos Santos já estava sob a desconfiança dos movimentos guerrilheiros que ainda resistiam.
Atribuiu-se a ele a delação que em julho de 1974 levou seis militantes de esquerda da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) a ser mortos e enterrados clandestinamente no Parque Nacional do Iguaçu, no episódio conhecido como Chacina do Parque.
As vítimas foram atraídas para uma emboscada em local remoto, mortas e enterradas em lugar do Parque Nacional jamais revelado. A crueldade criminosa das execuções tornou ainda mais odienta a repulsa dos remanescentes da guerrilha à suposta traição do sobrevivente Alberi Vieira.
Já longe do Paraná, Alberi vivia em uma fazenda em Rondonópolis, Mato Grosso, integrando um grupo de 92 famílias expulsas de Foz do Iguaçu para a construção de Itaipu.
Foi o assassinato igualmente cruel de um segundo irmão de Alberi (José Soares dos Santos) que levou o ex-sargento a buscar vingança. José, que também participou da Guerrilha de Três Passos, em 1965, era pastor protestante, estudante de Direito e havia sido motorista da Prefeitura de Curitiba até 1974.
Na época em que morreu, entre 30 de janeiro e 4 de fevereiro de 1977, José tinha uma oficina mecânica na Vila Iolanda, em Foz do Iguaçu. O corpo foi encontrado com sinais de tortura e sevícias (mutilações e escoriações pelo corpo, dentes quebrados, olhos perfurados e castração).
Apurou-se que José foi detido junto com Godoy Sobrinho no dia 29 de fevereiro, a caminho de Foz do Iguaçu, por policiais do Paraná.
“O motorista que os levava a Foz do Iguaçu, Severino Kraus, conta que os detidos foram vítimas de roubo (os policiais teriam tomado CR$ 16.500 de José Soares e CR$ 22.000 de Godoy), tendo presenciado também o espancamento deles. José Soares recebeu ainda uma série de insultos por ser irmão de Alberi Soares Vieira” (Memorial da Resistência, https://x.gd/LmO0s).
O subdelegado de Jardinópolis, Orestes Francisco Tormes, afirmou que recebeu ordens do delegado de Medianeira, Octacílio Machado, de enterrar os corpos sem identificação. Machado negou, mas foi entregue à esposa de José, dona Ruth, uma aliança que o cadáver portava, com o nome dele, com o qual ela pôde ter certeza de que o marido estava morto.
A certidão de óbito entregue à família, de 25 de fevereiro de 1977, assinada pelos médicos João Ivano S. de Oliveira e Benedito S. Pinto, do Hospital de Medianeira, alegava como causa de morte “insuficiência cardíaca proveniente de hemorragia cerebral”.
Em maio de 1977 foi instaurado inquérito policial para investigar o crime, sendo designado um delegado especial tendo em vista o envolvimento do delegado local com o crime.
Por essa época, depois de passar uma temporada em Puerto Iguazú, Argentina, e já vivendo no Mato Grosso, ao saber que o corpo do irmão foi completamente mutilado, apresentando sinais evidentes de tortura, com os olhos vazados por gravetos e castração, Alberi jurou vingança.
Escreveu um relatório pormenorizado sobre o caso e seguiu rumo ao Sul em 10 de fevereiro de 1979. Em Cascavel, foi entrevistado pelo repórter Carlos Sperança, do jornal Fronteira do Iguaçu, que também escreveu a respeito dele e sua história de rebeldia e vingança para o Coojornal, de Porto Alegre.
Por meses Alberi seguiu os assassinos do irmão e só aguardava o momento certo para atacar sem ser apanhado.
O repórter cascavelense o avisou que ele corria muito perigo abrindo as cartas em detalhadas 50 folhas datilografadas nas quais contou os detalhes do episódio e os nomes dos apontados como assassinos do irmão.
No levantamento feito por Alberi constavam quem teria matado e quem tentou acobertar o crime. Seriam os soldados David de Tal, Nelson Manfrini e Gradowski, da Polícia Militar, e os agentes da Polícia Civil Paulo Rovedo, Dario de Tal e Tito Botolatti, da Delegacia de Pranchita.
Na lista ainda estava o delegado de Santo Antônio do Sudoeste, tenente Benjamin Rocha, o ex-delegado de Medianeira, capitão Octacílio Machado, e os médicos que teriam assinado falsos atestados de óbito.
Passando em Cascavel, onde deu entrevista à imprensa, Alberi chegou a Medianeira na noite do mesmo dia e foi pousar em Ramilândia no bar e dormitório de um amigo, Severino Miola, personagem histórico de Cascavel, ligado à instituição do Corpo de Bombeiros na cidade.
Alberi dormiu e não amanheceu. No dia seguinte, foi achado morto na estrada que liga Medianeira a Missal, abatido com quatro tiros de pistola nove milímetros, arma privativa do Exército. O perseguidor também estava sendo seguido.
No Auto de Achada de Cadáver, o delegado de Medianeira, Francisco Marcondes, relatou que nos bolsos de Alberi não foram encontrados documentos, joias, dinheiro ou quaisquer outros papéis. Suspeitou-se que o relatório de Alberi teria ficado com Miola.
Na manhã de 26 de fevereiro de 1979, contou Sueli Luiza Bogoni Miola, filha de Severino, que ajudava o pai no bar e dormitório, os policiais Floriano Ojeda e Natalino de tal, da delegacia de Matelândia, chegaram ao estabelecimento e pediram o almoço.
Depois de comer, Ojeda mandou o comerciante acompanhá-lo até Matelândia pois o delegado de polícia queria falar com ele. Miola achou estranho, mas mesmo assim acompanhou o soldado até um táxi que estava estacionado em frente.
Ao chegar em uma estrada vicinal em Linha Celeste, interior de Santa Helena, Ojeda empunhou um revólver e mandou Miola descer, contou o taxista Arnoldo Petsch ao delegado Manoel Fernandes, de Ramilândia.
“Eu implorei, pedi por misericórdia ao soldado Ojeda que ele não nos matasse, pois éramos dois velhinhos e precisávamos viver. Disse que ele podia levar nosso dinheiro e o carro. Aí ele respondeu que eu seria poupado, mas o outro ele iria matar”, contou o taxista.
Miola saiu do veículo, ajoelhou-se e com as mãos postas, implorou pela sua vida gritando: “Meu santo, me ajuda”. Nesse instante Floriano Ojeda deu o primeiro tiro atingindo a vítima na altura da boca.
Mesmo ferido, Miola entrou numa plantação de soja enquanto o soldado da PM corria em sua perseguição dando outros tiros. Assim que Miola caiu, o assassino atirou mais uma vez, atingindo o comerciante na cabeça. Em seguida pediu ao taxista que o levasse a Itacorá e de lá fugiu para o Paraguai.
Depois de muita especulação e nenhuma decisão, em despacho datado de 25 de fevereiro de 1985, o promotor João Péricles Goulart escreveu que tanto Alberi como seu irmão José foram vítimas de crime político.
Alberi foi enterrado com a pecha de traidor da guerrilha e Miola recebeu de Cascavel o nome de uma rua, entre as rodovias 369 e 467. Restou só a lembrança do horror e da impunidade reinantes naquela época.
Nascia em Rio Negro no ano de 1894 o homem que passaria à história como o primeiro morador de Cascavel: Ernesto de Oliveira Schiels, filho de Francisco Schiels e Balbina de Oliveira. No ano seguinte se formava a Encruzilhada dos Gomes, local em que se surgirá a partir de 1930 a cidade de Cascavel.
O cruzamento de diversas picadas ervateiras com a nova trilha militar, que levava em conta o divisor de águas, ao contrário da trilha pioneiro do tenente Firmino, passou a ser assim chamada quando a família Gomes unificou trilhas e construiu uma estrada carroçável.
Em 1895, a obrage Nuñez y Gibaja já dispunha de diversas trilhas ervateiras para a coleta de erva-mate no interior da região e levá-la ao Rio Paraná para exportação.
Esses caminhos esparsos foram mais tarde adaptados para a passagem de carroças pelo coronel Augusto Gomes de Oliveira, em negociação com a empresa Nuñez y Gibaja. O historiador Sandálio dos Santos, para diferenciar o novo traçado dos anteriores, qualificou a rota como Grande Estrada da Erva-Mate.
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