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Como (e quem) decidiu o nome “Cascavel”

Houve uma longa batalha para definir se a cidade teria o nome do rio ou “Aparecida dos Portos” até um padrinho resolver

07/06/2026 às 09h09
Por: Tissiane Merlak
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Era impossível a Cascavel do Paraná, criada em 1930, ter esse nome, mas emenda de Bento Munhoz à Constituição lhe garantiu o mesmo nome da Cascavel cearense, criada em 1833.
Era impossível a Cascavel do Paraná, criada em 1930, ter esse nome, mas emenda de Bento Munhoz à Constituição lhe garantiu o mesmo nome da Cascavel cearense, criada em 1833.

Com mais um ano de mandato a cumprir, em meados de 1954 o governador Bento Munhoz da Rocha Neto não poderia postular a reeleição, na época proibida pelas leis eleitorais aos governantes em exercício.

Seu horizonte político era subir a um Ministério ou concorrer à Presidência da República no ano seguinte. Mas para se qualificar no cenário nacional ele precisava manter a popularidade alta em todo o Estado e na época o eleitorado de Cascavel era, mais que um curral, praticamente uma fazendona do ex-governador Moysés Lupion.

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Lupion concorria ao Senado nas eleições de 3 de outubro de 1954, tentando se tornar um nome nacional e preparar o retorno ao governo do Estado na eleição de 1955.

Por sua vez, Bento enfrentou sérias críticas por não atender ao apelo do grupo religioso que propunha a criação do “Município de Aparecida dos Portos”: em 14 de novembro de 1951 ele optou pelo nome do Distrito de Cascavel, que vinha da década de 1930.

Era o ponto culminante de uma longa história, que chamamos de “Batalha das Três Cascavéis”, pois na ditadura Vargas havia três localidades chamadas Cascavel. Uma situada no Estado do Ceará, outra em São Paulo e a paranaense.

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“Guairacá” não pegou

Pela regra, só a mais antiga poderia manter o nome. Sendo a mais nova, iniciada em 1930, a Cascavel do Paraná não tinha nenhuma chance. A Cascavel do Ceará era de 1833, quase cem anos anterior à paranaense. Depois vinha a Cascavel paulista, iniciada em 1887.

Para atender à lei da incoincidência de nomes, em 1943, com a criação do Território do Iguaçu, o nome da Cascavel paranaense foi trocado para Guairacá, enquanto a Cascavel paulista, mais jovem que a nordestina, ao virar Município, em 1944, teve que mudar o nome para “Aguaí” – que no idioma Tupi significa “guizo” ou “cascavel”.

Mas algo inusitado aconteceu dois anos depois: em 1946, a Constituição pôs fim ao Território Federal e mandou que as cidades do Oeste do Paraná teriam de volta os nomes antigos. Com isso, “Iguaçu” voltou a ser Laranjeiras do Sul e “Guairacá” voltou a ser Cascavel.

Portanto, a Cascavel do Paraná, que não tinha a menor chance de manter esse nome, por imposição superior da Constituição do Brasil empatou com a Cascavel mais antiga e venceu a paulista. Mesmo assim, a ala religiosa descontente não desistia de exigir a mudança para “Aparecida dos Portos”, alegando que a serpente representa o Mal.

Em resposta ao argumento dos “carolas”, os tradicionalistas, defensores do nome Cascavel, sustentavam que a cobra cascavel nunca representou o “mal” que outras serpentes poderiam sugerir: seu veneno não se destinava a maldades, sendo apenas sua arma de caça para sobreviver, assim como o caçador humano que abate animais para se alimentar não o faz por maldade.

Disputa desde 1930

Na verdade, os burocratas que definiram o nome da cidade na época da lei de criação do Município (1951), além de não verem nenhum “mal” precisavam atender à legislação, que recomendava a preferência pelo nome de um acidente geográfico.

Como o Rio Cascavel já era assim denominado desde o século XIX, nesse caso o governador não decidiu nada: apenas atendeu à recomendação de dar ao Município o nome do distrito, que por sua vez foi derivado em 1934 do Rio Cascavel.

Ainda na época do Território do Iguaçu, quando a população se recusou a mudar o nome da cidade para “Guairacá”, as opções preferidas eram retornar a “Cascavel”, mudar para “Aparecida dos Portos” ou, alternativamente, diferençar da Cascavel cearense adotando a denominação “Cascavel do Sul”. Esta já usada pelo jornal Correio d’Oeste, de Celso Formighieri Sperança, por indicação do major Oscar Ramos Pereira.

Bento tinha plena ciência da acirrada disputa pelo nome do lugar desde 1931, quando o prelado de Foz do Iguaçu, monsenhor Guilherme Thiletzek, batizou a nascente vila de Cascavel como “Aparecida dos Portos”.

Deu-se assim uma longa e complicada disputa, narrada no livro “Cascavel: Uma santa na Encruzilhada” (t.ly/gTsPI), mas se acreditou que com a criação do Município a pendenga havia terminado.

Não foi bem assim. Cascavel, já Município havia dois anos e meio, ainda era alvo de sérias críticas ao governador por uma parte importante da população.

Ouvir a população, rara prática

Bento, sentindo a necessidade de alimentar seu prestigio também em Cascavel, imaginou um plano – um recurso que jamais usou antes nem usaria no futuro: consultar diretamente a vontade da população.

Foi nesse quadro que o governador convocou os cascavelenses para resolver em praça pública qual deveria ser o nome definitivo da cidade. A consulta foi marcada para o dia 9 de junho de 1954, mas entre a convocação feita por Bento e a realização da consulta, o Lions Clube se tornou a “praça pública”, segundo narrativa de seu então presidente, Rubens Nascimento, no livro Histórias Venenosas (Ed. Aliança Integração, 1999).

A definição final do nome da cidade se deu em reunião no Lions com “a chamada fina flor da sociedade local”, escreveu Nascimento. “O que fosse discutido seria um modo de balizar o pensamento geral”.

“Mas mal terminei de falar, começou um ouriçamento total, como nunca vira em minha vida, mormente em uma reunião de Lions Clube”, segundo Nascimento. “Quem não se levantou, levantou pelo menos um braço, todos falando ao mesmo tempo ou indicando que queriam falar”.

“Para acalmar a reunião tive que usar com vigor o símbolo da autoridade leonística, que é o sino. Depois, como é de praxe no Lions Clube, dei a palavra ao Leão mais idoso, na época o Dimas Pires Bastos [1911–1977], titular do Cartório do Registro de Imóveis”.

A palavra do líder

Bastos, paulista de Avaré (SP), passou a residir em Cascavel na década de 1940, vindo para exercer a Gerência da Serraria São Domingos, vinculada à Industrial Madeireira do Paraná, então propriedade do governador Moysés Lupion.

Dimas Bastos também dirigiu uma pedreira, foi o primeiro titular do cartório de Registro de Imóveis da Comarca, o primeiro agente das Linhas Aéreas Cruzeiro do Sul, fundador do Tuiuti Esporte Clube e do próprio Lions Clube.

“Homem um tanto sisudo, que raramente usava da palavra”, segundo Nascimento, Bastos “falou curto e grosso”.

“Realmente, começou ele, Cascavel é o nome de um a cobra repelente. Mas, por outro lado, impõe respeito. E graças à coragem e a pujança de seu povo a cidade está sendo conhecida não só no Paraná, mas no Brasil inteiro. Quanto a atribuírem a Cascavel muitas histórias de violência, casos que aconteceram e acontecem fora dos nossos limites, deixem que falem. Pois certo está o ditado – falem mal, mas falem de mim”.

“E mais ele não precisou falar. As palmas que se seguiram indicavam que ele interpretara exatamente o pensamento de todos. E como ninguém ousou falar mais a respeito, ficou praticamente assentada uma pá de cal sobre o assunto”.

No fim, sua emenda decidiu

Com base nessa definição final, o governador decidiu que não havia motivo para mudar o nome de Cascavel, sobretudo por se tratar de uma decisão embutida na Constituição do Brasil por uma emenda que ele próprio havia sugerido quando foi deputado federal constituinte.

No fim das contas, a manobra de abrir aos cascavelenses a possibilidade de mudar o nome não rendeu grande sucesso ao governador em busca de se tornar popular onde ainda não era tão benquisto, pois a votação de Moysés Lupion em Cascavel sempre foi impressionante.

Com orgulho, Lupion disse ao jornalista Aramis Millarch que teve todos os votos em uma eleição em Cascavel: “Meu adversário ficou com zero voto” (O Estado do Paraná, 23/9/1990).

De onde veio a impopularidade de Bento só em Cascavel? Veio do prefeito José Neves Formighieri, que ao assumir a Prefeitura em 1952 denunciou o governador por não liberar a verba que serviria para a instalação do Município, usada para construir o Palácio Iguaçu.

Mesmo assim, a rua com seu nome foi mantida, até porque tinha prestígio e foi ministro da Agricultura em 1955. Mas em 1963, com a morte do papa Pio XII, o religioso lhe tomou o lugar.

Atualmente, sequer uma viela tem o nome do ex-governador que em 1954 tentou ser amado concedendo à população o direito de escolher o nome do Município. Ironicamente, o nome Cascavel na verdade só permaneceu devido à aprovação de sua emenda para extinguir o Território do Iguaçu, em 1946.

A primeira família: Braviaco, a colonizadora 

Apesar de já haver uma estrada permitindo melhor acesso, poucos sertanejos se aventuravam vir povoar a região. Não seria razoável sair com a família do lugar onde vive e trabalha para ir a um rincão que ninguém conhecia. Seria preciso o governo ou a iniciativa privada criar condições para motivar o deslocamento com a certeza de ter um destino melhor.

Surge assim o elemento que no futuro vai propiciar a ocupação do pouso ervateiro desativado do Cascavel Velho, narra Sandálio dos Santos:

 “Organizava-se em Curitiba uma empresa colonizadora, a Companhia Brasileira de Viação e Comércio, a Braviaco (t.ly/Gb6ES). Essa companhia visava adquirir do governo estadual as terras devolutas da região e para isso foram as mesmas levantadas topograficamente e medidas em toda a região com exceção das propriedades das companhias São Paulo–Rio Grande, à margem direita do Rio Iguaçu, Domingos Barthe, Núñez y Gibaja, Madeiras do Alto Paraná, Julio T. Allica e Mate-Laranjeiras”.

Com as medições e demarcações da Braviaco se evidenciou a existência de urna grande área de terras devolutas encravada entre as propriedades da Companhia Barthe e Núñez y Gibaja propícias à colonização.

Propaganda da erva-mate produzida por Domingo Barthe: paraguaia, com certeza

 

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