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Bandido Mister X pode ser nome de rua

Uma história só de heróis e pioneiros virtuosos seria encantadora se não houvesse criminosos homenageados até em vias públicas

10/05/2026 às 09h47
Por: Tissiane Merlak Fonte: Alceu Sperança
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A Estátua do escultor Bansksy em Londres denuncia os criminosos que mascaram suas atividades ilícitas se ocultando por trás do patriotismo ostensivo
A Estátua do escultor Bansksy em Londres denuncia os criminosos que mascaram suas atividades ilícitas se ocultando por trás do patriotismo ostensivo

Contar a história ignorando que alguns heróis e pioneiros glorificados cometeram crimes é desmoralizante para os historiadores, mesmo sob a justificativa de não passar para as novas gerações a ideia terrível de que o crime compensa. O grilo de terras, por exemplo.

O jurista baiano Rui Barbosa, advogado do Estado do Paraná, afirmou que “de atos ilegais não podem emanar consequências legais”, mas a vassoura do tempo gerou o apagamento dos pioneiros assassinados ou expulsos da terra e a glorificação em ruas, praças e prédios públicos de figuras que não resistiriam a um exame detalhado de suas verdadeiras histórias.

O termo “grilagem” vem de uma prática antiga de se colocar grilos (insetos) em uma caixa fechada com falsos documentos de registros de terras. Após algumas semanas, os grilos conferiam um aspecto amarelado ao documento, dando-lhe a falsa impressão de serem mais antigos do que eram.

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Em geral não se fala em um grileiro, mas em grileiros, no plural, sem especificar nomes, mas em seu novo livro (Estudos Históricos do Norte ao Extremo Oeste do Paraná: Fronteira, grilagem e resistência na dinâmica da colonização e no retorno dos excluídos [FAG]) os historiadores Maurílio Rompatto e Leandro de Araújo Crestani oferecem aos leitores vários nomes dos jagunços e outros criminosos.

O caso do café

Uma raridade em obras relativas à história do turbulento interior do Paraná, o livro expõe com clareza que as ações violentas cometidas nos anos de formação das regiões Norte, Noroeste e Oeste – o Sudoeste tem sua própria história para reforçar esse ponto – interromperam processos em andamento, fazendo alguns voltar à estaca zero e outros sofrer retardamento.

O livro é uma coletânea de ensaios reunidos pelos autores. Em artigo sobre o contrabando de café na fronteira Brasil-Paraguai nas décadas de 1950 e 1960, Rompatto faz a resenha das complicações criadas na época pela erradicação dos cafezais paranaenses e outras medidas do governo.

Nesse contexto surgem criminosos internacionais com organização (e até participação) militar, unindo informação, estrutura e sigilo para vencer as máquinas de investigação dos governos na região. Mesmo aprimoradas na prioridade da ditadura de combater o comunismo, a máquina repressiva estava sempre um passo atrás do crime organizado.

Como em grandes operações de guerra, também não poderiam faltar os codinomes. É assim que aparece na história o enigmático “Mister X”, referência feita pelo jornalista paraguaio Vicente Amayo em reportagens do jornal Diário do Paraná.   

“O funcionamento dessas redes evidencia a interdependência entre práticas legais e ilegais, uma vez que o café contrabandeado, em muitos casos, retornava posteriormente ao Brasil já beneficiado, adquirindo valor agregado e sendo reinserido nos circuitos formais de comercialização”, explica Rompatto.

Apelidos e codinomes

Por esse conjunto de fatores, evidencia-se “um fenômeno histórico que articulou crise agrária, fronteira, poder, violência e memória”. Por sua vez, Amayo vê que os “métodos rudimentares de atravessar fronteiras com pequena quantidade de mercadorias” evoluíram com o beneplácito oficial para a industrialização do processo, “organizando-o a ponto de usarem aviões, caminhões, barcos e armazéns de estocagem” (Diário do Paraná, 16/10/1959).

O rol de nomes começa pelo contrabandista Jonas Rachid Murad e seu sócio Miguel Schaio: “Estes elementos viajam por todo o Paraguai, circulando livremente e mantendo estreito contacto em Assunción com personalidade de destaque do governo”. Já o norte-americano Roy Robinson e outros compatriotas “encontraram no Paraguai o seu habitat praticando à larga o contrabando aéreo com seus aviões”.

Rompatto observa que a figura do “Mister X” nas reportagens de Vicente Amayo não se refere a um só personagem: “Enquanto diversos contrabandistas são nomeados explicitamente, o Mister X representa agentes situados em níveis mais altos do Estado, apontados pelo próprio jornalista como articuladores do contrabando a partir das esferas governamentais”.

Na parte brasileira, quadrilhas especializadas se formaram para levar café ao Paraguai e trazer de lá cigarros, bebidas, perfumes e uísque, destacando-se a figura do veterano líder Zé Cigano, cuja sofisticação incluía o monomotor Beechcraft Bonanza A 36, que pousava em uma pista clandestina no Mato Grosso.

Nadando sem perna

Morador de uma das ilhas do Rio Paraná, em Porto Rico, o nome “Zé Cigano” parece tão codinome quanto os de seus mais famosos associados, casos dos jagunços Valdir Preto e Chico Pirata, do qual se contam histórias fantásticas, como tentar a travessia do Rio Paraná a nado para fugir de uma patrulha militar, mesmo não tendo uma das pernas.

Capturado, nem por ser deficiente físico ele escapou à tortura mais praticada na época – a da tampa da lata de azeitonas. Iguaria muito apreciada, elas vinham em grandes latas que tinham as tampas cortadas para ser postas sob os pés dos torturados.

Além das dores lancinantes que sofriam por baixo, eram golpeados nos rins. Por não deixar marcas visíveis, essas eram as principais formas de tortura praticadas com a intenção dos torturadores de evitar que fossem documentadas pelos advogados dos presos.   

Além de eventuais apelidos, poucos grileiros e jagunços chegaram a ser mencionados por seus nomes reais nos registros históricos, apesar da amplitude dos esquemas praticados. Relatório da Interventoria Federal do Paraná do período de 1932 a 1944 “relaciona 20 grandes grilos de terra no Paraná, perfazendo uma área total de 2.434.567 alqueires, quase 20% de todo o território do Estado” (Valdir Izidoro da Silveira, Os Comunistas e a Reforma Agrária no Paraná).

Quem grilou: empresa ou Estado?

Um dos raros casos em que a mecânica da grilagem foi historiada, com nomes e detalhes, é o Grilo Santa Cruz, em obras que explicam bem o que acontecia na região e no Estado nas brechas entre os conflitos entre o Estado e a União.

Ironicamente, um raro caso em que o termo “grileiro” apareceu no singular foi o de uma empresa documentada ela própria como grileira, ou seja, como responsável pela apropriação indevida de terras no Oeste paranaense – a Sociedade Colonizadora União D’Oeste Ltda.

A empresa acusava o Estado de não ter documentação de qualquer natureza referente à “Fazenda Santa Cruz” ao promover ação de anulação e cancelamento dos títulos de propriedade da colonizadora. Para ela, o único grileiro neste caso era exatamente o Estado do Paraná.

Como o Estado atribuía a essa empresa ter em seu corpo “grileiros”, “aventureiros” e “surripiadores do patrimônio do Estado”, ao se defender ela acusou os documentos apresentados na “Ação Ordinária de Anulação de Escrituras e Cancelamento de Transcrições” como “falsos”, “fabricados” por funcionários do Governo do Estado.

A luta na Justiça entre a empresa e o Estado permitiu uma ampla visão do que aconteceu com o Grilo Santa Cruz e o grau de sofisticação das tramas, que envolviam manobras cartoriais feitas para legalizar as operações, que teriam dado certo se a Revolução de 1930 não virasse a mesa.

Emboscado e preso

As colonizadoras que acobertavam grilos de terras jogavam pesado contra os advogados dos posseiros esbulhados. Por sua ousadia no combate ao roubo de terras, o advogado Ezuel Portes (1922–1985) e seus familiares foram vítimas de ciladas e emboscadas feitas por pistoleiros contratados pelos grileiros de terras, culminando com um atentado à sua residência/escritório, no local onde hoje se encontra o Edifício Lince.

A ditadura civil-militar implantada pela força de um golpe contra a legalidade constitucional no 1º de abril de 1964 também veio trazer inúmeros dissabores para os advogados. Nessa época o advogado Portes ficou dez dias detido em Curitiba e morreu pobre, mas em geral os grileiros que ele combatia enriqueceram em liberdade.

Mesmo sendo grileiros de fato, os novos proprietários de terras conflitadas posavam de pacíficos pioneiros, compradores legítimos e heróis em sua comunidade, patrocinando escolas, fazendo doações para praças e prédios públicos, maquiando suas atividades por trás da bandeira nacional, como na estátua-denúncia do escultor Bansky. Mais de um século depois, a verdade se oculta por falta de provas.

A primeira família: O Oeste todo argentino 

 A região “era praticamente um domínio de poderosas empresas argentinas que exploravam a industrialização da erva-mate e a extração de madeiras, com serviços bem-organizados em termos de pessoal operário e transportes de seus produtos até as barrancas e portos do Rio Paraná. Só falavam em idioma castelhano e guarani” (Sandálio dos Santos, Memórias).

Santos prossegue:

“A autoridade emanava de suas próprias administrações e com seus regimes particulares. Causava espécie encontrar pelos picadões um major-domo*, elemento esse encarregado da administração em montaria bem ajaezada e seguido de seu estado-maior, capatazes, fâmulos etc”.

Próximo de Catanduvas, entre os rios Tormenta e Tormentinha, havia a fazenda de Augusto Gomes de Oliveira, que requereu do Estado uma grande área de terras e se propunha a explorar os ramos de agropecuária e extração de erva-mate.

De Catanduvas, segundo o relato de Sandálio dos Santos, a estrada atravessava a nova Fazenda Gomes e chegava a Rio do Salto após transpor o Rio Tormenta, já em território da empresa Domingos Barthe (nos anos 1950 fazenda da Industrial Madeireira do Paraná Ltda), aproveitando partes de uma antiga picada tropeira.

*Major-domo: do Latim medieval mājor domūs. Administrador, chefe de pessoal. Origem também da palavra mordomo.

Rio Tormenta, navegado pelos pioneiros quando não havia estradas 

 

 

 

 

 

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