6°C 17°C
Cascavel, PR
Publicidade

O roubo do Simca Chambord

Classe unida pelas dificuldades, os taxistas formavam uma polícia paralela muito eficiente 

21/06/2026 às 09h23
Por: Tissiane Merlak Fonte: Alceu Sperança
Compartilhe:
O Simca Chambord, o caminhão Chevrolet Gigante, Marcon e sua gaita.
O Simca Chambord, o caminhão Chevrolet Gigante, Marcon e sua gaita.

Em 2008, quando Avelino Marcon foi chamado a ingressar na Boca Maldita de Cascavel, muitos já o conheciam por ser um exímio gaiteiro, sempre requisitado a animar bailões e festas na região. Então já na altura dos 72 anos, sua história agradou tanto que virou livro no ano seguinte: “Lutas, Sonhos e Realizações” (Assoeste).

Marcon chega aos 90 anos acumulando ainda mais histórias de vida, mas provavelmente a mais cinematográfica de suas aventuras foi o episódio em que seu estimadíssimo carro Simca Chambord foi roubado horas depois de vir de mudança para Cascavel. 

Continua após a publicidade

Com uma vida dividida em três partes – antes do Simca, as peripécias em torno do roubo e depois da recuperação do carro –, Avelino começou sua história nascendo em agosto de 1935 no interior de Erechim (RS), no Norte gaúcho.

O pai Achilles, carroceiro que virou agricultor e em seguida suinocultor e comerciante de produtos agrícolas, produzia queijos e salames no porão do estabelecimento comercial. 

O garoto Avelino amava a música e seu primeiro sonho foi ser gaiteiro. Em 1948, quando o pai comprou um caminhão Chevrolet Gigante, veio com ele um segundo sonho: ser motorista do caminhão. 

Continua após a publicidade
Anúncio

O primeiro sonho se realizou com a economia feita com os trabalhos para a família até os 15 anos: 28 quilos de moedas lhe renderam um acordeão Somenzi de 80 baixos e dois registros. Enquanto aprendia a tocar, aos 16 anos começou a dirigir o caminhão do pai. Logo foi intimado a tocar em público e se saiu tão bem que decidiu vender o acordeão limitado para formar um conjunto musical: Irmãos Marcon.

Ameaça ao balseiro

Com os lucros das atividades da família, o pai comprou terras no Mato Grosso e Avelino, ainda muito jovem, também decidiu investir em terras, mas se deixou seduzir por um projeto inovador, embora ambicioso demais, no interior do Paraná. Um projeto da colonizadora Agrinco, que logo faliu e levou suas economias.

Cumprindo o serviço militar, calhou de estar às voltas no quartel com a turbulência nacional e a rebelião causada pelo suicídio de Getúlio Vargas, que os gaúchos não acreditaram possível, preferindo supor que seu líder foi assassinado pelos inimigos.

Deixando o Exército, foi como caminhoneiro que Avelino veio conhecer a pequena cidade de Cascavel, em 1956, encontrando famílias que conheceu no Sul: Sarolli, Beal, Bertoncello e Sonda, em cuja casa se hospedou.

Carregando até o limite cargas de farinha de trigo, pregos, fogões e outras mercadorias para Cascavel e do Oeste levando feijão ou milho para Erechim e Porto Alegre, Avelino perdeu as estribeiras quando em Porto Santana, no Rio Iguaçu, seu sobrecarregado caminhão pressionou a balsa, ameaçando-a de afundar. 

O balseiro tentou cortar as cordas para livrá-la do risco de ir a pique, mas Avelino, brandindo um revólver Colt 32, gritou: “Não corte o cabo porque eu te apago!”

Os caminhoneiros decidiram que o melhor a fazer era tirar a carga para fazer o caminhão passar sem todo o peso e assim se fez para evitar que Avelino puxasse o gatilho. Logo os caminhões encalharam mais adiante e os caminhoneiros foram de jipe a Chopinzinho, onde Avelino foi chamado para a animar uma festa.

Destino: Cascavel 

Em poucas horas, Marcon escapou de ser preso pela possível morte do balseiro para, chateado, porém a salvo, ser em seguida aplaudido em baile dos caminhoneiros que esperavam tempo firme para desencalhar os caminhões.

Era habitual desatolar caminhões de dia e tocar bailes à noite. Mais ainda ver os jovens irmãos Marcon cascalhando dedicadamente o trecho de estrada entre Paulo Frontin e São Valentim, ação que tinha uma explicação romântica: em SV moravam as namoradas.

Popular, Avelino nas eleições de 1958 concorreu a vereador em São Valentim, perdendo por dois votos – por azares da época, ele não pôde votar em si mesmo e a namorada, Lucília Trombetta não tinha ainda idade legal para votar.

Em 1959 ele se casa com ela, tendo Adolival Pian e Xavier Sarolli como dois dos padrinhos. A frota da família foi acrescida de um caminhão Ford F-600 e os negócios prosperavam, embora em meio a muitas chuvas só fosse possível viajar em áreas cascalhadas e com o uso de correntes. 

A essa altura, as viagens com mercadorias se mesclavam aos roteiros de bailes contratados para o gaiteiro brilhar. Estabelecendo-se em Faxinalzinho após o casamento, Avelino se dedicou ao comércio, mas já alimentava a ideia de se transferir para Cascavel.

Antes ainda se mudou para Nonoai, onde adquiriu seu famoso Simca Chambord, com o qual traria para Cascavel a família imediata (ele, a esposa Lucilia e o filho Cesar) em fins de novembro de 1964.

A caça aos bandidos 

Com tristeza, chegaram durante o sepultamento de João Sarolli. Passaram o feriado de Finados arrumando a casa onde iriam morar e na manhã seguinte deram pela falta do Simca Chambord, que deveria estar estacionado diante da residência.

Avelino correu à casa do vizinho, o taxista Natalino Nazzari (1936–2014), pai da futura professora Rosana Kátia Nazzari, onde soube que na madrugada haviam fugido vários presos da cadeia local. A direção tomada pelos ladrões só poderia ser rumo a Toledo, Laranjeiras do Sul ou a Foz do Iguaçu.

Começa a perseguição atrás dos ladrões do Simca Chambord com Avelino e um taxista seguindo com um jipe de quatro portas em direção a Laranjeiras e outro táxi rumo a Foz do Iguaçu. 

Unidos pelas dificuldades, a classe dos taxistas era muito unida e solidária, não apenas entre si, mas também com a comunidade, pelas relações de amizade e vizinhança tecidas ao longo do tempo.

As corridas a Foz do Iguaçu e Laranjeiras não tiveram sucesso, mas a essa altura foi procurado reforço aéreo e espalhada a notícia do roubo do Simca para Umuarama, Campo Mourão e Londrina. 

A ida a Toledo inicialmente não produziu resultados, mas no cruzamento de informações entre os taxistas da região logo se mostrou o rumo correto.

Precisando recolher uma carga de madeira na serraria do tio Mano Sarolli, ao voltar Avelino recebeu de Arvilho Sonda a informação de que o Simca foi avistado em Toledo.

Taxista forte, bandido fraco

A pista certa era de fato a de Toledo, onde os ladrões foram avistados passando por um posto de gasolina e seguindo para Quatro Pontes, onde em outro posto com borracharia o carro foi visto com correntes e todo embarrado. 

O cunhado de Avelino, João Batista, acompanhado por um taxista, parou para consertar um pneu quando por volta da meia-noite dois carros passaram pelo local. Atrás vinha um táxi em perseguição ao carro da frente, que de imediato João Batista reconheceu como sendo o Simca Chambord roubado.

A perseguição prosseguiu com sucesso, pois no desespero da fuga os ladrões do Simca se embrenharam por uma rua que terminava no mato. Ao se ver encurralados, os bandidos deixaram o carro em ponto morto e saltaram para enfrentar o taxista que os perseguia.

Um dos dois ladrões correu para o matagal, enquanto um se pôs na direção do taxista, mas no embate percebeu que não levaria a melhor e provavelmente cansado de tanto fugir também desapareceu no mato.

Logo apareceram mais taxistas que seguiam em apoio e a polícia foi chamada para recolher o veículo, dando sequência aos procedimentos da investigação. 

Nesse interim, ao desembarcar de volta no aeroporto de Cascavel, Avelino foi avisado por um dos taxistas que fez parte da operação parapolicial de busca que o Simca foi achado em Guaíra e o cunhado João o acompanhou até a Delegacia de Polícia, onde o veículo estaria sob guarda até o esclarecimento dos fatos.

A única vítima 

Não se soube o destino dos ladrões foragidos, mas dessa história decorreu a união ainda mais estreita entre os taxistas, que sempre mantiveram comunicação em benefício da classe e das comunidades.

Atualmente, quando muita gente possui veículos próprios, os taxistas enfrentam o trânsito caótico e as dificuldades econômicas desta época sem abrir mão de sua rede de comunicação que lhes permitia muitas vezes alcançar foragidos antes que a polícia. Algo que acontecia sobretudo nos tempos pioneiros, quando inexistiam modernos meios de comunicação e os efetivos de segurança eram escassos e sem recursos.

A única vítima identificada do episódio do Simca Chambord foi um cabrito que o sogro de Avelino Marcon, Victorio Trombetta, abateu para a festa de comemoração do resgate do cobiçado veículo.

A família ampliou seus negócios criando a loja Luce (das irmãs Lucilia Marcon, esposa de Avelino, e Cecilia Paterno). Com os ganhos no comércio, os Marcon compraram mais um Simca, desta vez o modelo Regente, que passou a ser fabricado pela Chrysler.

A primeira família: Partindo ao Cascavel Velho

Em 1921, como para celebrar o nascimento do primeiro filho de Ernesto e Laurentina, Antônio Elias adquire as melhores terras oferecidas pela companhia Braviaco – o antigo pouso ervateiro Cascavel Velho e margens do Rio Cascavel –, junto à companhia colonizadora Braviaco, representada pelo engenheiro Francisco Natel de Camargo, membro da histórica família que sempre dominou o Paraná desde o II Reinado.

O plano de Elias era ocupar a área de melhor qualidade adquirida e a partir daí escolher boas terras devolutas ao redor para requerer ao Estado, tarefa que seria cumprida em breve pelo cunhado Ernesto e esposa Laurentina.

Elias decidiu que a partir da primavera de 1922 passaria a explorar a área, sem pensar em ganhos imediatos. Para dar início às atividades, mandou o cunhado, Ernesto de Oliveira Schiels, que partiu da vila de Cantagalo com a família, parentes, amigos e uma carroça carregada de mudanças. 

A filha Maria Francisca, recém-nascida, estava cercada de cuidados para fazer uma viagem sem problemas. A pequena caravana veio formada por oito pessoas, dez porcos, quatro cavalos e meia dúzia de vacas.

 

Trajeto atual entre Cantagalo e Cascavel 

 

 

 

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Alceu Sperança
Sobre o blog/coluna
Jornalista, escritor e historiador.
Ver notícias
Cascavel, PR
Tempo limpo

Mín. Máx. 17°

Sensação
3.45km/h Vento
92% Umidade
0% (0mm) Chance de chuva
07h18 Nascer do sol
05h53 Pôr do sol
Seg 17°
Ter 11°
Qua 13°
Qui 15°
Sex 17°
Atualizado às 09h01
Publicidade
Publicidade
Economia
Dólar
R$ 5,15 +0,00%
Euro
R$ 5,91 +0,00%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 349,892,58 +1,51%
Ibovespa
168,333,61 pts 0.03%
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Lenium - Criar site de notícias